SEJA ÉTICO

SEJA ÉTICO: Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução do conteúdo deste blog com a devida citação de sua fonte.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Arco do Telles


Em plena Praça 15, no Rio de Janeiro, está o tradicional Arco do Telles (ou Teles), que leva esse nome por ter sido mandado construir pelo juiz português Antonio Telles Barreto de Menezes (em outras fontes, faz-se menção a Francisco Barreto Teles de Meneses). Com a construção do Paço dos Governadores, em 1743, que futuramente viria a ser o Paço Imperial (ver em Minhas Fotos nº 5), e com a consequente valorização da área, o juiz comprou vários terrenos naquele local e mandou construir casas, para alugar a famílias de mais posses e comerciantes. A própria família Telles de Menezes chegou a residir no local. O arco, que teve o seu nome associado ao morador ilustre, está localizado no número 34 da Praça 15, no prédio que sediou o Senado da Câmara, o que seria a Câmara dos Vereadores atualmente. Sua construção foi uma maneira encontrada pelo engenheiro português José Alpoim para evitar o isolamento entre o Largo do Paço, atual Praça 15, onde havia um grande mercado de peixes, e a Rua do Ouvidor. Alpoim foi também responsável pelo projeto do Paço Imperial.

Em 1790, porém, um grande incêndio iniciado na então Rua Direita, atual Primeiro de Março (ver Minhas Fotos nº 36) destruiu a maioria das casas, deixando de pé apenas o trecho atual. Muitos documentos do Senado da Câmara foram destruídos. Houve vítimas fatais e muitos feridos. Após o incêndio, o local se desvalorizou, e as famílias de classe alta e grandes comerciantes se mudaram. Após a sua reconstrução para lá se mudaram pessoas de baixa renda, prostitutas e marginais. Por conta dos novos moradores, até mesmo a imagem da Nossa Senhora dos Prazeres, que atraía muitas pessoas, foi retirada da região, e levada para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, na atual Rua dos Inválidos.

Com os anos, a região tem experimentado períodos de valorização – como com a chegada da família real, em 1808, que inicialmente passou a residir no Paço Imperial -, e, posteriormente, com a sua saída para São Cristóvão, abandono. Atualmente o Arco do Telles é muito conhecido pela sua vida noturna, com seus bares e restaurantes, música ao vivo e pela arquitetura dos antigos casarões e o calçamento de paralelepípedos. A família de Carmen Miranda residiu de aluguel no local de 1925 a 1931, mais especificamente no nº 13 da Travessa do Comércio, onde a mãe de Carmen, dona Maria Emilia tinha uma pensão, em que servia comida às pessoas que trabalhavam por perto. Em sua adolescência, Carmen fazia a entrega das marmitas da mãe. Mesmo com a saída da família, o local continuou sendo usado como restaurante. Eu cheguei a almoçar várias vezes no local, mas desde o ano passado o prédio está fechado, e até retiraram da porta um pequeno quadro que informava que Carmen Miranda morou lá, uma pena!

Existe também uma lenda da bruxa Bárbara dos Prazeres, apelido por conta da imagem da santa. Portuguesa, veio para o Brasil com 18 anos, com o marido, a quem teria assassinado para ficar com um amante, que, depois, a enganou. Prostituiu-se por 20 anos justamente no local do Arco, e quando mais velha e sem clientes, teria procurado um encanto em uma casa de feitiçaria, que teria como um dos ingredientes o sangue humano. A partir daí ela teria passado a cometer crimes, assassinando crianças e bebês para se manter jovem. A sua gargalhada pode ser ainda ouvida de madrugada, quando o local encontra-se deserto. Pelo menos é o que diz a lenda.

O Arco do Telles tem grande relevância histórica como um pequeno pedaço do que sobrou da época do tempo colonial do Rio de Janeiro. Atualmente, é usado como cenários para filmes e produções da TV, como recentemente foi pela Rede Globo. E à noite a Travessa do Comércio e as proximidades vivem tomadas pelos frequentadores dos bares e casas de shows da região. Como se pode ver das fotos que tirei, abaixo, o Arco contrasta com os modernos prédios construídos à sua volta. Foi tombado em 1938 como bem cultural pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), assim como o prédio nº 34 da Praça 15 de Novembro. fr






























Frases: Michel Temer

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Relatório da Aeronáutica colombiana diz que avião da Chapecoense não tinha combustível suficiente para chegar ao destino

Encontro histórico das duas Coreias anima o mundo

Os dois líderes coreanos fizeram ontem um encontro histórico. O ditador norte-coreano Kim Jong-um atravessou a fronteira e visitou a vizinha Coreia do Sul, sendo recebido pelo presidente Moon Jar-in. A pauta da reunião foi sobre a desnuclearização da região. É a primeira vez que um líder norte-coreano pisa no solo vizinho, desde o fim da Guerra da Coreia (1950-1953). Apesar do fim daquele conflito, até hoje os dois países não assinaram formalmente um acordo de paz, estando apenas vivendo em um armistício, ou seja, em uma interrupção dos confrontos. Vivem até hoje em estado de guerra, apesar de todas as transformações pelas quais o mundo passou desde então, inclusive o fim da Guerra Fria. Esta é a retomada das conversações de paz, interrompidas em 2008. O mundo inteiro comemorou o encontro, e países como Rússia, China e Japão manifestaram o interesse em participar dos esforços para encontrar a paz na região. Pelo menos no discurso... Os Estados Unidos, por terem participado da Guerra da Coreia, devem participar e aprovar os termos do tratado entre os dois países. Vamos torcer! fr

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Dica de filme: "Olhar Estrangeiro"

OLHAR ESTRANGEIRO
Brasil, 2006, Documentário
Direção: Lúcia Murat
Com: Michael Caine, Jon Voight, Larry Gelbart, Hope Davis
Assisti na videoteca do CBBB ao filme “Olhar Estrangeiro”, documentário que expõe a visão estereotipada que o cinema e as pessoas em geral nos Estados Unidos e na Europa têm do Brasil e dos brasileiros. O filme cita 16 produções estrangeiras que usam o Brasil como cenário ou tema; e entrevistas com 15 atores, diretores e produtores. É muito curioso, e até um pouco revoltante, constatar como é grande a ignorância no exterior acerca do Brasil, dos nossos costumes e cultura. Até mesmo por conta dos profissionais responsáveis pela produção dos filmes, que seriam os responsáveis pela pesquisa sobre o país do qual estão retratando. Um absurdo! Os filmes cometem erros ridículos, como passar a ideia que o povo fala espanhol, as mulheres andam sem a parte de cima do biquíni naturalmente nas praias, as pessoas praticam, em sua maioria, rituais da Umbanda ou Candomblé, e por aí vai. Os entrevistados mostravam-se surpresos quando informados que o que era mostrado em seus filmes não correspondiam com a verdade, o que mostra o pouco caso em procurar conhecer um pouco que fosse sobre o Brasil e os brasileiros. Vale a pena uma conferida!  fr

O orgulho afasta muito mais do que as distâncias

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Brasil conquista 7º título em 8 edições da Copa América de futebol feminino

De forma invicta, o Brasil conquistou ontem, no Chile, o sétimo título em oito edições da Copa América de futebol feminino (1991, 1995, 1998, 2003, 2010, 2014 e 2018). Venceu neste domingo, por 3x0 a Colômbia, e já entrou em campo com a taça garantida, já que a Argentina, única rival que poderia encostar em pontos, se o Brasil perdesse seu último jogo, perdeu por 4x0 para as chilenas, vice-campeãs. A campanha vitoriosa: 3x1 Argentina, 8x0 Equador, 4x0 Venezuela, 7x0 Bolívia, 3x1 Chile, 3x0 Argentina e 3x0 Colômbia. Uma superioridade inquestionável: sete vitórias em sete jogos, 31 gols marcados e somente dois sofridos, 29 gols de saldo a favor (a vice-campeão, o Chile, teve um saldo a favor de apenas oito gols). As brasileiras garantiram vaga na Copa do Mundo do ano que vem, na França, e nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio. fr

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Cuba escolhe sucessor de Raúl Castro

           Em decisão histórica, a Assembleia Nacional de Cuba aprovou o nome de Miguel Díaz-Canel como o novo presidente cubano, interrompendo a sequência dos revolucionários irmãos Fidel e Raúl Castro no poder, há quase 60 anos. Candidato único, ele foi eleito pelos 604 deputados e garantiu que a mudança de comando não representa o distanciamento dos ideais revolucionários:
- Para aqueles que por ignorância ou má-fé duvidam de nosso compromisso, devemos dizer-lhes que a revolução continua e continuará. O mundo recebeu a mensagem errada de que a revolução termina com seus guerrilheiros.
 Ontem, os parlamentares haviam aprovado uma lista de 31 nomes para o Conselho de Estado O atual líder Raúl Castro permanecerá ainda como o secretário-geral do Partido Comunista de Cuba (PCC) até 2021, chefe das Forças Armadas e deputado nacional. A mudança já era esperada, e foi anunciada por Raúl quando ele assumiu o poder, em substituição a seu irmão Fidel Castro, afastado por problemas de saúde. Amanhã, dia 20, Díaz-Canel completa 58 anos de idade.
Díaz-Canel nasceu em 1960, ano seguinte à Revolução Cubana, liderada pelos irmãos Castro, e tem em sua trajetória política ter sido líder da União de Jovens Comunistas na província central de Villa Clara, onde nasceu; líder da Juventude Nacional do PCC; ministro do Ensino Superior e vice-presidente do Conselho de Ministros para a Ciência, Educação, Esportes e Cultura. A mudança é interpretada como uma necessária substituição política, tendo em vista Raúl Castro já estar às vésperas de completar 87 anos.
A tendência do novo governo é levar adiante a abertura econômica, de forma lenta e controlada, e a reaproximação com os Estados Unidos, apesar do seu atual presidente, Donald Trump, continuar a demonstrar não ter o mesmo interesse. O mandato do presidente Díaz-Canel será de cinco anos, podendo ser reeleito por apenas mais um período igual de tempo. Eu torço para que Cuba promova uma grande abertura política e econômica, sem resvalar para o capitalismo selvagem que conhecemos no Brasil e no restante da América Latina e para a subserviência aos Estados Unidos ou a qualquer outro país. fr

Díaz-Canel é saudado por Raúl Castro

Imprensa cubana cobre escolha do novo presidente

domingo, 15 de abril de 2018

Dica de livro: "Helena"

Helena, Machado de Assis, Rio de Janeiro, editora Rovelle, 2008, 158 páginas (Um passeio pelo tempo machadiano).
 
Li recentemente mais este livro de Machado de Assis (1839-1908), e gostei muito. Lançado em 1876, ele faz parte da chamada fase romântica do autor. É ambientado no Brasil Colônia, quando o país ainda convivia com a escravidão e o patriarcado. Em 1859, com a morte do conselheiro Vale, sua família é surpreendida pela inclusão como herdeira em seu testamento de uma filha desconhecida até então - Helena, de cerca de 17 anos. E pela solicitação de que ela fosse aceita por todos como se fosse filha de sua esposa, já falecida e que aceitava com resignação sua aventuras extraconjugais.

Na chácara do conselheiro, localizada no bairro do Andaraí, moravam a irmã do conselheiro, dona Úrsula, e o filho, Estácio, de 27 anos, e viúvo, que aceita a chegada da irmã à família de imediato. Dona Úrsula, no entanto, mostra alguma resistência no início em receber na família uma “intrusa”, concordando somente em que fosse paga a sua parte na herança, mas, aos poucos, vai aceitando Helena como sobrinha. Frequentadores habituais da casa, o médico da família, doutor Camargo, e o padre Melchior, têm posturas diferentes. O primeiro não aceita bem a chegada da jovem, que até então ninguém sabia que existia, porque tinha esperanças que Estácio viesse a se casar com sua filha, Eugênia. A chegada de mais um parente significava para ele a diminuição do patrimônio do pretendido futuro genro. Estácio não tinha muita convicção se deveria casar com a ela, mas sabia que era a decisão que esperavam que ele tomasse:

“O amor de Estácio tinha a particularidade de crescer e afirmar-se na ausência e diminuir logo que estava ao pé da moça. De longe, via-a através da nuvem luminosa da imaginação, ao pé era difícil que Eugênia conservasse os dotes que ele lhe emprestava.”

O religioso, ao contrário, recebe muito bem Helena, que perdera a mãe quando ela tinha 12 anos e levou à residência da família uma alegria e uma descontração que encantaram a tia e o irmão. Entretanto, ao apresentar a irmã a um antigo colega da juventude, Luis Mendonça, recém-chegado da Europa, Estácio não aceita bem que este se apaixone por Helena, e se recusa a abençoar a união dos dois. Helena, por sua vez, não demonstra muito entusiasmo pelo casamento, mas o aceita por convicção:

“Paixões de largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela separação ou pelo ódio, quando menos pela indiferença. O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo após os anos de prisão? Uma afeição pacífica, a estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.”

            A descoberta de um segredo mantido por Helena acaba por mudar o sentimento de todos a seu respeito. Próximo da residência da família, havia uma casa pobre, onde residia um homem misterioso, a quem Helena visitava frequentemente. A descoberta gerou desconfianças entre os familiares, conflitos com conceitos morais da época e acabou levando a um desfecho inesperado.
 
           Lendo sobre o livro na internet, encontrei a informação de que a “crítica moderna” consideraria o livro “Helena” “o mais "fraco romance de Machado de Assis”, voltado apenas para mulheres românticas e muito sensíveis. Vai entender... eu o considero um dos seus melhores livros! Como todos os outros que já li do autor, seus textos se utilizam de expressões do século 19 e da mesóclise (“vexar-me-ia...”), mas a leitura é agradável e Machado de Assis consegue prender a atenção do leitor, mantendo um clima de expectativa e de suspense sobre o final da estória.

           “Helena” é narrado na primeira pessoa, e, em determinadas passagens, o autor conversa com o leitor, característica que eu já identifiquei em outros de seus livros. Três curiosidades constatadas no livro me chamaram a atenção. Uma pessoa com 60 anos, idade do padre Melchior, por exemplo, já se considerava um “ancião”, que podia morrer a qualquer hora. E o casamento era o caminho natural que se esperava das pessoas, mesmo que sem amor. Os homens para serem vistos com mais respeito, e as mulheres, desde cedo, preparadas para ter filhos, cuidar da casa e da família, e para não ficarem “para titias”. À época, as pessoas utilizam as correspondências para se comunicar, entregues pelos seus escravos. “Helena” foi adaptado para a televisão, no gênero de novela, em algumas oportunidades. Eu indico, é um ótimo livro, um dos melhores de Machado de Assis. fr

sábado, 14 de abril de 2018

Dica de livro: "Quincas Borba"

Quincas Borba, Machado de Assis, São Paulo, editora Klick, 1997, 191 páginas (Coleção Livros O Globo, vol. 7).
Machado de Assis retoma ao livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, através do personagem Quincas Borba, 10 anos depois. No prólogo da terceira edição de “Quincas Borba”, ele comenta que “um amigo e confrade ilustre” “teimava” para que o autor viesse a dar continuidade a ele, através da personagem Sofia, fechando, assim, uma trilogia. Machado chegou a considerar essa possibilidade, mas decidiu que não o faria: “A Sofia está aqui toda. Continuá-la seria repeti-la, e acaso repetir o mesmo seria um pecado”. E acrescenta que foi tachado justamente de ser repetitivo em seus livros, e terminou o prólogo agradecendo àqueles que o defenderam. Mesmo assim, o autor voltaria a retomar um personagem de um livro para o outro, com o conselheiro Aires, em “A Mão e a Luva”, de 1874, e “Memorial de Aires”, de 1908, seu último romance. Estes dois livros eu já comentei aqui, no meu blog.
Em “Quincas Borba”, apesar do título é o professor Rubião que tem sua estória contada. Ele cuidou de Quincas durante seis meses, quando este apresentava problemas mentais, e recebeu dele uma fortuna de herança, com a condição no testamento de que cuidasse de seu cachorro, que levava o nome do dono. Rico, Rubião resolve deixar sua cidade, Barbacena, e ir para a Corte, no Rio de Janeiro. No caminho, na estação de trens de Vassouras, conhece o casal Cristiano Palha e sua esposa, Sofia. Com o tempo, Rubião apaixonou-se pela esposa do amigo, e acreditava que o interesse era recíproco, já que ela não o afastava, chegando a ser atrevido com ela em determinado momento, mostrando o seu interesse. Ela denuncia ao marido o comportamento de Rubião, mas ele pede que o tolere, já que devia muito dinheiro ao amigo mineiro.
Com o tempo, Rubião e Palha se aproximam mais e mais, chegando a se tornar sócios. Rubião tentou, mas não conseguiu indicação para ser deputado; àquela época, como atualmente, na política contava mais a influência do que o preparo. Ele vivia cercado de falsos amigos, que frequentavam sua casa para comer e lhe pedir dinheiro emprestado, e passou a demonstrar confusão mental. Gastava muito, e sem controle. Atenção, a seguir vou escrever informações sobre o final do livro, então, quem não quiser saber antecipadamente, pare aqui!
Palha soube aproveitar-se da amizade, e, com o tempo, conseguiu ascender socialmente; quando não precisou mais do amigo, inventou uma desculpa e desfez a sociedade, passando a evitá-lo, assim como Sofia, que acreditava que ele perdera a razão pelo amor que lhe tinha. Para dar um ano ao período da estória, no início de 1870 Rubião deixava claro às pessoas estar com problemas mentais; assim como o homem que lhe fez herdeiro. Alternava momento de lucidez com outros em que acreditava ser Napoleão III. Com a perda de grande parte da fortuna, mesmo ainda restando uma boa soma, mas, principalmente, da razão, as pessoas o abandonaram, passando a trata-lo com frieza e indiferença. Somente uma pessoa interessava-se em ajudá-lo, mesmo sem ter muita proximidade a ele, mas por compaixão, D. Fernanda. E por insistência dela, Rubião acabou internado por Palha para se tratar.
Apesar do otimismo do médico, e que dizia estar confiante em curá-lo em mais algum tempo de internação, Rubião foge da casa de saúde e retorna para sua cidade, Barbacena. Assim como aconteceu com Quincas Borba, ele passa a viver na rua, acaba doente e em poucos dias morrendo. Sem nunca ter casado. O cachorro, novamente sem dono, morre três dias depois. Curioso ler que à época dos acontecimentos do livro, que se passam no final do século 19, as mulheres pouco mostravam do corpo em público, os braços estavam quase sempre cobertos, que diferença de hoje em dia! rsrs As mulheres tinham por objetivo um bom casamento, mesmo sem amor ou afinidades com o noivo, e preocupavam-se quando se aproximavam dos 30 anos solteiras. As pessoas se locomoviam de charretes e aqueles com mais condições financeiras, passeavam de cavalo pela cidade. A estória foi inicialmente publicada na revista “Estação”, de 1886 a 1891, quando passou ao livro. Em “Quincas Borba”, Machado de Assis não usa a figura de um personagem como narrador, como em outras de suas obras, é ele próprio, o autor, que narra a estória. Mas mantém o uso de capítulos, neste caso, 201 capítulos. Recomendo!  fr

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Chaves & Chapolin Colorado

          
           Em meio a uma programação dominada por seriados vindos sempre do mesmo país, os Estados Unidos, a televisão brasileira tem a rara, mas brilhante, opção de programas de origem mexicana que alegram os brasileiros há décadas. São as criações de Roberto Gómez Bolaños (1929-2014), entre as quais eu vou destacar “Chaves” e “Chapolin Colorado”, exibidos pelo SBT. Bolaños exerceu várias atividades: ator, diretor, humorista, compositor, cantor, produtor de televisão, publicitário, roteirista, além de ser formado em Engenharia Elétrica, sem ter seguido a carreira. Ele é conhecido em seu país natal como ‘Chespirito’, derivação em espanhol de Shakespeare, comparação que recebeu pela sua capacidade e talento de redigir textos.
 
            Os programas de Bolaños foram exibidos em diversos países pelo mundo, fazendo enorme sucesso na América Latina e, principalmente, no Brasil. Em Los Angeles, EUA, Chaves chegou a ganhar um dia comemorativo em sua homenagem, celebrado todo dia 8 de setembro. Vários produtos surgiram em função dos seriados: discos musicais, desenho animado, quadrinhos, licenciamento para uso da imagem dos personagens em brinquedos, roupas, alimentos, material escolar etc.  
O curioso é que o SBT comprou os seus direitos de exibição, na década de 1980, como contrapeso a um pacote de novelas mexicanas, e os programas não agradaram a seu proprietário, o apresentador e empresário Silvio Santos, nem aos demais diretores, mas todos acabaram descobrindo que eram justamente esses os principais produtos a serem exibidos. Em 1990, a emissora comprou novo pacote de episódios. Os programas contavam com uma produção modesta, as roupas dos personagens muitas vezes eram dos próprios atores, como as do seu Madruga. A primeira exibição no SBT foi em 1984, apenas três anos após a inauguração da emissora paulista.




 “Chaves” (“El Chavo del Ocho”, por conta do canal mexicano que o exibia inicialmente era o Canal 8, da Televisión Independiente de México, e a casa onde ele supostamente morava era a casa 8, apesar de nunca ter sido visto nela) é o programa principal e o mais querido. É a estória de um menino órfão, de 8 anos, que vive com fome e sempre vestido com a mesma roupa, rasgada, interpretado por Bolaños. O seu nome verdadeiro nunca foi revelado; “chaves” é uma gíria em espanhol, que significa garoto, menino. Eu lembro que em um episódio, Chaves ia dizer o seu nome, mas foi interrompido, acho que pelo Quico.
Desde sua estreia, os episódios de “Chaves” vêm sendo repetidos pelo SBT, sempre com muito sucesso, e quando a emissora o tira do ar recebe uma enxurrada de reclamações dos chamados ‘chavemaníacos’. O seriado conquistou admiradores em várias faixas de idade, sejam crianças ou adultos, e vem mantendo o interesse, apesar de já passado tanto tempo de sua exibição original e das repetições já terem ocupado vários horários da programação, de manhã, de tarde e à noite. O seu público não cansa, e, apesar das piadas serem hoje consideradas bobas, ingênuas e, mesmo, conhecidas, ainda agradam, tanto que o SBT não deixa de exibir o programa. A emissora, aliás, tem se beneficiado muito dessas séries, responsáveis pela sua popularização na década de 1980.
E justamente por causa de tanto sucesso, o Multishow, das organizações Globo, anunciou em janeiro a compra dos direitos de exibição para TV por assinatura e internet dos seriados “Chaves” e “Chapolin Colorado”. A emissora pretende, inclusive, exibir episódios ainda inéditos no Brasil, os chamados “episódios perdidos”, que não foram exibidos devido à sua baixa qualidade técnica, produzindo a sua própria dublagem. Mas, segundo a imprensa divulgou, o SBT ainda detém os direitos para a TV aberta até o fim de 2020. Eu lembro que há um tempo atrás o canal de TV a cabo Boomerang chegou a exibir os dois programas, em diferentes horários, inclusive a partir da meia-noite.  




 As estórias se passam, em sua maioria, em uma vila pobre, propriedade do sr. Barriga (Edgar Vivar). Chaves (Roberto Bolaños) supostamente morava na casa de nº 8, mas ela nunca foi mostrada, nem esclarecido com quem ele moraria, pelo menos que eu saiba, e sempre que ele se aborrecia ou apanhava do seu Madruga, ele entrava em um barril, que ficava no pátio da vila. Seus amiguinhos eram o Nhonho, filho do sr. Barriga, que não morava na vila, e também era interpretado por Edgar Vivar; Quico (Carlos Villagrán), menino também órfão de pai, de grandes bochechas, mimado pela mãe e que costumava se gabar dos seus brinquedos mais caros; e a Chiquinha (Maria Antonieta de las Nieves), a mais madura e esperta das crianças, e que tinha uma paixão não correspondida por Chaves.
Os moradores adultos eram igualmente problemáticos. O sr. Madruga (Ramón Valdés), viúvo, pai da Chiquinha, vivia desempregado, procurava de todas as maneiras fugir do trabalho, apesar de às vezes acabar fazendo algum serviço para conseguir pagar os 14 meses de alugueis atrasados ao sr. Barriga, seja como sapateiro, leiteiro, carpinteiro, vendedor dos churros da dona Florinda etc. Dona Florinda (Florinda Meza), uma senhora que vivia com bobes no cabelo e sempre se lamentava por ter que morar com vizinhos tão desqualificados. Um dos momentos mais engraçados era justamente quando, depois de bater no seu Madruga, ela chamava o filho para dentro de casa, e dizia para ele: “Venha, Quico, não se junte com essa gentalha!”. Ela era apaixonada pelo professor Jirafales (Rubém Aguirre), professor das crianças, em uma relação com muita insinuação e pouca atitude, e que vivia sendo chamado de “professor Linguiça”, por conta de sua altura.
Outra vizinha da vila era a Dona Clotilde (a espanhola Angelines Fernández), mais conhecida como a Bruxa do 71, uma senhora solteira e que tentava de todo o jeito se casar com o sr. Madruga, e era temida pelas crianças, que a viam como uma bruxa. Aliás, um dos episódios mais legais que eu lembro ter assistido foi o “A Casa da Bruxa do 71”, em que os meninos acreditam ter entrado no seu “castelo”, na realidade, era a sua casa. O nome da personagem faz menção a um costume da década de 1970, no México, onde as misses eram conhecidas como “Musa de 1968”, “Musa de 1969” etc., e Roberto Bolaños fez a adaptação para o inverso, como brincadeira, usando o ano de 1971. Jaiminho (Raúl ‘Chato’ Padilla) era o carteiro que fazia tudo bem devagar, para “evitar a fadiga”, vivia falando de sua cidade natal, Tangamandápio, pequeno município do estado de Michoacán, no México, e que acabou homenageando o personagem com uma estátua em 2012.
Dona Neves, interpretada pela própria Maria Antonieta de las Nieves, era a avó da Chiquinha. Pópis, sobrinha da dona Florina, era uma menina fanha, vivida também pela atriz Florinda Meza; lembro do Roberto Bolaños dizer em uma entrevista no programa do Ratinho, no SBT, que um dia ele recebeu uma carta de um pai dizendo que toda vez que a Pópis aparecia na televisão, seu filho sofria com deboches dos coleguinhas por ser gago, e ele diz ter sofrido muito com isso. Outros personagens, considerado secundários, completam o elenco. Carlos Villagrán, Edgar Vivar e Maria Antonieta de las Nieves já vieram várias vezes ao Brasil, participando de programas de televisão e fazendo shows, sempre com muito sucesso. Rubém Aguirre, pelo que pude pesquisar, veio uma vez, em 1996; Florinda Meza, em 2015, e Roberto Bolaños, em 1981, quando estava a caminho do Paraguai, em turnê com o elenco de “Chaves”, tendo ficado dois dias em Foz do Iguaçu.  
Os programas de “Chaves” e “Chapolin Colorado” foram antecedidos por outros, com os mesmos atores vivendo curtas situações de humor, tais como “Chespirito” e "Los Supergenios de la Mesa Cuadrada". Foi entre esses quadros que surgiram os personagens do Chaves e do Chapolin Colorado, que viriam a ter seus próprios programas depois. Os dois programas começaram a ser exibidos no México em 1970-1971, pelo Canal 8, da Televisión Independiente de México. Em 1975, Roberto Bolaños os levou para o Canal 2, da Telesistema Mexicano, mas no mesmo ano os dois canais se uniram, dando origem à Televisa. Durante o período em que foram gravados, alguns atores deixaram os seriados.
Em 1973, Maria Antonieta de las Nieves foi para o Canal 13, e a maneira encontrada por Bolaños foi dizer que a Chiquinha tinha ido estudar no interior (a tradução optou pela cidade paulista de Presidente Prudente), e morar com uma tia. No ano seguinte ela retornou. Mas em 2002, Bolaños a processou por uso da imagem da personagem sem autorização; anos depois a atriz venceu a disputa, sendo autorizada a interpretar a Chiquinha, mas a amizade nunca mais foi restabelecida. A adaptação de “Chaves” para desenho animado, em 2006, excluiu o personagem da Chiquinha.
Em 1978, Carlos Villagrán também saiu, interpretando o personagem Quico em shows, o que acabou gerando uma desavença com Roberto Bolaños, inclusive uma disputa judicial pelos direitos do personagem. Para contornar a ausência de Quico na série, dona Florinda abriu um restaurante, onde passava a maior parte do tempo. Bolaños morreu em 2014, sem falar com Villagrán há anos. Em 1979, foi a vez de Ramón Valdés deixar os programas, passando a trabalhar com Villagrán em programas de TV na Venezuela, em que o nome do personagem Quico foi alterado para “Kiko”. Carlos Villagrán diz que o sucesso do seu personagem o tornava mais querido e com mais destaque no programa “Chaves”, o que teria causado ciúmes a Bolaños. Além disso, dizem que o fato dele ter namorado com a atriz Florinda Meza, antes de ela casar com Roberto Bolaños, em 2004, teria contribuído para o afastamento dos dois.
Entre os atores principais, somente Florinda Meza, Carlos Villagrán e Maria Antonieta de las Nieves estão vivos. Roberto Bolaños faleceu em 2014, aos 85 anos de idade. “Chaves” é um programa repleto de situações “politicamente incorretas” para os dias atuais. O Seu Madruga bate nas crianças; a Dona Florinda esbofeteia o Seu Madruga; todos fazem bullying uns com os outros o tempo todo; e por aí vai... Mas também procura inserir críticas sociais no contexto dos episódios, como a situação das crianças pobres e os desníveis sociais da sociedade mexicana, bem semelhantes aos existentes nos países latino-americanos em geral. Em várias oportunidades eu já ouvi o ator Edgar Vivar dizer que todos os textos e diálogos de Chaves e Chapolin Colorado eram criação do próprio Roberto Bolaños.
“Chapolin Colorado” (“El Chapulín Colorado”) surgiu em 1970, e é uma paródia de Bolanõs aos super-heróis famosos dos Estados Unidos, com muitas tiradas sobre a situação política da época. Ele é um anti-herói, como o próprio criador o define: “Chapolín não tem as propriedades extraordinárias dos super-heróis: é tonto, desastrado e medroso. Mas também é um herói porque supera o medo e enfrenta os problemas e é aí que estão o heroísmo e a humanidade.”  
Os atores participantes são os mesmos do programa “Chaves”, com a diferença que Bolaños é o único com um personagem fixo, o próprio Chapolin, enquanto os demais podiam fazer vários outros diferentes, apesar de alguns vilões aparecerem mais vezes, como o Tripa Seca e o Quase-Nada. Ramón Valdez interpreta o Super Sam, uma mistura do ‘Super Man’ com o Tio Sam; uma caricatura de um herói com forte sotaque inglês e sempre segurando um saco de dinheiro.
A palavra “chapulín” significa grilo, gafanhoto. O herói aparecia de repente, sempre que alguém, em desespero, perguntava: “Oh! E agora... quem poderá me defender?”, e suas aventuras podiam se passar em qualquer época da História, na Idade Média, no Velho Oeste, ou mesmo no espaço. O programa terminou em 1979, praticamente ao mesmo tempor que “Chaves”, mas ambos retornaram na década seguinte como quadros no programa “Chespirito”, batizado no Brasil como “Clube do Chaves”, parando de vez em 1992. Em 2015, a série também foi adaptada para o desenho animado na TV.
Chapolin Colorado tem sido homenageado pelo mundo dos quadrinhos. Em “Os Simpsons”, por exemplo, tem o personagem Bumblebee Man, criado após Matt Groening, o criador da família amarela, ter assistido o programa mexicano em um motel na fronteira dos EUA com o México. A Marvel também criou um personagem inspirado no Chapolin. Ano passado, o mexicano Humberto Ramos e o estadunidense Mark Wais criaram a heroína Red Locust (“Gafanhoto Vermelho”). [Informações pesquisadas na internet.] fr