
Memórias Póstumas de
Brás Cubas, Machado de Assis, São Paulo, editora Klick, 1997, 257 páginas
(Coleção Livros O Globo, vol. 13).
Um dos mais importantes livros de Machado de Assis
(1839-1908), lançado em 1881. É narrado pelo próprio personagem que dá nome à
obra, ou, como ele se descreve, pelo “defunto autor”, já que as suas memórias
são contadas após sua morte, ocorrida “às duas horas da tarde de uma
sexta-feira do mês de agosto de 1869”. E, seguindo o estilo machadiano, o autor
das memórias conversa com o leitor, e divide as memórias em capítulos, alguns
muito curtos, como o de número 136, de apenas duas linhas, com o título
“Inutilidade”, sobre o anterior: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever
um capítulo inútil”. O capítulo 139, “De como não fui Ministro D’Estado”, é
ainda menor, sem nenhuma palavra, apenas cinco linhas repletas de pontos. A
seguir, conto passagens que podem tirar a surpresa de quem pretende o livro. Brás
Cubas foi um jovem que sempre teve tudo o que desejava do pai rico.
Apaixonou-se aos 17 anos por uma jovem espanhola, Marcela, interesseira e
volúvel, e passou a gastar sem controle o dinheiro do pai, dando-lhe presentes
caros, chegando a uma dívida de onze contos. Ao descobrir, o pai mandou-o
estudar Direito em Portugal para que se tornasse um homem sério. Anos mais
tarde, ao voltar ao Rio, depois de um estudo sem aplicação, mas já graduado, o
pai tenta casá-lo com Virgília, jovem com seus 15/16 anos de idade; e torná-lo
deputado. Eram assim que essas coisas aconteciam à época. Os casamentos eram
combinados pelos pais. E a política uma questão de interesses, como se vê, um
mal que vem de muito tempo. Não conseguiu a vaga na política, e Virgília acabou
escolhendo casar com outro, Lobo Neves, com quem passou a ter amizade, para
dupla decepção do pai. Anos mais tarde, tornou-se amante de Virgília e
conseguiu tornar-se deputado, mas não ministro. Brás Cubas pagava a uma
senhora, conhecida da família de Virgília, para que ela permitisse ao casal se
encontrar em sua casa. Contrariada no início, mas necessitando do dinheiro, ela
aceitou. As pessoas comentavam o relacionamento extraconjugal, e o próprio Lobo
Neves desconfiava. Brás Cubas pensou na possibilidade de se casar com outras
duas mulheres, para atender às expectativas da sociedade, mas estava muito
apaixonado por Virgília. Eugênia, por quem ele se interessou, mas não conseguiu
levar adiante por ela ter um problema na perna e mancar, preconceito forte da
época. E Eulália, sobrinha do marido da irmã de Brás Cubas, que queria vê-los
casados, mas ela acabou falecendo, vítima de febre amarela. Brás Cubas acabou morrendo aos 64 anos, solteiro,
sem filhos, e sem conseguir realizar nenhuma realização pessoal ou
profissional, sentindo ter levado uma vida vazia e não produtiva, e sem ter
conseguido levar adiante o projeto de criar um emplasto (medicamento de uso
externo que, sob a ação de calor suave, amolece levemente, aderindo à pele,
conforme dic. Houaiss) com o seu nome. O livro conta também o reencontro de
Brás Cubas com um colega de colégio, Quincas Borba, agora um senhor de barbas
brancas, sujo, morando na rua e parecendo um mendigo, sofrendo de doença
mental. Tempos depois, volta a reencontrar Quincas Borba, que enriquecera
graças a uma herança que recebeu, e que lhe explica seu ”sistema de filosofia”,
o “Humanitismo”. Machado de Assis voltaria a escrever sobre Quincas Borba,
escrevendo o livro homônimo 10 anos depois, e sobre o qual escreverei aqui no
meu blog em breve. Fez o mesmo com o personagem do conselheiro Marcondes Aires,
apresentando livro “Esaú e Jacó”, e retornando anos depois no livro “Memorial
de Aires”. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é considerado o primeiro romance
moderno da literatura nacional, e um marco do Realismo. fr
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