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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Foto histórica de 1888 de missa campal comemorativa pela abolição da escravidão, que mostraria a princesa Isabel e Machado de Assis próximos, é uma montagem de acordo com historiadora

A foto acima mostra, após uma aproximação, a princesa Isabel e o seu marido, o príncipe consorte conde d’Eu, e o escritor Machado de Assis em uma missa campal realizada em 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, em comemoração à abolição da escravidão. A foto é de autoria de Antonio Luiz Ferreira e é do acervo da Coleção Dom João de Orleans e Bragança do portal Brasiliana Fotográfica. A presença ilustre do escritor foi identificada pela pesquisadora e editora do portal, Andrea Wanderley, tendo sido confirmada por Eduardo Assis Duarte, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estavam presentes à missa cerca de 30 mil pessoas, incluindo autoridades e vários políticos. A foto despertou bastante interesse ao ser publicada no jornal Folha de S. Paulo em 2015. Mas, apesar de estudiosos e especialistas na vida e na obra de Machado de Assis terem confirmado à época ser ele na foto, dois anos depois o mesmo jornal publicou um texto da historiadora Lilia Scharwcz em que ela afirmou que a foto era apenas uma montagem. Um trecho da publicação:

“Descoberta e anunciada com alarde em 2015, a imagem que mostra Machado de Assis na missa campal pela abolição da escravatura, em 1888, é uma montagem, diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Para ela, a cabeça do autor foi colocada ali artificialmente. ‘Era uma técnica comum na época’, diz, destacando que as cabeças das personalidades presentes estão encaixadas de forma ‘artificial’ nos dorsos, e que há desproporção entre várias figuras. A foto não significa que ele não estivesse lá (o fotógrafo pode tê-la manipulado por achar que não saiu boa), mas ela não serve como prova histórica. Nos jornais da época, por exemplo, a presença do escritor não é mencionada.”  fr 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Dica de livro: "50 Contos de Machado de Assis"

“50 Contos de Machado de Assis”; Seleção, introdução e notas John Gledson, São Paulo, Companhia das Letras, 2007, 487 páginas.
        A seleção dos 50 contos foi realizada pelo inglês John Gledson, tradutor, ensaísta, crítico literário e professor aposentado da Universidade de Liverpool, especializado em Língua Portuguesa, literatura brasileira, com destaque para a obra de Machado de Assis. Ele é Mestre e Doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Neste livro, Gledson seleciona 50 dos “cerca de 200 contos escritos por Machado de Assis”, todos eles publicados a partir de 1878, “quando ele já tinha quase quarenta anos, e 44 deles foram escritos na década seguinte”. Eu destaco alguns como os meus preferidos.
        O conto “O Alienista” é o maior de todos, com 30 páginas. Médico de grande prestígio constrói um hospício, e, aos poucos, vai internando todos os moradores da sua cidade. Algumas editoras já publicaram este conto separadamente, como livro. “Pai contra a mãe” eu já publiquei aqui, no meu blog. É sobre a situação desesperadora de um casal em dificuldades financeiras, com uma criança recém-nascida e prestes a ser despejado. Apesar do título sugerir uma discórdia entre marido e esposa, é a tia desta, que mora com eles, que os pressiona a abandonar o menino, pela falta de condições para alimentar a todos. O pai, um caçador de escravos, busca uma última chance de conseguir algum dinheiro ao sair na procura de novos fugitivos, e, assim, poder ficar com o filho.
        Em “Teoria do medalhão”, quando o filho completa seus 21 anos, antigamente época da maioridade, seu pai ensina como se destacar apenas aparentando ser alguém importante, mesmo sem ter opiniões próprias ou capacidade individual. “Último Capítulo”, sobre um homem que se considera azarado e, cansado dos desgostos da vida, decide cometer o suicídio. Ele preparou o seu testamento e faz questão de relatar, por escrito, as suas razões. Eu gostei muito, apenas o final eu teria preferido outro.
        Um homem aceita o trabalho de enfermeiro de um ancião doente e de péssimo gênio. Aturando o que mais ninguém queria aturar, o desenlace dessa relação acaba por mudar sua vida. É o conto “O Enfermeiro”. Em “D. Paula”, senhora tem o passado batendo-lhe à porta, quando procura ajudar a sua sobrinha, que vivia triste por conta de uma séria crise conjugal.
 fr 

domingo, 16 de junho de 2024

Infelizmente, brasileiros precisam da aprovação dos EUA para valorizar o que temos de melhor

        Duas notícias divulgadas recentemente pela imprensa mostram como o Brasil é carente da aceitação e da aprovação dos Estados Unidos. Na primeira, uma “influenciadora” encantou-se com um livro de Machado de Assis; em outra, uma revista colocou um disco do Milton Nascimento na lista dos 10 melhores de todos os tempos. Eu li todos os romances de Machado de Assis e já comentei aqui no meu blog e devo ter quase todos os discos do Milton Nascimento, ainda em vinil, raridades. Não preciso que alguém nos Estados Unidos diga para mim o quanto eles são bons! Mas, infelizmente, por aqui as pessoas precisam...
        Uma “influenciadora” nos Estados Unidos, Coutney Novak, estabeleceu para si mesma o desafio de ler livros de vários países, em ordem alfabética pelo nome do país. Na letra B, de Brasil, ela escolheu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e postou uma publicação, no mês passado, dizendo ser o “melhor livro que já foi escrito” (veja abaixo)! O vídeo teve um milhão de visualizações e o livro passou a ser o mais vendido na sessão de literatura latino-americana e do Caribe da Amazon. Por causa do livro de Machado de Assis, Coutney Novak disse que pretende, até, aprender o português!
        A revista “Paste” (nunca ouvi falar, desculpem...) elaborou uma lista com os 100 melhores discos. “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento, (eu tenho!, veja foto) foi colocado no 9º lugar. E “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos, ficou em 51º lugar. Os dois foram lançados em 1972. Eu pergunto: em uma lista de 100 discos, somente dois brasileiros? Muito pouco! Mas a imprensa deu destaque, como se por aqui já não soubéssemos do talento do Milton Nascimento. Bom para eles, nos Estados Unidos, que podem dizer que conhecem um pouco (bem pouco!) do que é feito por aqui, no nosso país!
fr

"Influenciadora" fica apaixonado pela literatura brasileira

domingo, 12 de fevereiro de 2023

"Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"

“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, Italo Moriconi, organizador; Rio de Janeiro, editora Objetiva, 2009, 616 páginas.

Esta é uma coletânea organizada pelo crítico literário e professor Ítalo Moriconi, que reuniu cem contos de autores brasileiros que, no entender dele, seriam os melhores do século 20. Há autores bem conhecidos, e alguns com mais de um conto; outros menos divulgados. Ele explica uma ausência: “Lamento apenas que os contos de Guimarães Rosa escolhidos para a antologia não pudessem ser incluídos por dificuldades relativas à cessão de direitos autorais.” É uma coletânea definida pelas preferências do organizador. Eu destaco os que eu gostei: “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; “A nova Califórnia” e “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto; “O peru de Natal”, de Mário de Andrade; “Um cinturão”, de Graciliano Ramos; e “A máquina”, de José J. Veiga. Gostei, também, de “O moço do saxofone”, de Lygia Fagundes Telles; “O homem nu”, de Fernando Sabino; “Passeio noturno”, de Rubem Fonseca; “Estranhos”, de Sérgio Sant’Anna; “Pílades e Orestes” e “Pai contra mãe”, de Machado de Assis; e “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan, estes dois últimos eu já publiquei aqui no meu blog. São muitos textos e o gosto de cada um é que determina os seus preferidos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Dica de livro: "Contos Escolhidos: Machado de Assis"

“Contos Escolhidos: Machado de Assis”; São Paulo, editora Martin Claret, 2008, Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, 304 páginas.

Esta é uma antologia da Martin Claret com base nas antologias “preparadas pelo próprio autor”. São 27 contos, dos mais de 200 que ele escreveu. Entre os que eu mais gostei, posso destacar: “A Cartomante”, “O Enfermeiro”, “A Chinela Turca” (só não gostei muito do final), “Uns Braços”, “Aurora sem Dia”, “Noite de Almirante”, “O Caso da Vara”, “Maria Cora” e “Pai Contra Mãe”. Este último eu já publiquei aqui no meu blog, podem dar uma conferida. Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) foi também jornalista, tendo publicado também mais de 600 crônicas; fundador da ABL (Academia Brasileira de Letras) e seu primeiro presidente, e é autor de alguns dos principais clássicos da língua portuguesa. fr

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A 'roda dos enjeitados' recebia as crianças que os pais e mães não queriam

     O problema da população de rua já vem de muito tempo. Durante os séculos 18 e 19, a forma encontrada para evitar que os recém-nascidos indesejados, ou que não podiam ser criados, fossem abandonados nas ruas era a utilização da ‘roda dos enjeitados’, ou ‘dos expostos’. Era uma estrutura de madeira existente em instituições católicas, como igrejas e conventos, por exemplo, na qual o bebê era colocado do lado de fora, e era girada para que a criança fosse movimentada para dentro. Após, a mãe ou pai tocava uma sineta para alertar os padres ou freiras. Era uma forma de se manter no anonimato.
     As crianças eram entregues à adoção ou seguiam a vida religiosa. A ‘roda dos enjeitados’ surgiu em países como Itália, França e Portugal. No Brasil, as mais antigas ficavam nas Casas de Misericórdia de Salvador, do Recife e do Rio de Janeiro. Na do Rio, de acordo com registros oficiais, foram entregues 47.255 bebês nos anos de 1738 e 1888. Eu publiquei aqui no meu blog um conto de Machado de Assis, “Pai contra mãe”, em que um jovem casal passa grandes dificuldades financeiras às vésperas do nascimento do primeiro filho. O marido tem resistência em se estabelecer em um mesmo emprego, as dívidas só aumentavam e eles viviam de favor.

“Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. -- Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim..”

     Eu estive recentemente na Santa Casa de Misericórdia, no Centro do Rio, para saber se a instituição preservara a sua ‘roda dos enjeitados’, como, parece, ocorreu em Salvador, mas os funcionários disseram que não. Eu ainda enviei um email à Santa Casa solicitando informações, mas até hoje não recebi resposta. Infelizmente, no Brasil, é pouco comum se preocupar com a conservação da nossa História. fr

sábado, 15 de janeiro de 2022

Artigo de 1859 sobre D. Pedro II pode ser de Machado de Assis


       Um texto destacando a importância do imperador D. Pedro II publicado em “O Espelho” em 1859 foi apontado por uma pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) como podendo ser de autoria de Machado de Assis. A publicação é uma revista de literatura, modas, indústria e artes, e como o artigo não está assinado não chamou a atenção até a estudante de mestrado encontrá-lo, há alguns anos. A sua tese foi sobre a produção editorial da revista no período de 1859 a 1860.
       O texto foi publicado no número 10 da revista, em 6 de novembro de 1859, quando Machado de Assis tinha apenas 20 anos e ainda não era tão conhecido como escritor. O indício mais forte que leva a pesquisadora acreditar que o texto é do escritor foi a divulgação no número 6 de uma nota em que a revista anunciou que iniciaria a publicação de biografias, e que o “biógrafo” seria o sr. Machado de Assis. Nos próximos números não foi publicada nenhuma biografia, a primeira foi justamente sobre D. Pedro II.
       Machado de Assis foi justamente o colaborar mais assíduo da revista, tendo 38 textos seus publicados em quatro meses. No texto sobre o imperador, o escritor ressalta logo no início que não se trata de uma biografia: “Não é, pois, uma análise completa da vida do Imperador, que aqui pretendemos traçar: esta tarefa pertencerá mais tarde ao historiador”. A sua intenção foi relacionar os mais importantes momentos da vida de Dom Pedro II, sem analisá-los.
       Importantes dados de sua vida, como o seu nascimento; a declaração da maioridade legal para assumir o trono e a sua coroação; o seu casamento por procuração com a princesa Leopoldina, em Nápoles, na Itália; e o nascimento de seus quatro filhos, sendo que dois deles morreram ainda crianças. A mais velha, a princesa Isabel, era a sua herdeira e deveria assumir o trono, o que acabaria não acontecendo devido à proclamação da República, em 1889. A sua irmã era a princesa Leopoldina.
       O artigo é bastante elogioso a D. Pedro II, destacando o seu comportamento abnegado, e afirmando que ele chegou a abrir mão de construir um grande palácio para seu uso pessoal, destinando o dinheiro em benefício do país. E a sua constante preocupação com o povo, estando sempre a seu lado, principalmente durante os momentos de calamidades, quando muitos morreram. “Só Deus sabe quanto aquele coração se afligiria! Só Deus sabe o sentimento que ia ali dentro, quando, esquecendo-se de si mesmo, como Cristo, descia até a choupana de pobre para com mão amiga consolar os sofredores”.
       Elogia ainda a religiosidade e o amor do imperador a seu país, além da defesa da literatura nacional e de seus escritores. O texto afirma ser D. Pedro II amado pelo seu povo, e finaliza enumerando as condecorações recebidas por ele de vários países, em reconhecimento às suas “eminentes qualidades”. Enfim, esse artigo tem a sua importância por ser provavelmente da autoria daquele que é considerado o principal escritor brasileiro, Machado de Assis, a respeito provavelmente do também mais importante governante que o país já teve, D. Pedro II. fr  

quinta-feira, 3 de junho de 2021

"A carteira" (Machado de Assis)

Conto publicado em 1884, no jornal “A Estação”, do Rio de Janeiro.

A Carteira

Machado de Assis

DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:

-- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.

-- É verdade, concordou Honório envergonhado.

Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.

-- Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.

-- Agora vou, mentiu o Honório.

A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, cm que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.

D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.

Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.

-- Nada, nada.

Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.

A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua. da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.

Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, -- enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.

Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos milréis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.

Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do acha- do, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.

"Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar- me do dinheiro," pensou ele.

Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.

A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.

"Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer."

Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.

-- Nada.

-- Nada?

-- Por quê?

-- Mete a mão no bolso; não te falta nada?

-- Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso. Sabes se alguém a achou? -- Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.

Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.

-- Mas conheceste-a?

-- Não; achei os teus bilhetes de visita.

Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.

(Créditos: domínio público.gov.br)

sábado, 17 de outubro de 2020

Sede do TCM era residência de Machado de Assis

Passando pela Rua Santa Luzia, no Centro do Rio de Janeiro, uma discreta placa na parede do Tribunal de Contas do Município me chamou a atenção. Nela, é informado que o escritor Machado de Assis e sua esposa, Carolina Augusta Novais, viveram naquele local, no antigo número 54, de 1871 a 1874. Com certeza, naquela época o casal viveu em uma casa, que, com o crescimento da cidade, foi demolida. Hoje, o local é um prédio de 12 andares, e é a sede do Tribunal de Contas, desde 1990.  fr

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Em prefácio, Machado de Assis conta sua amizade e admiração a José de Alencar

Prefácio de Machado de Assis:

“(...) Não pude reler este livro, sem recordar e comparar a primeira fase da vida do autor com a segunda. 1856 e 1876 são duas almas da mesma pessoa. A primeira data é a do período inicial da produção, quando a obra paga o esforço, e a imaginação não cuida mais que de florir, sem curar dos frutos nem de quem lh’os apanhe. Na segunda, estava desenganado. Descontada a vida íntima, os seus últimos tempos foram de misantropo. Era o que ressumbrava dos escritos e do aspecto do homem. Lembram-me ainda algumas manhãs, quando ia achá-lo nas alamedas solitárias do Passeio Público, andando e meditando, e punha-me a andar com ele, e a escutar-lhe a palavra doente, sem vibração de esperanças, nem já de saudades. Sentia o pior que pôde sentir o orgulho de um grande engenho: a indiferença pública, depois da aclamação pública. Começara como Voltaire para acabar como Rosseau.”

         (...)

“Estes e outros sinais dos tempos tinham-lhe azedado a alma. O echo da quadra ruidosa vinha contrastar com o atual silêncio; não achava a fidelidade da admiração. Acrescia a política, em que tão rápido se elevou como caiu; e donde trouxe a primeira gota de amargor.”

         (...)

“Entretanto, é certo que a política foi uma de suas ambições, senão por si mesmo, ao menos pelo relevo que dão as altas funções do Estado. A política tomou-o em sua nave de ouro; fel-o polemista ardente e brilhante, e levantou-o logo ao leme do governo. Não faltava a Alencar mais que uma faculdade parlamentar, a eloquência. Não possuía a eloquência, antes parecia ter em si todas as qualidades que lhe eram contrárias; mas, fez-se orador parlamentar, com esforço, desde que viu que era preciso. Compreendera que, sem a oratória, tinha de ficar na meia obscuridade. Se o talento da palavra é a primeira condição do parlamento, no dizer de Macaulay, - que não escreveu essa espécie de truísmo, suponho, senão para acrescentar sarcasticamente que a oratória tem a vantagem de dispensar qualquer outra faculdade, e pode muita vez cobrir a ignorância, a fraqueza, a temeridade e os mais graves e fatais erros, - sabemos que, para o nosso Alencar, como para os melhores, era um talento complementar, não substitutivo. Deu com ele algumas batalhas duras contra adversários de primeira ordem. Mas tudo isso foi rápido. Teve os gozos intensos da política, não os teve duradouros. As letras, posto que mais gratas que ela, apenas o consolaram; já lhes não achou o sabor primitivo. Voltou a elas inteiramente, mas solitário e desenganado.

A morte veio tomá-lo depressa. Jamais me esqueceu a impressão que recebi quando dei com o cadáver de Alencar no alto da eça, prestes a ser transferido para o cemitério. O homem estava ligado aos anos das minhas estreias. Tinha-lhe afeto, conhecia-o desde o tempo em que ele ria, não me podia acostumar à ideia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse artista fadado para distribuir a vida.(...)”

sábado, 6 de junho de 2020

Nova tradução de "Memórias póstumas de Brás Cubas" esgota nos EUA em um dia

           Eu já escrevi sobre os livros de Machado de Assis aqui no blog, fiz questão de ler todos os seus romances, e recomendo a todo mundo. Este mês, uma nova tradução para o inglês de “Memórias póstumas de Brás Cubas” foi lançada nos Estados Unidos. A tiragem esgotou em um único dia em duas das maiores redes de livros naquele país, a Amazon e a Livraria Barnes and Noble.
          O livro foi lançado dia 2 de junho, pela editora Penguin Books, em sua coleção “Penguin Classics”, com tradução de Flora Thomson-DeVeaux. O prefácio é do escritor Dave Eggers, autor de “O Círculo”, que deu origem em 2017 ao filme de mesmo nome, com Tom Hanks, e que, por coincidência, eu assisti semana passada. As críticas têm sido muito elogiosas ao livro.
          Flora Thomson-DeVeaux recorreu a notas de rodapé para explicar aos leitores estadunidenses o sentido de alguns locais e expressões descritos na obra de Machado. “Memórias póstumas de Brás Cubas” já havia sido lançado nos Estados Unidos, com outras traduções, como a de William L. Grossman, em 1952, com o título “The epitaph of a small winner”. Em 2018, uma coletânea de contos de Machado de Assis já tinha sido lançada nos Estados Unidos.
          Eu fico feliz. Espero que mais estrangeiros possam ter a oportunidade de conhecer a obra de Machado de Assis, e de outros autores brasileiros. E, assim, vencer a resistência à cultura latino-americana, principalmente nos Estados Unidos. Eles têm muito a ganhar com isso! fr  

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Dica de livro: "Relíquias de Casa Velha"


Relíquias de Casa Velha, Machado de Assis, São Paulo, editora Globo, 1997, 138 páginas (Obras completas de Machado de Assis).
          Livro de contos de Machado de Assis (1839-1908). O primeiro, “Pai contra mãe” eu já tinha lido e comentado aqui no meu blog, em 26 de agosto de 1017, no livro “Contos Escolhidos”. Ambientado na cidade do Rio de Janeiro colonial, ele mostra um pouco da realidade da época, que convivia com a escravidão e as práticas relacionadas a ela. Uma delas era a profissão de caçador de escravos fugitivos. O curioso é justamente que o autor, Machado de Assis, é neto de escravos alforriados.
Cândido Neves, o Candinho, não aguentava manter-se no mesmo emprego muito tempo. A atual ocupação dele era justamente recapturar os escravos que fugiam de seus proprietários, em troca da recompensa em dinheiro. Quando a esposa engravidou, ele estava há muito tempo sem conseguir recapturar nenhum, e tinha dívidas e alugueis atrasados.
A tia da esposa, com quem moravam, sugeriu que eles entregassem a criança que ia nascer à “roda dos enjeitados”, na Rua dos Barbonos, atual Rua Evaristo da Veiga, no Centro. Aquela consistia em um mecanismo no qual a criança era colocada pelo lado de fora, e mandada para dentro de uma instituição de caridade, sem que a pessoa fosse vista. Após serem colocados para fora de casa pelo proprietário, Candinho e a família foram morar de favor em uma casa de uma senhora rica, amiga da tia, dois dias antes do filho, um menino, nascer.
Sem dinheiro, e com medo da criança morrer de fome, Candinho acabou por aceitar a sugestão da tia, mas, ao levar o filho para a “roda”, visualizou de longe uma escrava fugitiva, com uma boa recompensa, e resolveu tentar uma última e desesperada tentativa... Eu acho esse conto muito interessante. Aqueles que quiserem ler o texto, eu o reproduzo abaixo, na íntegra, copiado da internet. 
O conto a seguir, “Maria Cora”, passa em 1893, durante a Revolução Federalista, no Sul do país. Cora deixou o Rio Grande, após ser traída duas vezes pelo marido, e veio para o Rio de Janeiro, morar com uma tia rica, e definir o que faria, se pediria o desquite ou não. Conhece o narrador do conto, um solteirão de 40 anos, que se apaixona e se declara a ela. Maria Cora diz que, mesma separada do marido, ainda era uma mulher casada. Ele, então, diz que iria ao Sul para combater a revolta, ao lado dos legalistas, e matar o marido, para ficar com ela. Encantada, Cora diz a ele que não acreditava que alguém a amasse com tal força. Ele se engaja na guerra, passa anos em combate, mata o marido da amada, mas, ao reencontrá-la se surpreende com sua reação. 
No terceiro conto, “Marcha fúnebre”, Machado de Assis situa a estória em “uma noite de agosto de 186...”, não precisa o ano, contada por um narrador. O deputado Cordovil passou a pensar sobre a morte, após tomar conhecimento, durante um baile, do falecimento de um outro político, seu inimigo pessoal, que se encontrava doente há meses. Não comemorou a notícia, nem teve sentimento de vingança. Ao voltar para a casa, na Rua de São Cristóvão, viu um homem caído no chão, morte fulminante por questões naturais, ficou sabendo. A partir de então, passou a imaginar se a morte do colega tivesse sido durante uma sessão na Câmara. E se ele próprio morresse dentro do carro que o levava para casa ou na cama, dormindo. Passou a refletir sobre a inevitável hora da morte. 
Em “Um capitão de voluntários”, estória ocorrida em 1866, registrada por Simão de Castro e entregue para publicação a um amigo, com a condição de ser após a sua morte. O amigo acabou por não o fazê-lo, por achar que o relato poderia causar algum desconforto aos envolvidos. A estória acabou sendo divulgada após a morte dos dois, Simão apaixonou-se por Maria, mulher de Emílio. Ela vivia há anos com esse homem, mesmo sem terem se casado, e um dia acaba beijando Simão, mas, depois disso, arrepende-se. Ao ouvir uma conversa de Maria com uma amiga, Raimunda, esta tentou convencê-la a voltar a se aproximar de Simão. Desiludido, o marido alistou-se como voluntário na Guerra do Paraguai. Apesar disso, a mulher não voltou atrás na decisão de se afastar de Simão. Emílio acabou morrendo na guerra. Não gostei muito deste conto.   
“Suje-se gordo!”, é um interessante conto sobre um senhor acostumado a participar de júris, como um dos jurados. Em um deles, viu o acusado ser condenado pelo roubo de uma pequena quantia, através de falsificação. Anos depois, encontrou-se em uma situação parecida, só que o réu era um dos jurados daquele julgamento, no qual à época votou pela condenação, ainda afirmando que a quantia em questão era uma miséria: ‘Quer sujar-se? Suje-se gordo!’. Neste julgamento, ele, como jurado, votou pela condenação pelo crime de desvio também de uma quantia ínfima de um banco. O réu acabou inocentado por 9x3, e depois disso passou a não querer tomar mais parte de julgamentos: “Não queirais julgar para que não sejais julgados”. Interessante. 
O conto “Umas férias” mostra as reações de um menino de 10 anos, que acredita ir para uma festa quando o tio vai buscar a ele e à irmã no meio da aula. Mas, ao chegar em casa, descobre que o motivo era bem diferente; o pai morrera. Foram férias da escola, mas não férias para brincar ou se divertir. 
“Evolução” é um conto que mostra a necessidade de o país abrir estradas de ferro para impulsionar o seu desenvolvimento. Não gostei.   
“Pílades e Orestes” mostra a estória de dois amigos de infância, que se formaram em Direito juntos, e seguiram a vida sempre próximos. Apesar de terem praticamente a mesma idade, Quintanilha tratava Gonçalves com enorme atenção, carinho e respeito, chegando a ponto de ajudar o amigo em seu escritório de graça, mas sendo tratado como se um empregado fosse. Quando Quintanilha se apaixonou por uma prima em segundo grau, e resolveu casar-se com ela, pediu a opinião ao amigo. Este pareceu contrariado, e Quintanilha acreditou que ele amasse a sua prima, e resolveu abrir mão dela. A mim, pareceu que Gonçalves não esperava que o amigo fosse seguir vida própria, casando-se. Quintanilha chegou a propor à prima que se casasse com o amigo, e ele deixaria sua fortuna para ela em testamento. Ela não aceitou, mas gostou de saber que Gonçalves poderia gostar dela, o que os aproximou. Quintanilha resolveu, então, colocar o amigo como único herdeiro; foi seu padrinho de casamento com a sua prima; e padrinho do primeiro filho do casal. E morreu, em 1893, atingido por uma bala perdida (já existia isso no século 19!) na Praça 15. A “bala revoltosa” que o atingiu foi durante a Revolta da Armada, movimento militar contrário ao governo do marechal Floriano Peixoto. O título é uma referência a uma tragédia grega. Mas o texto de Machado de Assis mostra uma pessoa extremamente dedicada a um amigo, a ponto de abrir mão de sua felicidade para assegurar a dele. É amizade demais! 
“Anedota de Cabriolet”: um cabriolet (um tipo antigo de carruagem de duas rodas, puxada por um cavalo, com dois lugares) vai buscar o pároco para dar os sacramentos a dois jovens muito doentes. Era um casal desconhecido na localidade, e que estava na casa de um comendador, porque eram conhecidos de seu filho. O padre fica sabendo da estória triste do casal. Criados juntos, estavam noivos e iriam se casar, quando souberam por uma parenta que eram irmãos por parte da mãe. Por serem apenas meio-irmãos, resolveram, então, fugir de casa em um cabriolet para levar adiante a ideia do casamento. Mas acabaram sendo seguidos e descobertos na casa desse comendador; o conto não informa, mas possivelmente por parentes. E adoeceram por não poderem ficar juntos, e morreram. O sacristão acaba descobrindo que o cabriolet usado para a fuga do jovem casal era o mesmo que serviu para levar ele e o padre até os dois para a extrema-unção. Está mais para uma curiosidade triste do que uma “anedota”.  
O livro é encerrado com com quatro textos de Machados de Assis, que eu não achei interessantes. “Gonçalves Dias” discurso lido no Passeio Público ao inaugurar-se o busto do poeta. “Um Livro (Cena da Vida Amazônica)”, sobre um livro de José Veríssimo. “Eduardo Prado”, sobre a sua morte. “Antônio José”, para ser sincero, eu nem quis ler. Estes textos finais parecem ter sido encaixados para completar o livro, não me despertaram nenhum interesse. Mas, com certeza, valeu a pena ler mais este livro de contos de Machado de Assis. fr

Conto "Pai contra mãe" - Machado de Assis

PAI CONTRA MÃE

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, — ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoitasse.

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

Cândido Neves, — em família, Candinho, — é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.

Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.

Contava trinta anos. Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.

O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi — para lembrar o primeiro ofício do namorado, — tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.

— Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.

— Não, defunto não; mas é que...

Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.

— Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.

— Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.

Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.

A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo.

Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.

— Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.

A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.

— Vocês verão a triste vida, suspirava ela.

— Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.

— Nascem, e acham sempre alguma coisa certa que comer, ainda que pouco...

— Certa como?

— Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?

Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.

— A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau...

— Bem sei, mas somos três.

— Seremos quatro.

— Não é a mesma coisa.

— Que quer então que eu faça, além do que faço?

— Alguma coisa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém.

— Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.

Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.

Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.

Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.

Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.

— É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.

 Cândido quisera efetivamente fazer outra coisa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.

A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.

— Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!

Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio.

— Titia não fala por mal, Candinho.

— Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...

Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, — crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dois foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.

— Quem é? perguntou o marido.

— Sou eu.

Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.

— Não é preciso...

— Faça favor.

O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.

— Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.

Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.

A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise, começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.

Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. “Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos.” Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.

Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.

Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.

Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo.

— Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.

Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.

— Mas...

Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.

— Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.

Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

— Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!

— Siga! repetiu Cândido Neves.

— Me solte!

— Não quero demoras; siga!

Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, — coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites.

— Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.

Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes coisas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

— Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.

— É ela mesma.

— Meu senhor!

— Anda, entra...

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.

O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.

Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.

— Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.