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terça-feira, 11 de novembro de 2025
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Foto histórica de 1888 de missa campal comemorativa pela abolição da escravidão, que mostraria a princesa Isabel e Machado de Assis próximos, é uma montagem de acordo com historiadora
A foto acima mostra, após uma aproximação, a princesa Isabel e o seu
marido, o príncipe consorte conde d’Eu, e o escritor Machado de Assis em uma
missa campal realizada em 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, em
comemoração à abolição da escravidão. A foto é de autoria de Antonio Luiz
Ferreira e é do acervo da Coleção Dom João de Orleans e Bragança do portal Brasiliana
Fotográfica. A presença ilustre do escritor foi identificada pela pesquisadora
e editora do portal, Andrea Wanderley, tendo sido confirmada por Eduardo Assis
Duarte, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e professor da
Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estavam
presentes à missa cerca de 30 mil pessoas, incluindo autoridades e vários
políticos. A foto despertou bastante interesse ao ser publicada no jornal Folha
de S. Paulo em 2015. Mas, apesar de estudiosos e especialistas na vida e na
obra de Machado de Assis terem confirmado à época ser ele na foto, dois anos
depois o mesmo jornal publicou um texto da historiadora Lilia Scharwcz em que
ela afirmou que a foto era apenas uma montagem. Um trecho da publicação:
“Descoberta e anunciada com alarde em 2015, a imagem que mostra Machado de Assis na missa campal pela abolição da escravatura, em 1888, é uma montagem, diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Para ela, a cabeça do autor foi colocada ali artificialmente. ‘Era uma técnica comum na época’, diz, destacando que as cabeças das personalidades presentes estão encaixadas de forma ‘artificial’ nos dorsos, e que há desproporção entre várias figuras. A foto não significa que ele não estivesse lá (o fotógrafo pode tê-la manipulado por achar que não saiu boa), mas ela não serve como prova histórica. Nos jornais da época, por exemplo, a presença do escritor não é mencionada.” fr

segunda-feira, 4 de novembro de 2024
Dica de livro: "50 Contos de Machado de Assis"
“50 Contos de Machado de Assis”; Seleção, introdução e notas John Gledson, São Paulo, Companhia das Letras, 2007, 487 páginas.
A seleção dos 50 contos foi realizada pelo inglês John Gledson, tradutor, ensaísta, crítico literário e professor aposentado da Universidade de Liverpool, especializado em Língua Portuguesa, literatura brasileira, com destaque para a obra de Machado de Assis. Ele é Mestre e Doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Neste livro, Gledson seleciona 50 dos “cerca de 200 contos escritos por Machado de Assis”, todos eles publicados a partir de 1878, “quando ele já tinha quase quarenta anos, e 44 deles foram escritos na década seguinte”. Eu destaco alguns como os meus preferidos.
O conto “O Alienista” é o maior de todos, com 30 páginas. Médico de grande prestígio constrói um hospício, e, aos poucos, vai internando todos os moradores da sua cidade. Algumas editoras já publicaram este conto separadamente, como livro. “Pai contra a mãe” eu já publiquei aqui, no meu blog. É sobre a situação desesperadora de um casal em dificuldades financeiras, com uma criança recém-nascida e prestes a ser despejado. Apesar do título sugerir uma discórdia entre marido e esposa, é a tia desta, que mora com eles, que os pressiona a abandonar o menino, pela falta de condições para alimentar a todos. O pai, um caçador de escravos, busca uma última chance de conseguir algum dinheiro ao sair na procura de novos fugitivos, e, assim, poder ficar com o filho.
Em “Teoria do medalhão”, quando o filho completa seus 21 anos, antigamente época da maioridade, seu pai ensina como se destacar apenas aparentando ser alguém importante, mesmo sem ter opiniões próprias ou capacidade individual. “Último Capítulo”, sobre um homem que se considera azarado e, cansado dos desgostos da vida, decide cometer o suicídio. Ele preparou o seu testamento e faz questão de relatar, por escrito, as suas razões. Eu gostei muito, apenas o final eu teria preferido outro.
Um homem aceita o trabalho de enfermeiro de um ancião doente e de péssimo gênio. Aturando o que mais ninguém queria aturar, o desenlace dessa relação acaba por mudar sua vida. É o conto “O Enfermeiro”. Em “D. Paula”, senhora tem o passado batendo-lhe à porta, quando procura ajudar a sua sobrinha, que vivia triste por conta de uma séria crise conjugal. fr
domingo, 16 de junho de 2024
Infelizmente, brasileiros precisam da aprovação dos EUA para valorizar o que temos de melhor
Duas notícias divulgadas recentemente pela imprensa mostram como o Brasil é carente da aceitação e da aprovação dos Estados Unidos. Na primeira, uma “influenciadora” encantou-se com um livro de Machado de Assis; em outra, uma revista colocou um disco do Milton Nascimento na lista dos 10 melhores de todos os tempos. Eu li todos os romances de Machado de Assis e já comentei aqui no meu blog e devo ter quase todos os discos do Milton Nascimento, ainda em vinil, raridades. Não preciso que alguém nos Estados Unidos diga para mim o quanto eles são bons! Mas, infelizmente, por aqui as pessoas precisam...
Uma “influenciadora” nos Estados Unidos, Coutney Novak, estabeleceu para si mesma o desafio de ler livros de vários países, em ordem alfabética pelo nome do país. Na letra B, de Brasil, ela escolheu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e postou uma publicação, no mês passado, dizendo ser o “melhor livro que já foi escrito” (veja abaixo)! O vídeo teve um milhão de visualizações e o livro passou a ser o mais vendido na sessão de literatura latino-americana e do Caribe da Amazon. Por causa do livro de Machado de Assis, Coutney Novak disse que pretende, até, aprender o português!
A revista “Paste” (nunca ouvi falar, desculpem...) elaborou uma lista com os 100 melhores discos. “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento, (eu tenho!, veja foto) foi colocado no 9º lugar. E “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos, ficou em 51º lugar. Os dois foram lançados em 1972. Eu pergunto: em uma lista de 100 discos, somente dois brasileiros? Muito pouco! Mas a imprensa deu destaque, como se por aqui já não soubéssemos do talento do Milton Nascimento. Bom para eles, nos Estados Unidos, que podem dizer que conhecem um pouco (bem pouco!) do que é feito por aqui, no nosso país! fr

domingo, 12 de fevereiro de 2023
"Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"
Esta é uma coletânea
organizada pelo crítico literário e professor Ítalo Moriconi, que reuniu cem
contos de autores brasileiros que, no entender dele, seriam os melhores do
século 20. Há autores bem conhecidos, e alguns com mais
de um conto; outros menos divulgados. Ele explica uma ausência: “Lamento apenas
que os contos de Guimarães Rosa escolhidos para a antologia não pudessem ser
incluídos por dificuldades relativas à cessão de direitos autorais.” É uma
coletânea definida pelas preferências do organizador. Eu destaco os que eu
gostei: “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; “A nova Califórnia” e “O
homem que sabia javanês”, de Lima Barreto; “O peru de Natal”, de Mário de Andrade;
“Um cinturão”, de Graciliano Ramos; e “A máquina”, de José J. Veiga. Gostei,
também, de “O moço do saxofone”, de Lygia Fagundes Telles; “O homem nu”, de
Fernando Sabino; “Passeio noturno”, de Rubem Fonseca; “Estranhos”, de Sérgio
Sant’Anna; “Pílades e Orestes” e “Pai contra mãe”, de Machado de Assis; e “Uma
vela para Dario”, de Dalton Trevisan, estes dois últimos eu já publiquei aqui
no meu blog. São muitos textos e o gosto de cada um é que determina os seus
preferidos.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
Dica de livro: "Contos Escolhidos: Machado de Assis"
“Contos Escolhidos: Machado de Assis”; São Paulo, editora Martin Claret, 2008, Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, 304 páginas.
segunda-feira, 4 de abril de 2022
A 'roda dos enjeitados' recebia as crianças que os pais e mães não queriam

sábado, 15 de janeiro de 2022
Artigo de 1859 sobre D. Pedro II pode ser de Machado de Assis
Um texto destacando a importância do imperador D. Pedro II publicado em “O Espelho” em 1859 foi apontado por uma pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) como podendo ser de autoria de Machado de Assis. A publicação é uma revista de literatura, modas, indústria e artes, e como o artigo não está assinado não chamou a atenção até a estudante de mestrado encontrá-lo, há alguns anos. A sua tese foi sobre a produção editorial da revista no período de 1859 a 1860.
quinta-feira, 3 de junho de 2021
"A carteira" (Machado de Assis)
Conto publicado em 1884, no jornal “A Estação”, do Rio de Janeiro.
A Carteira
Machado de Assis
DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
-- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
-- É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
-- Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.
-- Agora vou, mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, cm que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.
Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
-- Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua. da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.
Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, -- enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos milréis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do acha- do, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
"Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar- me do dinheiro," pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.
"Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer."
Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
-- Nada.
-- Nada?
-- Por quê?
-- Mete a mão no bolso; não te falta nada?
-- Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso. Sabes se alguém a achou? -- Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.
-- Mas conheceste-a?
-- Não; achei os teus bilhetes de visita.
Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.
(Créditos: domínio público.gov.br)
sábado, 17 de outubro de 2020
Sede do TCM era residência de Machado de Assis
Passando pela Rua Santa Luzia, no Centro do Rio de Janeiro, uma discreta placa na parede do Tribunal de Contas do Município me chamou a atenção. Nela, é informado que o escritor Machado de Assis e sua esposa, Carolina Augusta Novais, viveram naquele local, no antigo número 54, de 1871 a 1874. Com certeza, naquela época o casal viveu em uma casa, que, com o crescimento da cidade, foi demolida. Hoje, o local é um prédio de 12 andares, e é a sede do Tribunal de Contas, desde 1990. fr
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Em prefácio, Machado de Assis conta sua amizade e admiração a José de Alencar
“(...) Não pude reler este livro, sem recordar e comparar a primeira fase da vida do autor com a segunda. 1856 e 1876 são duas almas da mesma pessoa. A primeira data é a do período inicial da produção, quando a obra paga o esforço, e a imaginação não cuida mais que de florir, sem curar dos frutos nem de quem lh’os apanhe. Na segunda, estava desenganado. Descontada a vida íntima, os seus últimos tempos foram de misantropo. Era o que ressumbrava dos escritos e do aspecto do homem. Lembram-me ainda algumas manhãs, quando ia achá-lo nas alamedas solitárias do Passeio Público, andando e meditando, e punha-me a andar com ele, e a escutar-lhe a palavra doente, sem vibração de esperanças, nem já de saudades. Sentia o pior que pôde sentir o orgulho de um grande engenho: a indiferença pública, depois da aclamação pública. Começara como Voltaire para acabar como Rosseau.”
(...)
“Estes e outros sinais dos tempos tinham-lhe azedado a alma. O echo da quadra ruidosa vinha contrastar com o atual silêncio; não achava a fidelidade da admiração. Acrescia a política, em que tão rápido se elevou como caiu; e donde trouxe a primeira gota de amargor.”
(...)
“Entretanto, é certo que a política foi uma de suas ambições, senão por si mesmo, ao menos pelo relevo que dão as altas funções do Estado. A política tomou-o em sua nave de ouro; fel-o polemista ardente e brilhante, e levantou-o logo ao leme do governo. Não faltava a Alencar mais que uma faculdade parlamentar, a eloquência. Não possuía a eloquência, antes parecia ter em si todas as qualidades que lhe eram contrárias; mas, fez-se orador parlamentar, com esforço, desde que viu que era preciso. Compreendera que, sem a oratória, tinha de ficar na meia obscuridade. Se o talento da palavra é a primeira condição do parlamento, no dizer de Macaulay, - que não escreveu essa espécie de truísmo, suponho, senão para acrescentar sarcasticamente que a oratória tem a vantagem de dispensar qualquer outra faculdade, e pode muita vez cobrir a ignorância, a fraqueza, a temeridade e os mais graves e fatais erros, - sabemos que, para o nosso Alencar, como para os melhores, era um talento complementar, não substitutivo. Deu com ele algumas batalhas duras contra adversários de primeira ordem. Mas tudo isso foi rápido. Teve os gozos intensos da política, não os teve duradouros. As letras, posto que mais gratas que ela, apenas o consolaram; já lhes não achou o sabor primitivo. Voltou a elas inteiramente, mas solitário e desenganado.
A morte veio tomá-lo depressa. Jamais me esqueceu a impressão que recebi quando dei com o cadáver de Alencar no alto da eça, prestes a ser transferido para o cemitério. O homem estava ligado aos anos das minhas estreias. Tinha-lhe afeto, conhecia-o desde o tempo em que ele ria, não me podia acostumar à ideia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse artista fadado para distribuir a vida.(...)”
sábado, 6 de junho de 2020
Nova tradução de "Memórias póstumas de Brás Cubas" esgota nos EUA em um dia

segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Dica de livro: "Relíquias de Casa Velha"

Conto "Pai contra mãe" - Machado de Assis
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.





