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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Neste Natal, e no ano todo, resista ao consumismo!: "Eu, etiqueta" (Carlos Drummond de Andrade)

EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade 

Em minha calça está grudado um nome
Que não é o meu de batismo ou de cartório
Um nome estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente.
Meu copo, minha xícara.
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante e sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas.
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandálias de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais.
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
De vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarificados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De não ser eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu novo nome é Coisa
Eu sou a Coisa, coisamente.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Diário de um cachorro (emocionante!)


1ª semana:

- Hoje completei uma semana de vida. Que alegria ter chegado a este mundo!
1º mês:
- Minha mamãe cuida muito bem de mim. É uma mãe exemplar!
2 meses:
- Hoje me separaram de minha mamãe. Ela estava muito inquieta e, com seu olhar, disse-me adeus. Espero que a minha nova "família humana” cuide tão bem de mim como ela o fez.
4 meses:
- Cresci rápido, tudo chama a minha atenção. Há várias crianças na casa e para mim são como "irmãozinhos". Somos muito brincalhões, eles me puxam o rabo e eu os mordo de brincadeira.
5 meses:
- Hoje me deram uma bronca. Minha dona incomodou-se porque fiz "pipi" dentro de casa. Mas nunca me haviam ensinado onde deveria fazê-lo. Além do que, durmo no hall de entrada. Não deu para aguentar.
8 meses:
- Sou um cão feliz! Tenho o calor de um lar; sinto-me tão seguro, tão protegido... Acho que a minha família humana tem am
or por mim e me consente muitas coisas. O pátio é todinho para mim e, às vezes, exagero, cavando na terra como meus antepassados, os lobos, quando escondiam a comida. Nunca me educam. Deve ser correto tudo o que faço!
12 meses:
- Hoje completo um ano. Sou um cão adulto. Meus donos dizem que cresci mais do que eles esperavam. Que orgulho devem ter de mim!!
13 meses:
- Hoje me acorrentaram e fico quase sem poder movimentar-me até onde tem um raio de sol ou quando quero alguma sombra. Dizem que vão me observar e que sou um ingrato. Não compreendo nada do que está acontecendo.
15 meses:
- Já nada é igual... Moro na varanda. Sinto-me muito só. Minha família já não me quer! Às vezes esquecem que tenho fome e sede. Quando chove, não tenho teto que me abrigue...
16 meses:
- Hoje me desceram da varanda. Estou certo de que minha família me perdoou. Eu fiquei tão contente que pulava com gosto. Meu rabo parecia um ventilador. Além disso, vão levar-me a passear em sua companhia! Direcionamo-nos para a rodovia e, de repente, pararam o automóvel. Abriram a porta e eu desci feliz, pensando que passaríamos nosso dia no campo. Não compreendo porque fecharam a porta e foram embora. "Ouçam, esperem!", lati... esqueceram-se de mim... Corri atrás do carro com todas as minhas forças. Minha angústia crescia ao perceber que quase perdia o fôlego e eles não paravam. Haviam esquecido de mim.
17 meses:
- Procurei em vão achar o caminho de volta ao lar. Estou e sinto-me perdido! No meu caminho existem pessoas de bom coração que me olham com tristeza e me dão algum alimento. Eu lhes agradeço com o meu olhar, desde o fundo de minh'alma. Eu gostaria que me adotassem: seria leal como ninguém! Mas somente dizem: "pobre cãozinho, deve ter se perdido.”
18 meses:
- Um dia destes, passei perto de uma escola e vi muitas crianças e jovens como meus "irmãozinhos". Aproximei-me e um grupo deles, rindo, jogou uma chuva de pedras em mim, "para ver quem tinha melhor pontaria". Uma dessas pedras feriu-me o olho e desde então, não enxergo com ele.
19 meses:
- Parece mentira Quando estava mais bonito, tinham compaixão de mim. Já estou muito fraco; meu aspecto mudou. Perdi o meu olho e as pessoas ameaçam-me com a vassoura quando pretendo deitar-me numa pequena sombra.
20 meses:
- Quase não posso mover-me! Hoje, ao tentar atravessar a rua por onde passam os carros, um me atingiu! Eu estava no lugar seguro chamado "calçada", mas nunca esquecerei o olhar de satisfação do motorista, que até se vangloriou por acertar-me. Quisera que tivesse me matado! Mas só me deslocou as cadeiras! A dor é terrível! Minhas patas traseiras não me obedecem e com dificuldade arrastei-me até a relva, na beira do caminho. Faz dez dias que estou embaixo do sol, da chuva, do frio, sem comer. Já não posso mexer-me! A dor é insuportável! Sinto-me muito mal; fiquei num lugar úmido e parece que até o meu pelo está caindo...

Algumas pessoas passam e nem me veem; outras dizem: "não chegue perto". Já estou quase inconsciente, mas alguma força estranha faz com que eu ainda abra os olhos. A doçura de sua voz me fez reagir. "Pobre cãozinho, olha como te deixaram", dizia... junto com ela estava um senhor de avental branco. Começou a tocar-me e disse: "Sinto muito senhora, mas este cão já não tem remédio". “É melhor que pare de sofrer”.

A gentil dama, com as lágrimas rolando pelo rosto, concordou. Como pude, mexi o rabo e olhei-a, agradecendo-lhe que me ajudasse a descansar. Somente senti a picada da injeção e dormi para sempre, pensando em por que tive que nascer se ninguém me queria...
___________________ 

Repasse este texto a todos os seus amigos e familiares, e colabore para mudarmos essa situação. Faça a sua parte! Ajude a mudar a atitude das pessoas e, assim, acabar com os maus tratos aos animais, especialmente com o problema de cães abandonados nas ruas. Quem quer ter um animal tem que assumir a responsabilidade de cuidar dele para sempre! Obrigado!

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A reunião geral dos ratos (falar é fácil)

Uma vez os ratos, que viviam apavorados com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele eterno transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim, um rato levantou-se e deu a ideia de pendurar uma sineta no pescoço do gato. Assim, dizia ele, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas: o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um outro rato, que tinha ficado o tempo todo calado, levantou-se de seu canto. O rato falou que o plano era muito inteligente e que, com toda a certeza, iria resolver todos os problemas. Só faltava uma decidir coisa: quem iria pendurar a sineta no pescoço do gato?
Moral: uma coisa é dar opinião, outra coisa é fazer! (Lido na internet, sem autoria.)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

O soldado

Esta história é sobre um soldado que finalmente estava voltando para casa, após a terrível guerra do Vietnã. Ele ligou para seus pais, em São Francisco, e lhes disse:
- Mãe, pai, eu estou voltando para casa, mas eu tenho uma coisa para pedir.
- Claro meu filho, peça o que quiser!
- Eu tenho um amigo que eu gostaria de levar comigo.
- Claro meu filho, nós adoraríamos conhecê-lo!
- Entretanto, há algo que vocês precisam saber. Ele foi ferido na última batalha que participamos. Pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. O pior é que ele não tem nenhum lugar para onde ir. Por isso, eu quero que ele venha morar conosco.
- Eu sinto muito em ouvir isso meu filho, nós talvez possamos ajudá-lo a encontrar um lugar onde ele possa morar e viver tranquilamente!
- Não, eu quero que ele venha morar conosco!
- Filho, disse a mãe, você não sabe o que está nos pedindo. Alguém com tanta dificuldade seria um grande fardo para nós. Temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que uma coisa como esta interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar para casa e esquecer este rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver por si mesmo...
Neste momento, o filho desligou o telefone. Os pais estranharam muito, e não tiveram mais notícias dele. Alguns dias depois, no entanto, eles receberam um telefonema da polícia de São Francisco. O filho deles havia morrido depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio. Os pais, angustiados, foram levados para identificar o corpo do filho. Eles o reconheceram, mas, para o seu horror, descobriram algo que desconheciam: o filho deles tinha apenas um braço e uma perna.
(Autor desconhecido)

domingo, 11 de dezembro de 2022

E você, seria salvo?

       "Conta-se que um empregado em um frigorífico da Noruega, certo dia ao término do trabalho, foi inspecionar a câmara frigorífica e inexplicavelmente a porta se fechou e ele ficou preso. Bateu na porta com força, gritou por socorro, mas ninguém o ouviu, todos já haviam saído para suas casas e era impossível que alguém pudesse escutá-lo.
        Já estava quase cinco horas preso, debilitado pela temperatura insuportável. De repente a porta se abriu e o vigia entrou na câmara e o resgatou com vida.
        Perguntaram ao vigia:
        - Por que foi abrir a porta da câmara e a inspecionar se isto não fazia parte da sua rotina de trabalho?
        Ele explicou:
       - Trabalho nesta empresa há 35 anos, vejo centenas de empregados que entram e saem todos os dias, e esse é o único funcionário que me cumprimenta ao chegar pela manhã, e se despede, ao sair. Hoje ele me disse “Bom dia” ao chegar. Entretanto não percebi que se despediu de mim. Imaginei que poderia ter lhe acontecido algo. Por isto o procurei e o encontrei...
        Pergunta: Será que você seria salvo?"
        (Sem autoria, divulgado na internet)

sábado, 15 de outubro de 2022

O Céu

Um homem, um cavalo e um cachorro caminhavam por uma estrada, quando o homem se deu conta de que haviam morrido. Numa curva do caminho, avistaram um portal magnífico que conduzia a um jardim cinematográfico com uma fonte central de água fresca e cristalina. O homem, então, aproximou-se do guardador do portal perguntando:
- Que lugar maravilhoso é este?
- Aqui é o Céu, respondeu o guardião.
- Que bom, vamos poder matar a sede, disse o homem.
- O senhor pode entrar e beber à vontade, mas, animais não são permitidos!
O homem ficou desapontado, pois tinha muita sede, porém, não deixaria seus amigos, e assim prosseguiu sua jornada. Lá pelo entardecer, exaustos, chegaram a um lugar com uma pequena porteira entreaberta. Logo à entrada, havia uma árvore com um sujeito recostado em tranquilo cochilo. O viajante despertou-o indagando sobre onde poderiam matar a sede.
- Há uma fonte ali dentro, disse o estranho, apontando a direção. Podem beber à vontade.
O homem e os seus amigos saciaram então a sede. Na volta, o andarilho agradeceu ao sujeito e perguntou:
- A propósito, como se chama este lugar?
- Céu!, respondeu o estranho.
- Céu!? Mas o guardião do portal lá atrás disse que lá que é o Céu!
- Lá não é o Céu, meu amigo. Lá é o inferno!
O caminhante ficou perplexo e exclamou:
- Mas, essa informação deve causar grandes confusões!
- Pelo contrário, amigo, na verdade, eles nos prestam um grande favor, porque lá ficam aqueles que são capazes de abandonar seus amigos.
(Retirado da internet, sem autoria.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Água ou refrigerante?

Água ou Coca-Cola?

ÁGUA

Um copo de água corta a sensação de fome durante a noite para praticamente 100% das pessoas em regime. É o que mostra um estudo da Universidade de Washington.

Falta de água é o fator nº 1 da causa de fadiga durante o dia. Estudos preliminares indicam que de 8 a 10 copos de água por dia poderiam aliviar significativamente as dores nas costas e nas juntas em 80% das pessoas que sofrem desses males.

Uma mera redução de 2% da água no corpo humano pode provocar incoerência na memória de curto prazo, problemas com matemática e dificuldade em focalizar um écran de computador, ou uma página de impressora.

Beber cinco copos de água por dia diminui o risco de câncer no cólon em 45%, pode diminuir o risco de câncer de mama em 79% e em 50% a probabilidade de se desenvolver câncer na bexiga.

Você está bebendo a quantidade de água que deveria todos os dias?

COCA-COLA

Em muitos estados nos Estados Unidos, as patrulhas rodoviárias carregam dois galões de Coca-Cola no porta-bagagem para serem usados na remoção de sangue na estrada, após um acidente.

Se você colocar um osso em uma tigela com Coca-Cola, ele se dissolverá em dois dias.

Para limpar o banheiro: despeje uma lata de Coca-Cola dentro do vaso e deixe por uma hora, após dê descarga.

O ácido cítrico na Coca-Cola remove manchas na louça.

Para remover pontos de ferrugem de um para-choque cromado de automóvel, esfregue-o com um chumaço de papel de alumínio (usado para embrulhar alimentos) molhado com Coca-Cola.

Para limpar corrosão dos terminais de baterias de automóveis, despeje uma lata de Coca-Cola sobre os terminais e deixe efervescer sobre a corrosão.

Para soltar um parafuso emperrado por corrosão, aplique um pano encharcado com Coca-Cola sobre o parafuso enferrujado por vários minutos.

Para remover manchas de graxa das roupas, despeje uma lata de Coca-Cola dentro da máquina com as roupas com graxa, adicione detergente. A Coca-Cola ajudará a remover as manchas de graxa.

A Coca-Cola também ajuda a limpar o embaçamento do para-brisa do seu carro.

O ingrediente ativo na Coca-Cola é o ácido fosfórico. Seu pH é 2,8. Ele dissolve uma unha em cerca de quatro dias. Ácido fosfórico também rouba cálcio dos ossos, e é o maior contribuinte para o aumento da osteoporose. Há alguns anos, fizeram uma pesquisa na Alemanha para detectar o porquê do aparecimento de osteoporose em crianças a partir de 10 anos (pré-adolescentes). Resultado: excesso de Coca-Cola, por falta de orientação dos pais.

Para transportar o xarope de Coca-Cola, os caminhões comerciais são identificados com a placa de Material Perigoso, que é reservado para o transporte de materiais altamente corrosivos.

Os distribuidores de Coca-Cola têm usado a Coca-Cola para limpar os motores de seus caminhões há pelo menos 20 anos.

Mais um detalhe: a Coca-Cola Light tem sido considerada cada vez mais pelos médicos e pesquisadores como uma bomba de efeito retardado por causa da combinação Coca + aspartame, suspeito de causar lúpus e doenças degenerativas do sistema nervoso.

A PERGUNTA É:

Depois de melhor informado, você irá preferir um copo de água, ou um copo de Coca-Cola?

(Retirado da internet.)

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Fábulas de Esopo: "O lobo e a cegonha"

O LOBO E A CEGONHA

"Um lobo devorou sua caça tão depressa, com tanto apetite, que acabou ficando com um osso entalado na garganta. Cheio de dor, o lobo começou a correr de um lado para o outro soltando uivos, e ofereceu uma bela recompensa para quem tirasse o osso de sua garganta. Com pena do lobo e com vontade de ganhar a recompensa, uma cegonha resolveu enfrentar o perigo. Depois de tirar o osso, quis saber onde estava a recompensa que o lobo tinha prometido.

– Recompensa? – berrou o lobo.

– Mas que cegonha pedinchona! Que recompensa que nada! Você enfiou a cabeça na minha boca e em vez de arrancar sua cabeça com uma dentada deixei que você a tirasse lá de dentro sem um arranhãozinho.

– Você não acha que tem muita sorte, seu bicho insolente? Dê o fora e se cuide para nunca mais chegar perto de minhas garras!

Moral: Não espere gratidão ao mostrar solidariedade para com quem nunca foi teu amigo."

sexta-feira, 20 de maio de 2022

"A polêmica" (Artur Azevedo)

A POLÊMICA
Artur Azevedo

     O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrara de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.
     Felizmente era solteiro, e o dono da “pensão” onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.
     Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.
     Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontrava na rua.
     O negociante ouviu-o, e disse-lhe:
     ─ Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que te vou pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...
     ─ Estou às tuas ordens.
     ─ Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no “Jornal do Comércio”, um artigo contra o Saraiva.
     ─ Que Saraiva?
     ─ O da rua Direita.
     ─ O João Fernandes Saraiva?
     ─ Esse mesmo.
     ─ E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?
     ─ Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.
     A essa palavra “cobres”, o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:
     ─ Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...
     ─ Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito que seja mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero trata-lo com luva de pelica. Sou o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade. Escreves o artigo?
     ─ Mas...
     ─ Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.
     ─ Tenho escrúpulos...
     ─ Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.
     E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar um contra o outro, dois amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil. O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.
     O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura da lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.
     ─ Muito bem! ─ exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.
     ─ Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!
     E, depois de um passeio à burra, meteu um envelope na mão do Romualdo, dizendo-lhe:
     ─ Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. A época é difícil, mas há de se arranjar.
     O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil réis! Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!
     Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da “pensão” que lhe emprestasse o “Jornal do Comércio”, e viu a sua prosa “Eu e o sr. João Fernandes Saraiva”, assinada pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espírito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.
     À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra “urgente”.
     Ele abriu-a e leu:
     “Romualdo. ─ Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do ─ João Fernandes Saraiva”.
     Este bilhete inquietou o ex-jornalista.
     Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe... Mas para que me chamará ele?
     O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!
     ─ Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.
     O menino foi-se.
     O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.
     Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:
     ─ Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!
     E levou-o para um compartimento reservado.
     ­─ Leste o “Jornal do Comércio” de hoje?
     ─ Não ─ mentiu prontamente o Romualdo. ─ Raramente leio o “Jornal do Comércio”.
     ─ Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!
     O Romualdo fingiu que leu.
     ─ Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! ─ bradou o Saraiva. ─ Aquilo é uma besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!
     ─ O artigo não está mau... Tem até estilo...
     ─ Preciso responder!
     ─ Eu, no teu caso, não respondia...
     ─ Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio “Jornal do Comércio” e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.
     ─ Eu?...
     ─ Tu, sim! Eu podia escrever mas... que queres?... Estou fora de mim!...
     ─ Bem sabes ─ gaguejou Romualdo ─ que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...
     ─ Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!
     No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.
     Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:
     ─ Por amor de Deus não te recusas a este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado, precisas ganhar algumas coisa...
     O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.
     Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: ─ Bravo! Não poderia sair melhor! ─ e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil réis e entregou-o ao prosador.
     ─ Oh! Isto é muito, Saraiva!
     ─ Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pagues bem!
     ─ Obrigado: mas olha... recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no “Jornal” pode haver alguém que conheça a minha letra.
     ─ Copiá-lo-ei eu mesmo.
     ─ Adeus.
     ─ Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!
     ─ Está dito.
     No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o “Jornal do Comércio” na mão.
     ─ O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!
     E batendo com as costas da mão no jornal:
     ─ Isto não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas, ainda assim, quem escreveu por ele está longe de ter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...
     E o Romualdo escreveu...
     Durante um mês, teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um, ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.
     Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: ─ Escreve! Escreve! Eu quero ser o último!
     Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.
     E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu harmonizá-los.
     O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.

"Contos escolhidos", Artur Azevedo, São Paulo, editora Click, 1997, 159 páginas (Coleção Livros O Globo, vol. 15).

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Fábulas de Esopo: "O leão apaixonado"

As chamadas “Fábulas de Esopo” são pequenas estórias muito difundidas pelo mundo, e que procuram passar uma mensagem, uma moral. A autoria dessas fábulas é creditada a Esopo, escravo grego que viveu nos anos 620 a 560 a. C. fr

O LEÃO APAIXONADO

"Certa vez um leão se apaixonou pela filha de um lenhador e foi pedir a mão dela em casamento. O lenhador não ficou muito animado com a idéia de ver a filha com um marido perigoso daqueles e disse ao leão que era muita honra, mas muito obrigado, não queria. O leão se irritou; sentindo o perigo, o homem foi esperto e fingiu que concordava:

- É uma honra, meu senhor. Mas que dentões o senhor tem! Que garras compridas! Qualquer moça ia ficar com medo. Se o senhor quer casar com minha filha, vai ter que arrancar os dentes e cortar as garras.

O leão apaixonado foi correndo fazer o que o outro tinha mandado; depois voltou a casa do pai da moça e repetiu o seu pedido de casamento. Mas o lenhador, que já não sentia medo daquele leão manso e desarmado, pegou um pau e tocou o leão para fora de sua casa.

Moral: Quem perde a cabeça por amor sempre acaba mal.”

quarta-feira, 9 de março de 2022

Professor passou prova para estudantes muito espertos...

Três estudantes resolveram não fazer uma prova porque não estudaram. Eles elaboraram um plano: sujaram-se com graxa, óleo e gasolina e foram ao professor:

- Professor, pedimos desculpas. Não pudemos fazer a prova, pois estávamos em um casamento e no caminho de volta o carro quebrou, por isso estamos tão sujos, como pode ver.

O professor entendeu e deu-lhes três dias para se prepararem. Após os três dias, eles foram muito bem preparados porque, desta vez, tinham estudado.

O professor colocou-os em uma sala, afastados, sem poder se comunicar, e aplicou a prova que tinha apenas quatro perguntas:

1. Quem casou com quem?

2. A que horas o carro quebrou?

3. Em que local exatamente o carro quebrou?

4. Qual é a marca do carro?

* OBS: Se as respostas forem idênticas, estarão todos aprovados.

Boa Sorte!

Ser honesto significa escolher não mentir, roubar, enganar ou trapacear de forma nenhuma. Quando somos honestos, desenvolvemos a força de caráter. A honestidade não é para poucos, mas para todos.

(Reprodução da internet, sem autoria.)

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Black (Artur Azevedo)

BLACK
Artur Azevedo

     Leandrinho, o moço mais elegante e mais peralta do bairro de São Cristóvão, frequentava a casa do Senhor Martins, que era casado com a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro.
     Mas, por uma singularidade notável, tão notável que a vizinhança logo notou, Leandrinho só ia à casa do Senhor Martins quando o Senhor Martins não estava em casa.
     Esperava que ele saísse e tomasse o bonde que o transportava à cidade, quase à porta da sua repartição; entrava no corredor com a petulância do guerreiro em terreno conquistado, e Dona Candinha (assim se chamava a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro) introduzia-o na sala de visitas, e de lá passavam ambos para a alcova, onde os esperava o tálamo aviltado pelos seus amores ignóbeis.
     A aventura de Leandrinho tinha um único senão: havia na casa um cãozinho de raça, um bull-terrier, chamado Black, que latia desesperadamente sempre que farejava a presença daquele estranho.
     Dir-se-ia que o inteligente animal compreendia tudo e daquele modo exprimia a indignação que tamanha patifaria lhe causava.
     Entretanto, o inconveniente, foi remediado. A poder de carícias e pães-de-ló, a pouco e pouco logrou o afortunado Leandrinho captar a simpatia de Black, e este, afinal, vinha aos pulos recebe-lo à porta da rua, e acompanhava-o no corredor, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.
     As mulheres viciosas e apaixonadas comprazem-se na aproximação do perigo; por isso, Dona Candinha desejava ardentemente que Leandrinho travasse relações de amizade com o Senhor Martins.
     Tudo se combinou, e uma bela noite os dois amantes se encontraram, como por acaso, num sarau do Clube Familiar da Cancela. Depois de dançar com ele uma valsa e duas polcas, ela teve o desplante de apresenta-lo ao marido.
     Sucedeu o que invariavelmente sucede. A manifestação da simpatia do Senhor Martins não se demorou tanto como a de Black: foi fulminante.
     Os maridos são por via de regra menos desconfiados que os bull-terriers.
     O pobre homem nunca tivera diante de si cavalheiro tão simpático, tão bem-educado, tão insinuante. Ao terminar o sarau, pareciam dois velhos amigos.
     À saída do clube, Leandrinho deu o braço a Dona Candinha, e, como “também morava para aqueles lados”, acompanhou o casal até a rua do Pau-Ferro.
     Separaram-se à porta de casa.
     O marido insistiu muito para que o outro aparecesse. Teria o maior prazer em receber a sua visita. Jantaram às cinco. Aos domingos um pouco mais cedo, pois nesses dias a cozinheira ia passear.
     ─ Hei de aparecer ─ prometeu Leandrinho.
     ─ Olhe, venha quarta-feira ─ disse o Senhor Martins. ─ Minha mulher faz anos nesse dia. Mata-se um peru e há mais alguns amigos à mesa, poucos, muitos poucos, e de nenhuma cerimônia. Venha. Dar-nos à muito prazer.
     ─ Não faltarei ─ protestou Leandrinho.
     E despediu-se.
     ─ É muito simpático ─ observou o Senhor Martins metendo a chave no trinco.
     ─ É ─ murmurou secamente Dona Candinha.
     Lack, que os farejava, esperava-os lá dentro, no corredor, grunhindo, arranhando a porta, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.
     Na quarta-feira aprazada Leandrinho embonecou-se todo e foi à casa do Senhor Martins, levando consigo um soberbo ramo de violetas.
     O dono da casa, que estava na sala de visitas com alguns amigos, encaminhou-se para ele de braços abertos, e dispunha-se a apresenta-lo às pessoas presentes, quando Black veio a correr lá de dentro, e começou a fazer muitas festas ao recém-chegado, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.
     O Senhor Martins, que conhecia o cão e sabia-o incapaz de tanta familiaridade com pessoas estranhas, teve uma ideia sinistra, e como os dois amantes enfiassem, a situação ficou para ele perfeitamente esclarecida.
     Não se descreve o escândalo produzido pela inocente indiscrição de Black. Basta dizer que, a despeito da intervenção dos parentes e amigos ali reunidos, Dona Candinha e Leandrinho foram postos na rua a pontapés valentemente aplicados.
     O Senhor Martins, que não tinha filhos, a princípio sofreu muito, mas afinal habituou-se à solidão.
     Nem era esta assim tão grande, pois, todas as vezes que ele entrava em casa, vinha recebe-lo o seu bom amigo, o indiscreto Black, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.
"Contos escolhidos", Artur Azevedo, São Paulo, editora Click, 1997, 159 páginas (Coleção Livros O Globo, vol. 15).

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O que significa orégano

O que significa orégano – Crônica de Luis Fernando Verissimo
2013

Você eu não sei, mas eu estou preocupadíssimo com a revelação de que os americanos têm monitorado tudo que é dito e escrito no Brasil nos últimos anos. Ouvem nossos telefonemas, leem nossos e-mails e, provavelmente, examinem o nosso lixo, atrás de indícios da nossa periculosidade. O que me preocupa é que essa informação, depois de coletada e classificada, é analisada talvez pelas mesmas pessoas que nunca duvidaram que o Saddam Hussein tivesse armas de destruição em massa e nunca estranharam que os sequestradores daqueles aviões que derrubaram as torres, no onze de nove, não se interessassem pelas aulas de aterrissagem nos seus cursos de aviação. Quer dizer, que garantia nós temos que não se enganarão de novo, e verão ameaças à segurança americana nas nossas comunicações mais inocentes? Um simples telefonema entre namorados (“desliga você”, “não, desliga você”) pode ser interpretado como parte de um plano para sabotar centrais elétricas. Um pedido para troca de bujão de gás, uma evidente referência cifrada à explosão da Casa Branca. O fato é que tenho tentado recapitular todos os meus telefonemas e e-mails nos últimos anos, com medo de que um deles, mal interpretado, acabe provocando minha aniquilação por um drone.

Ou então me vejo chegando aos Estados Unidos, sendo barrado por um agente da imigração e levado para uma sala sem janelas, onde sou cercado por outros agentes, provavelmente da CIA, que me pedem explicações sobre um telefonema, obviamente em código, que fiz antes de viajar. Reconheço minha voz na gravação.

– O que quer dizer “à calabresa”, Mr. Verissimo? – pergunta um dos agentes.

Estou confuso. Não consigo pensar. Calabresa, calabresa…

– Alguma referência à máfia? Uma ligação da organização terrorista à qual o senhor evidentemente pertence, como a camorra, visando a um atentado aqui nos Estados Unidos? O senhor veio se encontrar com a máfia americana para acertar os detalhes do complô. É isso, Mr. Verissimo?

– Não, não. Eu…

– Notamos que, mais de uma vez na gravação, o senhor diz “sem orégano, sem orégano”. Deduzimos que há uma divergência dentro do complô entre vocês e a máfia, uns a favor de se usar “orégano” no atentado, outros contra. O que, exatamente, significa “orégano”?

Finalmente, me dou conta.

– Orégano significa orégano. Eu estava pedindo uma…

– Por favor, não faça pouco da nossa inteligência, Mr.Verissimo. Não gastamos milhões de dólares para ouvir que orégano significa orégano.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

"O homem e a cobra" (Monteiro Lobato)

Certo homem de bom coração encontrou na estrada uma cobra entanguida de frio.
– Coitadinha! Se fica por aqui ao relento, morre gelada.
Tomou-a nas mãos, conchegou-a ao peito e trouxe-a para casa. Lá a pôs perto do fogão.
– Fica-te por aqui em paz até que volte do serviço à noite. Dar-te-ei então um ratinho para a ceia. E saiu.
De noite, ao regressar, veio pelo caminho imaginando as festas que lhe faria a cobra.
– Coitadinha! Vai agradecer-me tanto…
Agradecer, nada! A cobra, já desentorpecida, recebeu-o de linguinha de fora e bote armado, em atitude tão ameaçadora que o homem enfurecido exclamou:
– Ah, é assim? É assim que pagas o benefício que te fiz? Pois espera, minha ingrata, que já te curo…
E deu cabo dela com uma paulada.
Moral:
Fazei o bem, mas olhe a quem.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

"A carteira" (Machado de Assis)

Conto publicado em 1884, no jornal “A Estação”, do Rio de Janeiro.

A Carteira

Machado de Assis

DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:

-- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.

-- É verdade, concordou Honório envergonhado.

Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.

-- Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.

-- Agora vou, mentiu o Honório.

A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, cm que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.

D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.

Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.

-- Nada, nada.

Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.

A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua. da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.

Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, -- enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.

Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos milréis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.

Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do acha- do, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.

"Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar- me do dinheiro," pensou ele.

Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.

A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.

"Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer."

Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.

-- Nada.

-- Nada?

-- Por quê?

-- Mete a mão no bolso; não te falta nada?

-- Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso. Sabes se alguém a achou? -- Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.

Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.

-- Mas conheceste-a?

-- Não; achei os teus bilhetes de visita.

Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.

(Créditos: domínio público.gov.br)

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Toc, toc, toc, toc...

TOC, TOC, TOC, TOC...
Artur Azevedo

     O Borges não a tinha visto nunca senão à janela da casa paterna: só lhe conhecia o busto, e não era preciso mais nada para encantá-lo, porque na verdade ela possuía o palmo da cara mais simpático e ao mesmo tempo mais lindo que era possível imaginar.
      Chamava-se Idalina, e era filha natural de um vidraceiro estabelecido na loja do prédio em que ambos moravam. Não iam a parte alguma.
      Havia uma circunstância, uma só, que contrariava o Borges; a mãe da pequena tinha sido mulher da vida alegre; dera em público toda a espécie de escândalos, e fora, afinal, assassinada, durante uma pândega, por um dos seus inúmeros e sucessivos amantes. É verdade que Idalina desde a mais tenra idade fora subtraída ao contato dessa mulher, e nunca mais a viu: mas o Borges preferia, naturalmente, que ela fosse filha de outra mãe; entretanto, não se lhe dava de ligar o seu destino ao dela, tão forte era a simpatia que a moça lhe inspirava.
      A filha do vidraceiro parecia não ser indiferente ao afeto que se formara no coração de Borges; todas as vezes que ele passava, pela manhã ou à tarde, caminho da repartição ou caminho de casa, ela correspondia ao seu cumprimento respeitoso com um sorriso afável, que não era o sorriso de uma janeleira vulgar, e tinha alguma coisa de triste e de reservado.
      Estava o Borges impressionado ao último ponto, quando um feliz acaso lhe revelou que o Ventura, um dos seus melhores amigos, conhecia intimamente o pai e a filha. Ele, o Borges não sabia outra coisa senão a lamentável particularidade do nascimento de Idalina; soubera-o por casualidade, no bonde, ouvindo a conversa de dois passageiros que a viram à janela e a conheciam.
      O Ventura, quando o amigo pediu as desejadas informações, desfez-se em calorosos elogios.
      – É a criatura mais doce, mais bondosa que o céu cobre! É uma santa; uma verdadeira santa; mas, meu amigo... sim, infelizmente há um mas...
      O Borges adivinhou que o amigo se referia à mãe de Idalina, e atalhou:
      – Sei o que é, mas não importa... Coitada! Que culpa tem ela dessa desgraça?
      – Nenhuma culpa tem, mas dificilmente encontrará marido. Se fosse rica, não digo nada; há homens que por dinheiro fecham os olhos a tudo, mas o Lemos, o pai, não tem por onde se lhe pegue...
      – Pois fica sabendo que não se me dava de ser seu marido.
      – Tu?... Apesar de...?
      – Apesar de tudo!
      – Mas olha que não poderias levar tua mulher a parte alguma!
      – Por quê?
      – Seria ridículo!
      – Deixá-lo ser! Ela é boa, é digna, é honesta, não é?
      – Ah! Por esse lado, não conheço outra que mais o seja!
      – Neste caso, exijo de ti um grande serviço: rogo-te que vás ter com o pai e que a peças em meu nome.
      – Alto lá! Essas coisas não se fazem assim! Deves primeiramente consulta-la, e só depois de autorizado por ela, pedi-la ao pai, mas tu, pessoalmente, e não eu. O mais que posso fazer é apresentar-te ao velho.
      – Pois está dito!
      No mesmo dia o Borges encontrou meios e modos de fazer com que um bilhete seu chegasse às mãos de Idalina:
      “Minha senhora”, dizia esse bilhete, “eu chamo-me Laurindo Borges, sou de família honrada, tenho perto de trinta anos, exerço um emprego público, não tenho ligações nem compromissos de espécie alguma, e ganho o necessário para constituir família. Julgo que não lhe sou de todo indiferente; portanto, rogo-lhe a necessária autorização para pedi-la em casamento a seu pai. O obstáculo que de alguma forma se poderia opor a nossa união desaparece diante do amor profundo e da sincera estima que a senhora me inspirou.”
      A resposta não se fez esperar:
      “Uma vez que o sr. fecha os olhos a um obstáculo que parecia condenar-me ao celibato, e uma vez que, não sendo ingrata, retribuo largamente os sentimentos que despertei no seu coração, autorizo-o a pedir a minha mão a papai. Venha domingo, ao meio-dia: ele estará em casa, e prevenido por mim.”
      À vista desse bilhete, o Borges poderia apresentar-se sozinho, mas foi ter com o Ventura e pediu-lhe que o acompanhasse.
      No domingo aprazado, ao meio-dia em ponto, entravam ambos na sala do Lemos, que os recebeu de braços abertos.
      – Aqui tem – disse-lhe o Ventura – o meu amigo Laurindo Borges, que lhe vem fazer um pedido muito sério, e cá estou eu para aboná-lo.
      – Queiram sentar-se – disse o velho; e, depois de sentados os três, continuou: - Já sei do que se trata. Minha filha, que não tem segredos para mim, mostrou-me o bilhete do sr. Borges e o que dirigiu em resposta. Mas fiquei surpreso, surpreso e ao mesmo tempo jubiloso, quando vi que o senhor não considera um obstáculo a...
      – Não! – interrompeu o Borges. – E peço-lhe, sr. Lemos, que não me fale mais nisso. Dona Idalina possui qualidades morais que tudo compensam.
      – Então o amigo fecha os olhos àquele defeito?
      – Já lhe disse que sim.
      – Bom; nesse caso, vou chamá-la.
      – E erguendo a voz:
      – Idalina?
      – Papai? – respondeu lá de dentro uma voz argentina e sonora que soou aos ouvidos de Borges como um hino de amor.
      – Vem cá, minha filha!
      Não se ouviram passos, mas um toc, toc, toc, toc, que intrigou seriamente o namorado, e quando Idalina, radiante de beleza, entrou na sala, ele verificou, à primeira vista, que a moça tinha uma perna de pau!
      Foi tal o espanto do pobre rapaz, que todos adivinharam logo que ele ignorava aquela ausência de perna. Idalina caiu sentada numa cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, debulhada em pranto.
      – Pois o senhor não disse que conhecia o obstáculo? – perguntou o vidraceiro.
      – Eu referia-me à mãe de D. Idalina...
      – Ora, meu caro, isso jamais seria um obstáculo, porque ela é o contrário do que foi aquela infeliz mulher; é uma pérola, que saiu do lodo, como todas as pérolas.
      Mas o Borges estava dominado pela beleza de Idalina, e as lágrimas da moça acabaram de subjugá-lo. Ele ergue-se e, num generoso ímpeto de amor, correu para ela, ajoelhou-se aos seus pés – quero dizer: ao seu pé – tomou-lhe as mãos ambas, e beijou-as dizendo:
      – Que me importa que tenhas uma perna de pau, se tens um coração de ouro?
      – Ora, ainda bem! – exclamou o velho. – Case-se, e creia que leva uma mulher completa, apesar de lhe faltar uma perna!
      Casaram-se e foram muito felizes. O pai tinha razão.
      O Borges, para consolar-se do aleijão da esposa, muitas vezes dizia aos seus botões:
      – Idalina talvez não fosse tão boa, tão carinhosa, tão submissa, tão fiel, se tivesse ambas as pernas...
"Contos escolhidos", Artur Azevedo, São Paulo, editora Click, 1997, 159 páginas (Coleção Livros O Globo, vol. 15).

sábado, 27 de março de 2021

O revólver do senador

O REVÓLVER DO SENADOR
Fernando Sabino

O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça:
– Vovô, eu vou te matar.
Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as duas mãos o revólver apanhado na gaveta da cabeceira. Sempre tivera a arma ali ao seu alcance, para qualquer eventualidade, carregada e com uma bala na agulha. Nunca essa eventualidade se dera na longa sequência de riscos e tropeços que a política lhe proporcionara. No entanto, ali estava, agora, apanhado de surpresa, sob a mira de um revólver. O menino começou a rir de sua cara de espanto.
– Eu vou te matar – repetiu, dedinho já no gatilho.
O menor gesto precipitado e a arma dispararia.
Pensou em estender o braço e ao menos afastar o cano de sua testa, que já começava a porejar suor. Mas temeu o susto da criança, o dedo se contraindo no gatilho… Tentou falar e de seus lábios saíram apenas sons roufenhos e mal articulados.
– Não me mata não – gaguejou, afinal: – você é tão bonzinho…
– Pum! Pum! – e o demônio do menino sempre a rir, só fez dar um passo para trás; que o colocou fora de seu alcance. Agora estava perdido.
– Cuidado, tem bala… – deixou escapar, e a voz de novo lhe faltou. Toda uma vida que terminava ali, estupidamente nas mãos de uma criança – de que adiantara? Tudo aflição de espírito e esforço vão. Se alguém entrasse no quarto de repente, a mãe, a avó do menino… Que é isso, menino! Você mata seu avô! Com o susto… Senti o pijama já empapado de suor. Era preciso fazer alguma coisa, terminar logo com aquela agonia. Estendeu mansamente o braço trêmulo:
– Me dá isso aqui…
– Mãos ao alto! – berrou o menino, ameaçador, dando passo para trás, e as mãos pequeninas se firmaram ainda mais no cabo da arma. O Senador não teve outra coisa a fazer senão obedecer.
E assim se compôs o quadro grotesco: o velho com os braços erguidos, o guri a dominá-lo com o revólver. De repente, porém, o telefone tocou.
– Atende aí ­– pediu o Senador, num sopro.
Estava salvo: o menino tomou do fone, descobrindo brinquedo novo, e abaixou o revólver. O Senador aproveitou a trégua para apoderar-se da arma. Então pôs-se a tremer, descontrolado, enquanto retirava as balas com os dedos aflitos. O menino começou a chorar:
– Me dá! Me dá!
A mulher do senador vinha entrando:
– O que foi que você fez com ele? Está com uma cara esquisita… Que aconteceu?
– Acabo de nascer de novo – explicou simplesmente.