“Jantar Secreto”, Raphael Montes; sem local, Companhia das Letras, 2016, 360 páginas.
História pesada, teve um momento em que as descrições foram muito fortes em um matadouro clandestino, e eu precisei decidir se continuava ou não lendo. Apesar de eu não gostar muito do gênero de terror, eu cheguei até o final. Vou comentar sobre a leitura do livro, sem antecipar o que acontece para não estragar o prazer de quem quiser ler. São quatro jovens do interior do Paraná que vêm para o Rio de Janeiro, e que têm dificuldades de sustentar-se e pagar os seis meses atrasados de aluguel do apartamento que dividem em Copacabana. “Dante, o narrador, trabalha como vendedor numa livraria e cursa administração. Leitão, um hacker de humor escrachado, frequenta aulas de ciência da computação, mas prefere mesmo jogar vídeo game e comer pizza. Miguel, o certinho do grupo, estuda medicina. E Hugo é um aspirante a chef e dono de uma vaidade sem limites.”
Hugo deu a ideia de organizarem jantares no apartamento para um público seleto de dez pessoas, oferecendo o que seria uma “aventura gastronômica”. Leitão criou a página na internet, mas, por diversão, colocou que o cardápio seria à base de carne humana, cobrando seis vezes mais por pessoa. Para surpresa de todos, vários interessados pagaram e se inscreveram para o jantar, que faria com que eles conseguissem o dinheiro suficiente para pagar todas as dívidas dos quatro rapazes. Os clientes eram ricos, ávidos por uma aventura gastronômica exótica, com a carne humana como o ingrediente principal.
Depois de muito discutirem acabaram concordando em realizar um único jantar para poderem pagar as dívidas, tudo de forma sigilosa. Eles aproveitaram que Miguel era residente em um hospital público e poderia facilitar o roubo do corpo de um mendigo morto, e que Hugo tinha conhecimentos culinários. O que era para ser uma única experiência superou todas as expectativas, o que fez com que eles continuassem a organizar mais jantares. O sucesso atraiu o interesse de um poderoso empresário, que forçou, através de ameaças, entrar como sócio.
O “negócio” cresceu demais e fugiu do controle dos quatro rapazes, passando a ter uma estrutura empresarial, com o aluguel de uma enorme casa no Jardim Botânico; contratação de uma equipe diversificada, com garçons, ajudantes de cozinha, motoristas para pegarem os convidados, que eram levados à casa com os olhos vendados, seguranças, arrumadores e faxineiros. Nenhum deles sabia de quem era a carne humana que era servida. A procura cresceu, obrigando a passar a dois jantares na semana, depois três, com lista de espera. Os clientes eram pessoas de grande poder aquisitivo: médicos, artistas, advogados, empresários e políticos. A culinária especializou-se.
Aos poucos, o novo sócio passou a tomar as decisões sozinho, desviando os corpos a serem usados para os jantares de um crematório da sua família. Mais tarde, Dante descobriu que o sócio passou a sequestrar pessoas em blitz policiais, falsas entrevistas de emprego e encontros marcados em aplicativos de relacionamento. As pessoas eram “engordadas” em jaulas de um galpão em um local isolado, um matadouro, e, mais tarde, eram levadas para o abate. Os doentes eram executados e tinham os seus órgãos vendidos no mercado negro. O negócio cresceu tanto que foi expandido para outras cidades: São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Brasília. Foi nesta passagem do livro que eu precisei decidir se parava ou continuava a leitura. Muito sinistro! Mas eu fui até o final.
Os demais jovens continuaram participando porque não tinham conhecimento de todos os crimes que eram praticados e ficaram animados com todo o dinheiro que recebiam, estavam enriquecendo. Dante tentou sair do esquema, mas o sócio disse-lhe que do negócio só se saia morto e aqueles que podiam ameaçá-lo eram silenciados. O jovem sabia que, se denunciasse toda a operação ilegal colocaria em risco sua vida, mas precisava fazer alguma coisa para acabar com aqueles jantares macabros.
(Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr


























































