
A Ilha Fiscal fica na icônica Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Desde o período colonial, o local era chamado pelos portugueses de Ilha dos Ratos, dizem que, possivelmente, pela aparência da formação rochosa ou pela grande quantidade desses animais. No final do século 19, D. Pedro II decidiu pela construção de um posto alfandegário, para atender a solicitação do conselheiro José Antônio Saraiva, do Ministério da Fazenda, que reivindicava a instalação do órgão na ilha para o controle das cargas das importações e exportações pelo porto da cidade, aproveitando a sua localização. O projeto escolhido pelo imperador foi o do então engenheiro-diretor de obras do Ministério da Fazenda, Adolpho José Del Vecchio, e a primeira pedra do edifício foi assentada em 6 de novembro de 1881. A inauguração do posto, chamado popularmente de “castelinho”, ocorreu em 27 de abril de 1889, com a presença de D. Pedro II e sua família, ministros e várias autoridades. A partir de então, o local passou a ser conhecido como Ilha Fiscal.
O palacete tem estilo neogótico; a torre central era o observatório do posto, com um relógio de quatro faces, produzido na Alemanha, para facilitar sua visualização de diferentes pontos; e a área da ilha é de 7.000 m². Mas o local entrou para a História por ter sido lá realizada, alguns meses após a sua inauguração, a última festa da Corte brasileira, em 9 de novembro de 1889, em que se homenagearam os oficiais do navio chileno ‘Almirante Cochrane’, em visita ao Rio, e com a intenção de mostrar a força do regime. Foi uma festa luxuosa e muito dispendiosa, com duas bandas para executar as músicas, muita comida e bebida à vontade (tudo do bom e do melhor), um gerador para garantir a iluminação do local e a presença do imperador e sua família, ministros, parlamentares, magistrados, diplomatas estrangeiros e vários convidados ilustres. Estima-se que estiveram presentes 500 dos 2.000 a 4.000 convidados, transportados em barcas para a Ilha Fiscal.
Dentro do palacete, pode-se ver uma reprodução, em tamanho reduzido, do quadro “A ilusão do Terceiro Reinado”, também conhecido como “O último baile da Ilha Fiscal”, do pintor paraibano Aurélio de Figueiredo, irmão do também pintor Pedro Américo. O original foi pintado em 1905, pertence ao Museu Histórico Nacional e você pode ver na minha postagem sobre esse museu, em ‘Minhas Fotos’. Além de retratar os presentes, como, claro, D. Pedro II, a imperatriz D. Teresa, a princesa Isabel e o marido, o conde D’Eu, Aurélio de Figueiredo tomou a liberdade de incluir algumas licenças artísticas em seu quadro. O artista pintou algumas pessoas que não estiveram presentes no baile, a começar por ele, sua esposa e filhas; o irmão, Pedro Américo; e os escritores Machado de Assis e Aluísio Azevedo. Colocou no canto esquerdo do quadro, caminhando nas nuvens, a figura feminina da República, seguida por marechal Deodoro da Fonseca a cavalo, justamente quem iria liderar a proclamação da República (foto 9). À direita, a princesa Isabel aparece sendo coroada pelo papa, em um Terceiro Reinado que nunca veio a acontecer (foto 10).
Ironicamente, o imperador nunca foi de gastar com festas e cerimônias, muito pelo contrário, era até criticado por muitos pela sua austeridade (vejam só!). D. Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina chegaram por volta das 21 horas. O monarca estava desgastado, com aspecto doente, e, ao descer da galeota D. João VI, que o levara à ilha, tropeçou e teria dito “a monarquia tropeça, mas não cai”. Apenas seis dias depois, foi proclamada a República no Brasil, D. Pedro II foi afastado do comando do país e, mais tarde, obrigado a exilar-se com a família, primeiro em Portugal e, depois, na França. Enquanto, os monarquistas festejavam, os republicanos estavam planejando o golpe. A festa ficou conhecida como o “último baile do império”.
Os vitrais do palacete foram confeccionados na Inglaterra, coloridos a fogo e têm brasões imperiais contornando os das imagens de D. Pedro II (foto 13) e da princesa Isabel (foto 14). As paredes da fachada do palacete têm a cor verde-jade por ser a cor símbolo da Casa de Bragança, à qual pertence a família imperial brasileira. No passeio, pode-se ver também a galeota D. João VI, a embarcação mais antiga preservada no Brasil; construída e presenteada a D. João VI em 1818, ano em que ele foi coroado rei. A galeota era movida a remos e utilizada para transportar a família imperial pela Baía da Guanabara, como, por exemplo, durante o baile de 9 de novembro. Está em um pavilhão de vidro, que não é aberto para o público.
A administração da Ilha Fiscal foi transferida pelo Ministério da Fazenda para a Marinha em 1913, em troca do navio a vapor Andrada. Nos anos seguintes, o local foi ocupado para diversas finalidades, como Repartição Hidrográfica, Superintendência de Navegação e Diretoria de Hidrografia e Navegação, por exemplo. Em 1930, foi construída uma ligação à Ilha das Cobras (veja a imagem aérea, abaixo) e, desde 1999, a Ilha Fiscal está aberta à visitação. Recentemente, eu fiz o passeio à Ilha Fiscal novamente. As visitas guiadas são pagas (inteira R$ 60,00 e meia R$ 30,00) e saem do Espaço Cultural da Marinha, na Avenida Alfredo Agache s/nº, na Praça Quinze de Novembro, em ônibus ou na escuna Nogueira da Gama.
Após o passeio pela Ilha Fiscal, o ingresso dá, também, o direito a visitar os veículos militares expostos no Espaço Cultural da Marinha: a Nau dos Descobrimentos, o helicóptero anfíbio SH3, carros de combate, um caça e o submarino Riachuelo. O local pode ser alugado para festas de aniversários e casamentos; de acordo com o que eu pesquisei o custo do aluguel gira em torno de 60 a 80 mil reais. A Ilha Fiscal foi tombada pelo INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural) e pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade da prefeitura do Rio de Janeiro, em 1990. Eu indico o passeio, pela beleza do lugar e por sua importância histórica! Fontes utilizadas: https://www.marinha.mil.br/dphdm/ilha-fiscal, ttps://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=adolpho-jose-del-vecchio, Wikipédia e informações dos quadros no local. fr
















































