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terça-feira, 14 de abril de 2026

Prefeitura desapropria imóvel abandonado onde Carmen Miranda e sua família moraram no Arco do Teles de 1925 a 1931

A casa onde Carmen Miranda e sua família moraram na Travessa do Comércio nº 13, no Arco do Teles, durante os anos de 1925 a 1931, foi desapropriada pela prefeitura do Rio de Janeiro, através do decreto nº 57868, publicado, hoje, dia 14, no Diário Oficial da cidade. Abandonada há muitos anos pelos seus proprietários, a casa somente tem a fachada porque o seu interior e o telhado praticamente já não existem mais, ainda assim com as janelas quebradas e as paredes desmanchando. Eu venho escrevendo a esse respeito no meu blog, inclusive com fotos mostrando a situação de abandono. Junto com a casa que foi de Carmen Miranda, foi desapropriada, também, a de nº 19, também totalmente abandonada. Os dois imóveis têm em comum terem sido usados pelos proprietários como restaurantes há muitos anos, eu almocei várias vezes nos dois. O decreto justifica a desapropriação com o princípio da função social da propriedade, e os declara de utilidade e interesse públicos para “fins de renovação urbana: “considerando o interesse público na requalificação da área central da cidade, mediante reativação econômica, estímulo à moradia, valorização da ambiência urbana e preservação da memória histórica e cultural”. Estive hoje lá e tirei as fotos abaixo; os dois imóveis estão praticamente ocos, praticamente sem telhados, e com tapumes para protegê-los de invasões e mais desapropriação. Triste retrato do abandono e descaso das autoridades e das pessoas em geral com a história da nossa cidade e do nosso país! fr    

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Foto histórica da família de Carmen Miranda

Foto histórica reunindo a família da brasileiríssima Carmen Miranda, enviada pela mãe em 1930 para a avó materna da cantora, que morava na pequena cidade de Marco de Canaveses, no distrito do Porto, em Portugal. Carmen Miranda veio para o Rio de Janeiro com apenas dez meses e oito meses, nunca retornou a Portugal e sempre disse considerar-se carioca! Da esquerda para a direita; acima: Olinda e Aurora (irmãs), Carmen Miranda, Cecília e Amaro (irmãos); abaixo: Oscar (irmão), Maria Emília de Barros Miranda (mãe) e José Maria Pinto da Cunha (pai). fr

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Casa onde morou Carmen Miranda no Arco do Teles continua desabando aos poucos...

        Na semana passada, eu escrevi sobre o abandono da casa onde Carmen Miranda e sua família moraram no Arco do Teles, no Centro do Rio de Janeiro. Parte do telhado da casa desabou no dia 25 de junho; e na madrugada desta segunda-feira, dia 15 de julho, mais um pedaço do telhado desabou, conforme fotos abaixo (lado a lado). Felizmente, não houve feridos. Como eu comentei anteriormente, aos poucos a casa está desabando, desaparecendo, e com ela, parte da nossa História.
        A casa faz parte do conjunto tombado pelo Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico). De acordo com o que eu li na imprensa, o imóvel pertenceu à Santa Casa da Misericórdia até 2011, quando foi comprado pela Arilucas, uma empresa da área imobiliária, por um milhão de reais. Após o primeiro desabamento, no mês passado, o Iphan emitiu um auto de infração à empresa proprietária por conta da falta de manutenção, notificando-a para tomar medidas para recuperar os riscos estruturais.
        A empresa tem um prazo de quinze dias para apresentar a sua defesa, prazo este que começa a contar do dia do recebimento do auto de infração, enviados pelos Correios (que coisa!). Não havendo resposta, poderá ser emitida uma multa e instaurada uma ação pública. O Iphan manifestou-se, informando que a responsabilidade da manutenção da casa de Carmen Miranda é do proprietário:
        "O Instituto enfatiza que a conservação dos bens tombados é de responsabilidade de seus proprietários. Cabe ao detentor do prédio fazer as propostas de restauração, que precisam ser analisadas e aprovadas pela equipe técnica da autarquia. Dentro de suas competências, o Iphan realiza medidas de orientação aos proprietários e vistorias constantes nos edifícios tombados, para evitar ações que possam descaracterizar as edificações, bem como verificar o estado de conservação dos imóveis".
        Acontece que o proprietário da casa de Carmen Miranda, de acordo com informações divulgadas na imprensa, está devendo 260 mil reais de IPTU atrasado. Ou seja, é um amontoado de problemas que não são resolvidos, enquanto isso a casa vai desabando!
fr

Dia 25/6 (à esquerda) e 15/7 (à direita). Foto: Sérgio Castro Imóveis.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Casa onde morou Carmen Miranda está desabando aos poucos, desta vez foi o telhado, e com ele parte da História do nosso país está desaparecendo


Eu já escrevi várias vezes sobre a casa de nº 13 em que Carmen Miranda e sua família moraram na Travessa do Comércio, no Arco do Teles, no Rio de Janeiro, e o seu péssimo estado de conservação. O que era de conhecimento de todo mundo, inclusive, claro, da prefeitura e dos órgãos responsáveis pela fiscalização. E o que era mais do que previsível aconteceu. No dia 25 de junho, o telhado da casa desabou, expondo parte considerável do segundo andar mas, felizmente, ninguém ficou ferido. Como sempre, depois de acontecer a desgraça, as autoridades estiveram no local, colocaram aquelas faixas amarelas de “interdição” da Defesa Civil, que eu vi já caídas no chão quando estive lá no dia 2 deste mês e fiz as fotos que estão nesta postagem. A foto do telhado é do jornal Diário do Rio, que tem a sua sede no Arco do Teles. O Centro do Rio de Janeiro tem vários imóveis antigos caindo aos pedaços, e de tempos em tempos um deles desaba, e com ele desaparece uma parte da História da cidade. E é a realidade da maioria dos imóveis no histórico Arco do Teles, por onde eu passo de vez em quando, apenas porque eu gosto de andar pelo Centro do Rio, uma região de grande importância histórica. Em outubro do ano passado, o segundo andar no imóvel de número 19 desabou. Na casa onde morou a família da Carmen Miranda, a mãe tinha um pequeno restaurante, e Carmen chegou a ajudar a servir mesas. Aproveitava e cantava para alegrar os clientes. Depois de um tempo, a família mudou de endereço e a casa passou a ser residência de outras pessoas. Há uns dez, quinze anos, mais ou menos, a casa passou a ser um restaurante no primeiro andar e eu almocei lá várias vezes, até para conhecer um pouco da residência onde a artista morou. Curiosidade de jornalista e de quem ama História. Infelizmente, tudo indica que nada vai mudar e os prédios antigos da região vão permanecer abandonados, vamos torcer para que ninguém seja ferido em um possível e previsível futuro desabamento.
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Carmen e a irmã, Aurora Miranda, em frente à casa onde a família morou de 1925 até metade de 1931.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Carmen Miranda nasceu há 115 anos, e viveu com orgulho de ser brasileira: "Eu gosto da minha terra"


Há 115 anos, Carmen Miranda nascia. Nasceu em Portugal, em 9 de fevereiro de 1909, apenas porque sua mãe preferiu aguardar o seu nascimento para viajar para o Rio de Janeiro, onde já estavam o seu marido e o seu irmão. Carmen Miranda chegou ao Rio com apenas dez meses e oito dias, nunca mais pôs os pés em Portugal e sempre fez questão de afirmar considerar-se 100% brasileira. Como na música “Eu gosto da minha terra”, de 1930, em que a artista afirma ter orgulho em se dizer brasileira. Carmen queria viver sempre em seu país, mas fez tanto sucesso que foi para os Estados Unidos, onde passou os últimos anos de sua vida, trabalhando muito. Ela morreu aos 46 anos em 5 de agosto de 1955, mas teve os seus restos mortais trazidos para o Rio de Janeiro, onde estão no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Parabéns a Carmen Miranda, 100% brasileira! fr
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"Eu gosto da minha terra"

Deste Brasil tão formoso, eu filha sou, vivo feliz
Tenho orgulho da raça, da gente pura do meu país
Sou brasileira, reparem no meu olhar que ele diz
E o meu sambar denuncia, que eu filha sou desse pais!

Sou brasileira, tenho feitiço
Gosto do samba, nasci pra isso
O foxtrot, não se compara
Com o nosso samba que é coisa rara
Eu sei dizer, como ninguém,
Toda beleza que o samba tem
Sou brasileira, vivo feliz
Gosto das coisas do meu país

Eu gosto da minha terra, e quero sempre viver aqui
Ver o Cruzeiro tão lindo, no céu da terra onde eu nasci
Lá fora descompassado, o samba perde o valor
Que eu fique na minha terra, permita Deus, nosso senhor!

Composição:
Randoval Montenegro

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Carmen Miranda imortalizou a música "Mamãe eu quero"


A atriz e cantora brasileira Carmen Miranda fez enorme sucesso internacional de 1939 a 1955, chegando a ser a artista mulher mais bem remunerada nos Estados Unidos. A marchinha “Mamãe eu quero” foi composta por Vicente Paiva e Jararaca para o Carnaval de 1937 e foi gravada por cantores como Silvio Caldas e Pixinguinga. Mas foi na interpretação de Carmen Miranda que a música ganhou repercussão mundial, sendo lembrada até hoje. Carmen cantou “Mamãe eu quero” no filme estadunidense ”Serenata Tropical” (“Down Argentine Way”), de 1940. Posteriormente, vários artistas interpretaram ou dublaram a música, como Bing Crosby, Mickey Rooney, Jerry Lewis e Lucille Ball, entre outros. E a música apareceu, também, em um episódio do desenho clássico de Tom & Jerry. Carmen Miranda apenas nasceu em Portugal porque sua mãe preferiu aguardar o seu nascimento para viajar para o Rio de Janeiro, onde já estavam o seu marido e o seu irmão. Mas Carmen chegou ao Rio com apenas dez meses e oito dias, nunca mais pôs os pés em Portugal e sempre fez questão de afirmar considerar-se 100% brasileira. fr

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Mais um imóvel desaba no Centro do Rio de Janeiro!


Eu passei, ontem, na Travessa do Comércio, no Centro do Rio de Janeiro, para ver como ficou o imóvel de número 19, que teve o segundo andar de sua construção desabado no dia 8 deste mês. Vejam as fotos que eu fiz. Na mesma Travessa do Comércio, no número 13, bem próximo à casa parcialmente destruída, está a casa onde Carmen Miranda morou com a sua família de 1925 a 1931. O local tem poucos imóveis, a maioria em estado de abandono, com janelas quebradas, infiltrações e plantas crescendo nas paredes, e eu já comentei no meu blog sobre esta situação. O que aconteceu no dia 8 não espanta ninguém, e vai continuar acontecendo com outras casas. Felizmente, ninguém se machucou desta vez, até por ter acontecido em um domingo, mas pode ser que em uma próxima aconteça uma tragédia. O imóvel de número 21, que fica à direita, também foi atingido. Ele foi um restaurante durante anos, eu cheguei a frequentá-lo por muito tempo, já que é próximo ao meu trabalho, mas fechou durante a pandemia da Covid-2019. E se o desabamento tivesse acontecido em um dia de semana e com o restaurante do lado funcionando? Há vários outros imóveis naquela região e em outras no Rio de Janeiro, que representam uma séria ameaça às pessoas devido ao seu péssimo estado de conservação, principalmente no Centro da cidade. É uma vergonha que os proprietários não sejam obrigados a cuidar dos imóveis e os deixem abandonados, literalmente caindo aos pedaços. Além da ameaça à segurança das pessoas, é a destruição de parte da História do Rio de Janeiro e do Brasil, já que esses imóveis são do século 19. Estão esperando alguém ficar gravemente ferido ou morrer para fazer alguma coisa? fr 

sábado, 7 de outubro de 2023

Museu Carmen Miranda - I

        Carmen Miranda é a artista brasileira feminina de maior reconhecimento internacional. Começou a sua carreira como cantora em 1929, cantando no rádio, e logo despontou para o sucesso gravando vários discos, fazendo shows, e participando de filmes no cinema. Em 1939, foi contratada para se apresentar e atuar nos Estados Unidos, onde chegou a ser a artista feminina que mais faturava naquele país e, provavelmente, no mundo, e foi homenageada com uma estrela na Calçada da Fama em Hollywood.
        Maria do Carmo Miranda da Cunha, a Carmen Miranda, nasceu no dia 9 de fevereiro de 1909 na pequena cidade de Marco de Canaveses, no distrito do Porto, em Portugal. Mas logo depois a sua mãe veio para o Rio de Janeiro encontrar-se com o marido trazendo a filha mais velha do casal, Olinda, de dois anos, e Carmen, com apenas dez meses e oito dias, ou seja, ela não tinha nem um ano de idade quando chegou ao Brasil.
       Apesar de alguns tentarem fazer com que Carmen Miranda seja considerada portuguesa, somente pelo fato de ela ter nascido lá, o que realmente importa é como ela se sentia em relação a isso, já que ela sempre disse considerar-se 100% brasileira, e nunca chegou a ir a Portugal:
      “Sou brasileira porque aqui me encontro desde a idade de um ano e nesta terra me eduquei e fiz minha carreira artística. É ao povo brasileiro, aos meus patrícios, que devo todo este incentivo, todo este aplauso, todas estas homenagens. E não há sequer uma entrevista minha, em qualquer órgão de imprensa, em que eu não tivesse sempre reafirmado, categoricamente, este meu amor, este meu carinho, esta minha admiração pelo Brasil!”
        Carmen Miranda faleceu no dia 5 de agosto de 1955, em sua casa em Beverly Hills, em Los Angeles, vítima de um ataque cardíaco, aos 46 anos. O seu corpo foi trazido para o Rio de Janeiro, e, em seu enterro, foi conduzido por um carro do Corpo dos Bombeiros e acompanhado por uma multidão estimada em 500 mil pessoas até o Cemitério São João Batista, onde foi sepultado.
      No ano seguinte ao falecimento de Carmen Miranda, foi criado o museu em sua homenagem, no Parque do Flamengo, em frente à Avenida Rui Barbosa, através do decreto nº 886, assinado por Negrão de Lima, então prefeito do Rio de Janeiro, à época Distrito Federal. Mas o museu somente foi inaugurado VINTE ANOS depois, em 5 de agosto de 1976.
        O prédio tem a forma circular e é um projeto do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, que veio a falecer em 1964, por isso a sua conclusão ficou sob responsabilidade do arquiteto Ulysses Burlamaqui. A administração do museu está sob responsabilidade do Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e mais especificamente da Funarj (Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro).
       O Museu Carmen Miranda esteve fechado à visitação desde 2013, sob a alegada justificativa de que o seu acervo, de mais de três mil itens, seria transferido para as novas instalações do Museu de Imagem e do Som, em Copacabana. E parte dele, 454 peças, seria restaurado. Mas não houve a transferência de acervo, nem houve, até o momento, a inauguração da nova sede do MIS. Somente em 4 de agosto deste ano, 2023!, o Museu Carmen Miranda foi reaberto à visitação, com a exposição “Viva Carmen”, de curadoria do jornalista e biógrafo Ruy Castro e de sua esposa, Heloisa Seixas.
        Evidentemente, a manutenção e eventual restauração dos museus e de seus acervos sempre é bem-vinda, mas levar DEZ ANOS com um museu fechado é demais! É um enorme desrespeito à memória da artista, um desrespeito à cultura nacional e um descaso com a administração pública. Será que não se poderia mantê-lo aberto à visitação com a parte do acervo que não foi restaurada? Não podia ter feito a restauração em etapas? O que não faz sentido é manter um museu fechado por DEZ ANOS!
        Como eu gosto de ler sobre a História e também sobre biografias, eu já li a biografia de Ruy Castro sobre Carmen Miranda, da qual eu já comentei aqui no meu blog, e me interessei em conhecer o museu. O Museu Carmen Miranda é muito pequeno, com um corredor circular, poucas salas para a área administrativo e um pátio interno. A sua proposta é não ser apenas um espaço de exposições, mas, também, organizar atividades culturais, como apresentações artísticas, palestras e oficinas. Ao entrar no museu, o visitante é orientado a seguir no sentido anti-horário.
       O acervo do museu tem mais de três mil itens, entre eles diversos documentos, como a certidão de nascimento de Carmen e uma menção honrosa que o governo dos Estados Unidos lhe deu pelos seus serviços durante a Segunda Guerra Mundial. A coleção tem, ainda, cerca de 1.400 fotografias que pertenceram à artista; partituras; roteiros de filmes, com suas anotações; troféus; discos; cinco mil recortes de jornais e revistas; vestidos e sapatos que ela usou em filmes, shows e outras apresentações; além de objetos pessoais. A maioria dos itens foram doados pela irmã da artista, Aurora Miranda, e pelo viúvo, o estadunidense David Sebastian. Devido ao espaço muito reduzido, apenas uma pequena parte do acervo consegue ficar em exposição no museu, sendo renovada periodicamente. Fonte principal que eu usei para pesquisa: Wikipédia. fr  

Museu Carmen Miranda - II

sábado, 18 de março de 2023

A casa onde morou Carmen Miranda e sua família está abandonada no Centro do Rio

O Rio de Janeiro ainda tem muitas residências antigas, do século 19, principalmente no Centro da cidade, que precisam ser preservadas pela sua relevância arquitetônica e histórica. Ontem, eu passei pelo Arco do Teles. Algumas das casas da Travessa do Comércio estão sendo reformadas, mas não justamente a que foi residência de Carmen Miranda e de sua família de 1925 a 1931. Eu cheguei a frequentar essa casa há uns anos, quando ela era utilizada como restaurante, assim como fazia a mãe de Carmen, dona Maria Emilia. Mas, já tem um bom tempo ela está totalmente abandonada, como se pode perceber pelas fotos que eu fiz, abaixo. Janelas quebradas, plantas crescendo nas paredes e infiltrações. A casa está à venda ou para alugar. Muito triste ver um pedaço da História do Rio e do nosso país sendo destruído pouco a pouco pelo descaso das autoridades que deveriam cuidar melhor do que sobrou do nosso passado. fr

domingo, 4 de setembro de 2022

Carmen Miranda é a única artista brasileira homenageada na Calçada da Fama de Hollywood

A cantora Carmen Miranda é a única artista brasileira a colocar as suas mãos e pés na Calçada da Fama do Grauman’s Chinese Theatre de Hollywood, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Foi em uma cerimônia realizada no dia 24 de março de 1941. Em 1960, a artista também foi homenageada com uma estrela na Calçada da Fama, localizada bem próximo, no Hollywood Boulevard. Carmen ainda recebeu outra homenagem em Los Angeles: em 1998, passou a ser o nome de uma rua. Carmen Miranda nasceu em 9 de fevereiro de 1909 no Porto, em Portugal, mas veio para o Brasil com a sua mãe e Olinda, a irmã mais velha, quando tinha meses de vida. A cantora sempre se orgulhou de ser brasileira, e nunca chegou a visitar Portugal.  fr

Carmen Miranda colocando as mãos na Calçada da Fama do Chinese Theatre, em Los Angeles (1941)

domingo, 12 de junho de 2022

Rara entrevista de Carmen Miranda (1955)

Esta é uma rara entrevista disponível de Carmen Miranda, concedida pela artista em agosto de 1953, nos Estados Unidos, ao jornalista brasileiro Adolfo Cruz, para a Rádio Nacional. Carmen Miranda fez enorme sucesso nos Estados Unidos durante as décadas de 1940 e 50, chegando a ser a artista que mais impostos pagava naquele país. E sempre fazia questão de afirmar se considerar 100% brasileira, apesar de ter nascido em Portugal. Carmen chegou ao Rio de Janeiro com menos de um ano de idade, trazida pela mãe, Maria Emília, e com a irmã mais velha, Olinda, de três anos, para se juntarem ao pai, José Maria Pinto, que veio na frente. E nunca retornou a Portugal. Carmen Miranda faleceu em sua residência na Califórnia, no dia 5 de agosto de 1955, aos 46 anos, vítima de um ataque cardíaco. fr

sábado, 14 de setembro de 2019

Dica de livro: "Carmen: uma biografia" (primeira parte)


Carmen: Uma Biografia”, Ruy Castro, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, 597 p.

Eu li o livro por curiosidade sobre a artista que sempre fez questão de se dizer brasileira, e que chegou a ser a mais famosa e bem remunerada nos Estados Unidos nos anos 1940 e 1950. Escrevo nestas postagens um pouco do que li, e se os leitores do meu blog se interessarem, fica a minha dica para a leitura do livro. Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9 de fevereiro de 1909, portanto, este ano completou-se 110 anos de seu nascimento. 
Ela nasceu em Várzea de Ovelha, aldeia de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canavezes, distrito do Porto, província da Beira Alta, no Norte de Portugal. A família morava de favor em um sobrado de pedra bem pobre, que tinha o térreo e mais um andar, com chão de terra batida e sem água e sem luz. 
Por muito pouco, Carmen não nasceu no Brasil. Olinda, a primeira filha de seus pais, nasceu em 8 de dezembro de 1907, cerca de dois meses antes do assassinato do rei de Portugal, Dom Carlos I. O casal resolveu sair do país para fugir da instabilidade política, e decidiu vir para o Brasil no segundo semestre do ano seguinte. A mãe, Maria Emilia, no entanto, engravidou de Carmen, o que adiou a viagem para algum tempo depois de seu nascimento.  
O apelido “Carmen”, que viria a se tornar anos mais tarde o seu nome artístico, surgiu através do tio materno, Amaro. Ele dizia que a sobrinha era “morena como uma espanhola” e fez uma associação com a personagem de ópera “Carmen”, de Bizet. A partir de então, todos só a chamaram assim. O pai de Carmen, José Maria Pinto da Cunha, à época com 22 anos, e o tio Amaro foram para o Porto, e de lá vieram para o Rio de Janeiro em setembro de 1909, em um navio de carga. Com eles, quase cem outros portugueses vieram de forma legal, além de outros tantos clandestinos abarrotando a terceira classe. 
À época, centenas de pessoas saíram de Portugal em busca de uma vida melhor no Brasil. No Rio, havia aproximadamente 200 mil portugueses, o que representava algo em torno de 20% da população da cidade. José Maria contou com a ajuda de um conterrâneo, que o ajudou a se instalar e o apresentou a outro português, também de Marco de Canavezes. 
Ele passou a trabalhar em sua barbearia, na esquina da atual Av. Rio Branco com a Rua Mayrink Veiga. Entrou como sócio minoritário, participando com o trabalho. A sociedade durou dois anos, quando, a partir de então, José Maria abriu um salão com o cunhado na Rua da Misericórdia nº 70. A mãe, Maria Emilia de Barros Miranda, ficou em Portugal com Carmen e a filha mais velha, Olinda, de dois anos e nove meses. 
O plano de José Maria e Amaro era vir para o Rio de Janeiro trabalhar como barbeiros. Pretendiam trazer a família quando tivessem condições financeiras, o que ocorreu dois meses depois. Carmen chegou ao Rio em 17 de dezembro de 1909, com apenas dez meses e oito dias, com a mãe e a irmã. Elas também vieram em um navio de carga. A mãe passou a trabalhar como lavadeira, para ajudar o marido. 
        O pai de Carmen era austero em casa, mas mulherengo fora dela. E a mãe tinha conhecimento de suas amantes, inclusive a madrinha de uma de suas filhas, Cecilia, foi uma das primeiras. José Maria chegou a se separar para viver com uma delas, retornando depois para casa. Maria Emilia, por sua vez, acreditava que era necessário se conformar, aceitando como algo com que as mulheres deveriam lidar no casamento. 
O casal teve seis filhos: Olinda; Carmen; Mario (“Amaro” “Mocotó”), o primeiro a nascer no Brasil; Cecilia; Aurora e Oscar (“Tatá”). Após o registro de seu xará, o tio Amaro decidiu retornar à Europa, indo para a Inglaterra, e “nunca mais deu notícias”. Dos irmãos, Cecilia, Oscar e Aurora seguiram os passos de Carmen na carreira artística, mas foi Aurora quem conseguiu seguir mais adiante. Ela participou, inclusive, do filme de Walt Disney, “Você já foi à Bahia?” (“The Three Caballeros”), contracenando com os personagens Pato Donald e Zé Carioca. 
Mario foi atleta do remo do Vasco da Gama, chegando a representar o Brasil nas Olimpíadas de 1932, em Los Angeles. A delegação brasileira teve enormes dificuldades financeiras para viajar, chegou atrasada. Mario não conseguiu conquistar nenhuma medalha; assim como nenhum outro atleta brasileiro. Esta acabou sendo a pior participação do país em Olimpíadas. 
       Carmen demonstrou desinibição desde cedo, e falava muitos palavrões, por influência do pai. Ela gostava de cantar nos corais da Igreja e, depois, enquanto trabalhava. Carmen começou a trabalhar ainda menor de idade, no mesmo atelier que a irmã Olinda. Trabalhou também em outras lojas, como uma chapelaria, onde era vendedora de chapéus e gravatas. Aos 14 anos, Carmen abandonou a escola, após completar o ginásio, sendo de todos os filhos a que recebeu uma instrução razoável.   
Quando moraram em uma casa na Travessa do Comércio nº 13, no Arco do Telles, Centro do Rio, a mãe abriu uma pensão em que servia almoços para os trabalhadores. Carmen cantava enquanto ajudava atendendo as mesas. Eu cheguei a almoçar algumas vezes nesse local há alguns anos, evidentemente administrado por outras pessoas. Há algum tempo o imóvel encontra-se fechado, e nem o quadro que fazia referência à cantora está mais lá (pode-se vê-lo em uma das minhas fotos, abaixo). Carmen e sua família moraram neste endereço de 1925 até metade de 1931.  
E foi justamente um dos frequentadores da pensão da mãe, o baiano Anibal Duarte de Oliveira, “vagamente jornalista”, que se encantou com ela. Ele a indicou para um show beneficente em janeiro de 1929, no Instituto Nacional de Música. O violonista e compositor Josué de Barros a ensaiou para a apresentação, e passou a considerá-la sua descoberta, sendo o seu primeiro orientador profissional. Este show foi sua primeira apresentação para uma plateia. A partir daí, Josué de Barros passou a apresentá-la a amigos e a levá-la para se apresentar em programas de rádio, sempre com o consentimento dos pais. 
No mesmo ano, Josué a levou para a gravadora Brunswick, onde Carmen gravou o seu primeiro disco, mas este demorou a ser lançado. Os dois procuraram, então, a gravadora Victor. Em janeiro de 1930, os discos das duas gravadoras foram lançados praticamente juntos no Rio de Janeiro. O da Brunswick não teve grande repercussão, por conta do despreparo da gravadora, mas o da Victor alcançou grande sucesso. 
À época, os discos eram simples, de 78 rpm, com uma única música em cada lado. Era o início de uma carreira de muito sucesso e dinheiro, e de uma rotina de muito trabalho, era o início da artista Carmen Miranda. À medida que recebia seus pagamentos, Carmen foi melhorando a vida de sua família. Ela contratou uma cozinheira para que a mãe não tivesse mais que trabalhar na cozinha de sua pensão. E montou um grande salão na Rua Primeiro de Março nº 95 para o pai, além de comprar um telefone e uma mobília nova para o quarto dos pais. 
Carmen Miranda passou a se apresentar nos teatros de revistas. Em poucos meses, já era uma estrela, com vários discos gravados, e constantes apresentações semanais nas rádios e teatros, passando, também, a ser contratada para fazer propagandas. Carmen já não gravava mais músicas de Josué de Barros, passara a gravar de compositores como Ary Barroso, André Filho, Lamartine Babo, Ismael Silva e Noel Rosa.  
            Em 1932, enfim, conseguiu entrar no mundo do cinema, uma paixão desde criança, quando chegou a se inscrever em um concurso de calouros cinematográficos. A primeira aparição de Carmen Miranda no cinema foi cantando “Bamboleô” no documentário sonoro “O Carnaval cantado de 1932”. Assim como outros, este filme acabou desaparecendo, com a destruição de suas cópias ao longo do tempo. 
        O jovem locutor Cesar Ladeira criou na Rádio Mayrink Veiga o sloganA pequena notável” para Carmen. O “pequena” era sinônimo de garota na época, não era referência aos seus 1.52 de altura. No ano seguinte, ela passou a se apresentar constantemente, e com muito sucesso, em Buenos Aires, onde era chamada de “Carmencita”, inclusive com a irmã, Aurora, também cantora. No final da década de 1930, Carmen apresentava-se nos três Cassinos que existiam no Rio de Janeiro: Copacabana Palace, Cassino da Urca e o Cassino Atlântico.   
E se apresentou com os maiores nomes da música brasileira à época: Francisco Alves, Sylvio Caldas, Carlos Galhardo, Almirante, Dircinha Batista, Orlando Silva, Aracy de Almeida, e sua irmã, claro, Aurora Miranda. O pai de Carmen Miranda morreu em 1938, aos 52 anos, de nefrite aguda e insuficiência cardíaca. Carmen e Aurora não puderam ir ao enterro porque estavam cantando na Argentina. 
            Carmen Miranda iniciou sua carreira internacional em 1939, quando assinou contrato com uma gravadora estadunidense para gravar três discos, ou seja, seis músicas. Foi o início de sua vida nos Estados Unidos, de muito sucesso e de uma rotina estafante. Ela foi contratada para ser uma das atrações de “Streets of Paris”, um espetáculo musical que se apresentou em Boston e Nova Iorque durante meses. Entre os outros artistas contratados, havia uma nova dupla de cômicos, que faria enorme sucesso anos depois: Abbott & Costello. 
Ela levou para acompanhá-la o grupo “Bando da Lua”. Carmen se apresentava também em outras casas e ainda fez o filme “Serenata Tropical” no início de 1940. O esforço fez com que emagrecesse, e desmaiasse em um dia de filmagens. Foi nesta época que passou a tomar medicamentos: estimulantes para ter energia para aguentar os compromissos, e também soníferos para conseguir dormir. 
Carmen Miranda chegou a ser a artista estrangeira e a mulher que mais ganhava dinheiro em todos os Estados Unidos. Muito do que ganhava ia para empresários, outra parte para o Imposto de Renda. Assim como muitos outros artistas nos Estados Unidos, ela não declarava tudo o que recebia como pagamento, bens materiais como carros e joias, por exemplo. E também não guardava recibos de suas despesas. 
Ela chegou a ser multada pelo Leão naquele país, em 1940. Não sabia lidar com os seus lucros, não guardava o dinheiro em bancos, e sim em casa, nem o investia em aplicações. E gastava muito em presentes para os familiares e amigos. Fazia muitos shows, participações em rádio e televisão, gravações de filmes. 
Carmen retornou ao Brasil e ao Rio de Janeiro em julho de 1940, com a intenção de tirar férias e descansar. Mas não conseguiu recusar participar de uma apresentação beneficente no Cassino da Urca, a pedido da esposa do presidente Getúlio Vargas, dona Darcy Vargas. A plateia era composta em grande parte por funcionários do governo, um público diferente do seu, que era bem mais popular. A recepção foi fria e indiferente. Reclamavam que ela teria voltado distanciada das coisas do Brasil. Em função disso, meses depois Carmen gravou ainda no Brasil a música “Disseram que Voltei Americanizada", em resposta. Em outubro, voltou para Nova Iorque, levando a mãe para morar com ela. fr (Continua na postagem abaixo.)

Dica de livro: "Carmen: uma biografia" (parte final)

        Carmen Miranda tinha em seus primeiros filmes nos Estados Unidos um “diretor de diálogos”, um brasileiro radicado em Los Angeles. Ele a ensinava a falar os diálogos em um inglês pela sua sonoridade, explicando o sentido para que ela pudesse fazer a interpretação adequada. Carmen falava e cantava muito rápido, o que foi chamado de “português-locomotiva” pelo “New York Herald”. O público nos Estados Unidos gostava disso, não se importando em que idioma ela se comunicava, nem se não entendiam.
         Ela era visto mais como uma comediante de cinema do que propriamente uma cantora. Assim, mesmo anos depois, quando Carmen já falava bem o inglês, os empresários faziam com que ela continuasse a falar errado e com sotaque. Era uma de suas marcas como artista, assim como os turbantes, os sapatos plataformas e as roupas.
 Em 1941, Carmen Miranda colocou as mãos, pés e assinatura no quadrado de cimento do Chinese Theatre, em Hollywood. Apesar de todo o sucesso que conseguiu nos Estados Unidos, Carmen nunca quis se naturalizar estadunidense, mesmo tendo recebido pedidos dos produtores de cinema para que o fizesse.
          Carmen quase morreu em 1943, após ter feito uma cirurgia plástica no nariz nas mãos de um médico charlatão de Los Angeles. Houve uma posterior infecção no fígado por conta da cirurgia, e ela chegou a ser desenganada pelos médicos. Mas, conseguiu se recuperar. Carmen sempre quis se casar e ter filhos, mas os homens por quem se apaixonou não tinham o mesmo desejo.
        E foi assim que ela se casou em 17 de março de 1947, com Dave Sebastian, assistente do produtor do filme “Copacabana”, uma comédia musical que fez com Groucho Marx no ano anterior. O casamento foi conturbado. Segundo o livro, Dave Sebastian usava o dinheiro de Carmen Miranda para proveito próprio, e ele não se dava bem com as irmãs dela. Dave administrava a carreira da artista, recebendo 15% dos valores, e não o fazia com competência. 
Nos anos seguintes, Carmen Miranda passou também a beber. E precisava cada vez mais de seus remédios para poder cumprir sua rotina de trabalho, e justamente por causa deles dormia demais. Ela tinha que recorrer cada vez mais às anfetaminas (estimulantes) para trabalhar. “Era um círculo vicioso, em que a alternativa era dormir muito ou não dormir nada.” 
Envelhecia antes do tempo, ficou inchada, sua saúde foi sendo comprometida, dependente dos remédios e da bebida. Pequenas abstinências geravam “insegurança, ansiedade, hipersensibilidade, choro fácil, boca seca, falta de fôlego, irritabilidade e sentimento de culpa”. Em situações mais sérias, sentia “tremores violentos, dores no corpo, paranoias, ranger de dentes” e convulsões. Em agosto de 1948, Carmen engravidou, um desejo antigo seu. Se fosse menino, ele se chamaria Roberto, e se fosse menina, Maria Carmen. 
“Menino ou menina, seria o produto de um desejo tão antigo que se poderia dizer de décadas. E Carmen via ali, quem sabe, sua última chance de ser mãe. Esse fora o principal motivo para o casamento com Sebastian, e ela já estava aflita pelo fato de, um ano e meio depois, não haver nem suspeita de cegonha no horizonte.” 
No final do mês seguinte, porém, ela sofreu um aborto espontâneo em Nova Iorque, e foi informada pelos médicos que não poderia mais engravidar. Carmen nunca teve o filho que sempre desejou ter. Depois disso, não havia mais sentido manter um casamento infeliz, mas o marido não quis consentir no divórcio. O casal deixou de morar no mesmo quarto, mas Dave Sebastian continuou na casa de Carmen. 
Ela poderia ter convencido Dave a aceitar o divórcio oferecendo um vantajoso acordo, mas havia outros dois motivos para impedi-lo. A mãe de Carmen Miranda, Maria Emilia, católica fervorosa, era totalmente contra a filha se divorciar; “e os padres da igreja do Bom Pastor”, que também não o aceitavam. Permaneceram em uma convivência difícil, em que Carmen o tratava muitas vezes com desprezo, mas, também, pelo menos nos primeiros anos, em algumas vezes permitia que ele frequentasse o seu quarto. 
       A colombiana Estela Girolami era a empregada de Carmen em sua casa, desde 1951, e a acompanhava como camareira nos shows e nas viagens. Segundo ela, a artista alternava sentimentos: 
“Estava sempre rindo e fazendo rir na presença dos outros. Mas ficava triste e muda assim que as visitas iam embora”. 
Em 1953, Carmen Miranda chegou a ser submetida a um tratamento à base de eletrochoques em um hospital em Palm Springs, na Califórnia. Era um procedimento bastante primitivo, em que o paciente não recebia anestesia ou relaxante muscular, e nem tinha acompanhamento cardíaco. 
Carmen foi amarrada à mesa, “com uma cunha de borracha na boca, para impedi-la de decepar a língua com os dentes” e recebia uma corrente elétrica pelo encéfalo. Era uma cena horrível. Ela chegou a perder a consciência, ter uma convulsão e até mesmo uma parada cardíaca. Após o tratamento, Carmen dormia até o fim da tarde e acordava relaxada, mas ausente, sem lembrar o que ocorrera. Foram cinco sessões em pouco mais de um mês. 
        Em 1954, ela viajou para o Rio de Janeiro para se tratar. Chegou no dia 3 de dezembro. Recebeu acompanhamento do médico do então presidente Café Filho, que recomendou que ela ficasse isolada em uma suíte no Copacabana Palace, sem sair ou receber visitas, com exceção da irmã, Aurora. Foram 48 dias no hotel, passando a maior parte do tempo do dia dormindo, à base de uma dieta especial, com o objetivo de livrá-la da dependência dos remédios. Satisfeito com a melhora, o médico permitiu que ela voltasse a sair com os amigos. 
No Carnaval de 1955, Carmen foi levada para o Hotel Quitandinha, em Petrópolis, por oferecimento do seu proprietário, onde foram reservados dois quartos. Uma suíte presidencial para Carmen, e outro quarto para o casal dono do hotel. Aurora descobriu que Carmen conseguiu ter acesso a bebidas, pedindo à cantora Marlene que levasse uísque para ela; e encontrou também tranquilizantes em sua bolsa. 
Ao retornar para o Rio, o médico ainda julgou necessário mais um tempo de retiro, e Carmen foi para o Haras Guanabara, próximo a Bananal, em São Paulo. Carmen Miranda e a mãe retornaram para os Estados Unidos no dia 4 de abril de 1955. Era a última vez que ela esteve no Brasil com vida. 
Em 1955, Carmen Miranda estava presa aos medicamentos. Precisava tomar alguns para dormir, e outros para acordar. Após retornar de Cuba, onde se apresentou, Carmen gravou, em agosto, uma participação no programa de televisão “The Jimmy Durante Show”. No ensaio, três dias antes da gravação, Carmen comentou com o apresentador que estava muito cansada. 
Após o programa e dois compromissos sociais que teria no dia seguinte, ela pretendia descansar, em férias. No dia 4, durante a gravação, ela quase caiu, e precisou segurar-se em Jimmy Durante. Ela se recuperou rápido, e ainda comentou: “Fiquei sem fôlego!”. Assista ao vídeo no meu blog. 
     Ao voltar para sua casa, em Beverly Hills, Carmen ainda recebeu alguns convidados, além da mãe, o marido e o Bando da Lua. Ela ficou conversando sobre sua viagem a Cuba e o programa na TV, e até cantou algumas músicas. À meia-noite, o marido foi dormir; em seguida sua mãe; e, em seguida, aos poucos, os demais. Somente por volta das duas e meia da manhã do dia 5 de agosto, Carmen se despediu e foi dormir, ainda deixando algumas pessoas conversando. No quarto, trocou de roupa, e foi para o banheiro retirar a maquiagem. 
      “Na volta, no pequeno hall entre o banheiro e o quarto, onde ficava sua coleção de perfumes, o ar lhe fugiu de novo, as pernas lhe faltaram, e Carmen caiu pela última vez – ali mesmo, com um espelho na mão. Uma oclusão das coronárias fizera explodir uma vasta área de seu coração – um infarto maciço. (...) Seus amigos, os que ficaram até depois das três, divertiam-se inocentemente enquanto ela morria sozinha em seu quarto”. 
      Somente às onze horas da manhã, a morte de Carmen foi descoberta. Foi Dave Sebastian, o marido, que a encontrou caída no chão do hall de seu quarto. Uma semana depois, Carmen Miranda retornava, definitivamente, para o seu país, o Brasil, mais especificamente o Rio de Janeiro. Morreu com apenas 46 anos. O velório foi na Câmara dos Vereadores, e uma multidão foi se despedir da ‘pequena notável’. Não houve autópsia, devido à religião do marido, judeu, que não a autorizou. Ela foi enterrada no dia 13 de agosto, no cemitério São João Batista, em Botafogo.   
“Num dos carros do cortejo, estava o marido, Dave Sebastian. Finalmente ele viera ao Brasil com Carmen. Para Sebastian, valera a pena suportar todas as humilhações. Carmen se recusara a deixar testamento e, com a morte dela, ele ficaria com as casas de Beverly Hills e Palm Springs, os poços de petróleo (tudo isso adquirido por Carmen antes do casamento – fora, portanto, da comunhão de bens), as ações, os depósitos bancários e o dinheiro vivo. À família e ‘ao Brasil’, Sebastian doou os vestidos, fantasias, turbantes, plataformas, balangandãs, adereços de palco, fotos, partituras, objetos pessoais e farta bijuteria de Carmen – tomando o cuidado de conservar as jóias verdadeiras, que estavam a salvo nos bancos. Enfim, conservou os valores e livrou-se do bricabraque. A família de Carmen nunca contestou tal divisão e ainda se deu por feliz por Sebastian não ter cumprido a ameaça de tentar apossar-se das propriedades no Rio: a casa na Urca, o terreno em Jacarepaguá e as salas na Avenida Presidente Vargas (o prédio de apartamentos no Catete já não existia mais). 
         Mas o que para Sebastian era bricabraque, para os adoradores de Carmen era um tesouro. Tão generosa quanto Carmen, a família levaria as décadas seguintes presenteando os fãs da estrela com seus objetos pessoais. Com o que se conservou da artista foi feito o Museu Carmen Miranda, no Rio.” 
         No Brasil, Carmen participou de seis filmes. Durante os 16 anos em que viveu nos Estados Unidos, Carmen Miranda fez 14 filmes. O primeiro, de 1940, foi “Serenata Tropical”, em que ela aparece apenas cantando. O livro informa que “Entre a loura e a morena”, de 1943, “é considerado, quase por unanimidade, o melhor filme de Carmen”. O seu último trabalho no cinema dos Estados Unidos foi o filme “Morrendo de Medo”, em 1952, da dupla Dean Martin e Jerry Lewis; que eu assisti no Telecine Cult. Carmen Miranda não se considerava uma atriz, porque nunca aprendeu a representar; considerava-se uma “entertainer”. 
Após ler o livro, fiquei interessado em conhecer o Museu Carmen Miranda, mas o acervo estaria passando por uma restauração por parte da secretaria estadual do Rio de janeiro, e ele está fechado para o público desde 2013. Existe a previsão de que o acervo seja transferido para a futura sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), que deverá ser inaugurada em Copacabana (não se sabe quando...). 
Eu entrei em contato, por email, com o Museu, que me respondeu que somente estão atendendo pesquisadores que apresentarem o seu projeto para aprovação. São seis anos de museu fechado, para mim é muito tempo! É uma pena, porque eu gostaria de poder fazer uma visita ao museu, e mostrar minhas fotos aqui, no meu blog. 
Eu pesquisei na internet e acrescento algumas informações sobre o museu. Em 1956, foi oficialmente criado o Museu Carmen Miranda, no Parque do Flamengo, por meio do decreto nº 886, assinado pelo então governador do Distrito Federal, Negrão de Lima. No ano seguinte foi organizada a primeira exposição póstuma, na Praça do Congresso, pelo presidente Juscelino Kubitschek. A inauguração do museu, no entanto, somente veio ocorrer em 1976. 
O museu guarda uma extensa coleção de objetos relacionados à cantora, que ultrapassa os 3.500 itens. São objetos pessoais, como vestidos, sapatos e acessórios; documentos, fotografias, partituras, roteiros de seus filmes nos Estados Unidos, troféus, matérias em jornais e revistas, entre outros. Entre esses itens, estão a saia usada por Carmen Miranda em sua estreia na Broadway; a roupa que usou em sua última apresentação pública, no programa Jimmy Durante, no dia anterior à sua morte; o turbante que usou em seu casamento; e a própria certidão de casamento.  
        No Rio de Janeiro, há uma rua com o nome da artista, no bairro de Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, onde também teria um busto seu, feito pelo artista Mateus Fernandes. Ele foi inaugurado em novembro de 1960 no Largo da Carioca, mas desde 1979 passou a ficar no Jardim Guanabara. Não sei qual a razão para a mudança, porque não li nenhuma ligação da artista com aquele bairro. Somente o fato da rua ter o seu nome. Estátua em homenagem a Carmen Miranda não tem, apesar de já ter havido um abaixo assinado de seus admirados pedindo uma.  
            Fica a minha dica para quem se interessar pela leitura. fr