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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Neste Natal, e no ano todo, resista ao consumismo!: "Eu, etiqueta" (Carlos Drummond de Andrade)

EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade 

Em minha calça está grudado um nome
Que não é o meu de batismo ou de cartório
Um nome estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente.
Meu copo, minha xícara.
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante e sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas.
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandálias de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais.
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
De vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarificados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De não ser eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu novo nome é Coisa
Eu sou a Coisa, coisamente.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

"Cadeira de Balanço", Carlos Drummond de Andrade

“Cadeira de Balanço”, Carlos Drummond de Andrade; Coleção Sagarana, volume 23, 13ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981, 158 páginas.
Este livro foi lançado em 1966 e reúne diversas crônicas e contos de Carlos Drummond de Andrade, que alterou os títulos de algumas delas, já publicadas anteriormente, para republicá-las nesta obra. Eu destaco dois. “A abobrinha”, em que uma passageira só tinha uma nota de 1000 cruzeiros, conhecida à época por “abobrinha” pela sua coloração, dificultando o troco no ônibus. E “É verdade?”, na qual um ex-governador dá uma entrevista e fala abertamente que contratou os seus protegidos quando na administração:
“ – Não foi excessivo o número de nomeações?
- E eu tenho culpa de minha família ser grande? Não é de lei o amparo a famílias numerosas? Aliás, não foi só a família, não. Nomeei também amigos necessitados de meus parentes necessitados. Comigo é assim: nada de privilégios.” fr

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Coleção 'Mestres da Literatura Contemporânea'

Com a leitura do livro “Gabriela, cravo e canela”, de Jorge Amado, concluí toda a Coleção ‘Mestres da Literatura Contemporânea’, que eu iniciei em maio, com “Dona Flor e seus dois maridos”, do mesmo autor. Foram seis meses lendo os 20 números que eu tenho da coleção, que continuou com outros títulos, pelo menos até o nº 100. Dos livros que eu li, eu destaco dois, os que eu gostei mais: nº 11, “Agosto”, de Rubem Fonseca, e o nº 20, “Gabriela, cravo e canela”. Segue a relação:


Volume 1 – “Dona Flor e seus dois maridos” – Jorge Amado
Volume 2 – “A insustentável leveza do ser” – Milan Kundera
Volume 3 – “Cem anos de solidão” – Gabriel García Márquez
Volume 4 – “O nome da rosa” – Umberto Eco
Volume 5 – “Memórias de Adriano” – Marguerite Yourcenar
Volume 6 – “Infância” – Graciliano Ramos
Volume 7 – “O perfume” – Patrick Suskind
Volume 8 – “O sorriso do lagarto” – João Ubaldo Ribeiro
Volume 9 – “Sagarana” – João Guimarães Rosa
Volume 10 – “O amante” – Marguerite Duras
Volume 11 – “Agosto” – Rubem Fonseca
Volume 12 – “Eva Luna” – Isabel Allende
Volume 13 – “O evangelho segundo Jesus Cristo” – José Saramago
Volume 14 – “Como água para chocolate” – Laura Esquivel
Volume 15 – “Batismo de fogo” – Mario Vargas Llosa
Volume 16 – “O estrangeiro” – Albert Camus
Volume 17 – “Amar se aprende amando” – Carlos Drummond de Andrade
Volume 18 – “Todos os fogos o fogo” – Júlio Cortazar
Volume 19 – “O lobo da estepe” – Herman Hesse
Volume 20 – “Gabriela cravo e canela” – Jorge Amado   
fr     

domingo, 31 de outubro de 2021

Leitura do livro: "Amar se aprende amando", Carlos Drummond de Andrade


Livro de poesias do escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), lançado em 1985. Teria sido muito útil se a ‘Coleção Mestres da Literatura Contemporânea’ tivesse inserido notas que contextualizassem os poemas, esclarecendo ao leitor quem é a pessoa homenageada e de que acontecimento o autor faz referência, por exemplo, já que foram escritos há muito tempo. Eu até gosto de poesia, mas prefiro a prosa, como crônicas e contos, os quais Drummond também escreveu. Hoje, dia 31 de outubro, faz 119 anos do nascimento do poeta. Fica o registro da minha leitura. fr

sábado, 7 de setembro de 2019

"O Observador no Escritório", Carlos Drummond de Andrade

“O Observador no escritório: páginas de diário”, Rio de Janeiro, Record, 1985, 200 páginas.

Este é um livro em que Drummond publica anotações que registrava, com frequência irregular, em seu diário. Foram assuntos pessoais, políticos e profissionais, de 1943 a 1977. A maioria são registros que representam sua visão sobre passagens de sua vida, sua rotina e, mesmo, acontecimentos da política. Mas, gostei de alguns que eu considero interessantes, e faço questão de reproduzir no meu blog, mantendo a ortografia da época. Drummond nasceu na cidade mineira de Itabira, em 31 de outubro de 1902, e faleceu, aos 84 anos, no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987, apenas 12 dias após a morte de sua filha, Maria Julieta. fr

. [Morte de Mário de Andrade] 26/02/1945: “Às 7:15 da manhã, pelo telefone, Rodrigo (M. F. de Andrade) dá-me a notícia: Mário de Andrade morreu ontem à noite em São Paulo, de angina pectoris. O enterro será hoje às 17 horas. Esta morte é estúpida, mais do que qualquer outra. Mário emergia de longa doença ou de um rosário de doenças: o obscuro câncer nunca operado (segundo diagnóstico sem confirmação), sinusite, amidalite, não-sei-o-quê no pé. Parecia mais forte, e durante o Congresso de Escritores era visto com amigos, bebendo sem restrições nos bares. Sua última carta para mim, datada de 11 deste mês, estava cheia de projetos de livros, além do projeto fundamental de viver o ano de 1945. Acabou-se.
            O dia todo passado em telefonemas para Queirós Lima (oficial de gabinete da Presidência da República), a pedido de Murilo Miranda, para ver se ele conseguia um avião da FAB em que Aníbal Machado, Guilherme Figueiredo, Moacir Werneck de Castro, Bruno Giorgi e o próprio Murilo pudessem chegar a São Paulo a tempo de comparecer ao enterro. O Ministério da Aeronáutica teria prometido o avião do Ministro, mas este estava em Petrópolis, e era necessária a sua autorização, que não veio ou veio tarde, pois só às 16 horas, e depois de mandar dizer que não arranjara nada. Queirós ofereceu o avião. A autorização teria sido dada às 13:30, mas só mais tarde chegara ao conhecimento de Queirós, já sem tempo de fazer a viagem e chegarem os amigos à casa da Rua Lopes Chaves. Todos mostram-se comovidos: Augusto Meyer, Osvaldo Alves, Abgar Renault, o maestro Mignone, Marques Rebelo, Paulo Armando. Este aperta-me ao peito, olha para a foto de Mário num vespertino e mostra-se ao mesmo tempo incrédulo e inconformado. Está sentido porque não recebeu nenhum aviso mais cedo. Luís Camilo me surpreende um pouco a dizer: ‘Morreu na véspera da libertação’, referindo-se ao desfecho político que se espera no país, e deixando de lado o fato em si, de perdermos alguém que representa alguma coisa além das circunstâncias.
           Vinícius de Morais trouxe ao dia uma nota estranha. Sonhara, da noite de ontem para hoje, que ia viajar de avião para São Paulo, mas que por um motivo qualquer não pôde seguir. Um grupo de amigos seus, entretanto, havia embarcado, e ele recebe a notícia: o avião caíra, todos mortos. É quando Tati, sua mulher, o acorda, contando-lhe a morte de Mário. Ele foi então à casa de Anibal, que o informa do projeto da ida de um grupo de amigos a São Paulo, para o enterro. O poeta quer dissuadi-los da viagem, em face do presságio. Rodrigo, a quem ele fala neste sentido, acha que, pelo sim pelo não, é bom avisar aos pretendentes à viagem. Se acontecer alguma coisa com o avião, sentiremos remorso por não ter contado. Murilo Miranda, porém, está disposto a seguir de qualquer jeito. Como não há mais tempo, Vinícius sente-se aliviado. Ninguém viaja.” pp. 22-23.
 
 
. 1º/4/1945: “(...) Saio com o casal [Samuel] Wainer para um chope no bar do Luxor Hotel. Samuel vai lançar Diretrizes como jornal, com o slogan ‘Um jornal que diz o que os outros não dizem’, e me quer para redator, com um artigo diário e, de vez em quando, fazendo entrevistas. Dois jornais, duas orientações distintas: o Correio [da Manhã] entre conservador e liberal, contra Getúlio; Diretrizes, com vocação para a esquerda. Como irei me equilibrar entre duas posições, mantendo-me igual a mim mesmo? Começo a avaliar as dificuldades do jornalismo de opinião subordinado a orientações alheias.” p. 30

. 10/4/1947: “À noite, visita-me o romancista de 25 anos, que já foi aviador e pára-quedista,e hoje é instrutor de pára-quedismo, estuda psiquiatria, pratica ilusionismo, grafologia, frenologia e palmestria. Já escreveu 15 livros, diz-se meu admirador e pergunta-me se já publiquei algum.” p. 67.

. 15/8/1947: “Sonho. Estou no sobrado de minha família, em Itabira. Madrugada, céu escuro. Silêncio total. Vejo sair da casinha em frente, perto da Câmara, uma negra vestida de azul, que com certeza acaba de passar a noite com um homem. Só então reparo que estou na sacada, de onde posso avaliar a largura da rua que, quando garoto, me parecia maior, em comparação com a que lhe achei na mocidade. Teria a rua ficado mais estreita, à proporção que eu me fazia homem? Não. Agora voltara a ser larga, em face da minha idade madura. A correlação entre a rua e minha idade apareceu-me então sob forma poética, e fiz imediatamente um poema de três versos: sobre a rua da infância, larga; a da mocidade, estreita; e a da madureza, larga outra vez. Poema que me agradou muito, pois revelava secreta ligação entre o ser e as coisas. Mas, poema em sonho, lá se foi com ele. Acordei sem lembrança dos versos.” p. 71.

. 3/01/1958: “Surge a primeira poetisa do ano. Usa de ardil para ser recebida: pelo telefone, pede orientação para um trabalho que tem de apresentar numa reunião de colégio. ‘Mas os colégios não estão em férias?’ pergunto. ‘No meu, o grêmio literário funciona independente do período de aulas.’ Vai à tarde na repartição e encontra-me conversando com Gastão Cruls, que lhe apresento. ‘Os seus livros são muito difíceis de ler’, diz a Gastão. Como este, surpreendido, lhe pergunta se já leu os seus contos ou algum romance, ela pede desculpas pelo engano, julgara-o sociólogo.’ Qual?’, o romancista quer saber. Ela se esquiva, pede novamente desculpas e muda de assunto.
            Tem 19 anos, é noiva, mas sofre de uma angústia especial, a angústia da poesia. Quer que eu lhe diga se deve continuar a fazer versos – a ‘sofrer esse sofrimento diferente dos outros’. Se há esperanças de realização pela poesia, no seu caso. Respondo-lhe que não sei nada, não posso aconselhar-lhe nada. Entrega-me poemas (‘olhe que não tenho cópia, hein?’) e virá busca-los na semana que vem. Claro que o grêmio do colégio não existe, nem mesmo o colégio – confessa.
            O diabo é que não se salva sequer um verso, na papelada dos ‘poemas’. O outro nome de poesia é ilusão.” p. 115.

. 7/9/1959: “Ontem, encontro casual com Austregésilo de Athayde, na Rua 1º de Março. Abraça-me, festivo, e entra logo no assunto: a trasladação dos despojos de Machado de Assis e Carolina para o mausoléu da Academia Brasileira. Assegura-me que não há qualquer declaração de acadêmico no sentido de promove-la. Respondo-lhe citando a entrevista de Elmano Cardim ao Jornal do Comércio. A idéia seria colocar um monumento a Machado em lugar de honra do mausoléu coletivo, e marcar a transferência dos despojos para 21 de junho de 1989, data do sesquicentenário do nascimento do escritor – diz-me Athayde. Daqui a 30 anos... Quem estiver vivo comparecerá. Certo? – pergunta ele, contando sem dúvida com a esperança fundada de eu não estar vivo até lá para impugnar, embora sem êxito, a absurda transferência. (Machado manifestou, em testamento, o desejo de ser sepultado no túmulo de Carolina, o que exclui, naturalmente, qualquer veleidade de transferência de local.)
            Despedimo-nos com risadas de paz, mas eu continuo disposto a topar esta briga pelo respeito à vontade final do nosso escritor máximo, ameaçada de anulação pela fútil vaidade acadêmica. Nem Machado é propriedade da instituição que fundou.” pp. 118-119.

. 8/11/1962: “Diálogo de atraso:
- Desculpe, se me fiz atrasar.
- Por quê? O pior é não ter a quem ou o que esperar.” p. 140.

. 25/4/1963: “Reflexão de Dolores [esposa Carlos Drummond de Andrade]:
- É uma grande coisa a gente, no fim da vida, ter dinheiro para comprar o de que precisa no dia-a-dia, como está acontecendo conosco.
            Encomendas avulsas de textos, e o dinheirinho certo da aposentadoria de funcionário e das crônicas no Correio da Manhã, se não autorizam fantasias, garantem, pelo menos, o cotidiano e certa paz.” p. 144.

. 23/6/1965: “Com boa disposição para o almoço na José Olympio, e excelente memória, [Manuel] Bandeira lembra que o filólogo Mário Barreto queria casar-se com sua irmã Maria Cândida, o ‘anjo moreno, violento e bom’ de que fala em um de seus poemas. Quando o pai comunicou à moça essa pretensão, ela e a mãe desandaram a rir, pois nada fazia crer que Mário alimentasse tal propósito. O Dr. Bandeira interpretou o riso de Maria Cândida como negativa e informou ao pretendente que seu pedido fora recusado. Ao contar em casa que transmitira a negativa, a irmã de Manuel protestou: ‘Mas eu não disse que não queria casar com ele. Ri, apenas. E iria pensar no assunto.’ Mas já era tarde. Mário Barreto casou-se com outra moça, linda, não foi feliz, e morreu atropelado por bicicleta.” p. 155.

. 16.11.1965: “Visita do jovem professor Daus e sua mulher. Casal alemão. O marido veio estudar poesia popular do Nordeste, do ponto de vista sociológico. Viajou pelo Brasil até o Amazonas, e dá testemunho da miséria em que vive o trabalhador do Nordeste e do Norte. Em Pernambuco, a paga diária é de cento e tantos cruzeiros; em certo município, 80% das terras pertencem a um só proprietário, e este não deixa cultivá-las. Simpático, falando um português razoável, conta que na Alemanha a geração que fez a guerra de 1939-1945 começa a vangloriar-se de tê-la feito. Os veteranos reúnem-se para celebrar a amizade que surgiu da luta comum, os rasgos heroicos da pátria... Não admitem a culpa nacional nem se arrependem do extermínio de alguns milhões de judeus.
            Na Alemanha Oriental, o diretor de uma fábrica de automóveis, parente do visitante, ao comparecer a um jantar numeroso, escondeu discretamente nos bolsos do paletó algumas bananas, para oferecê-las a seus filhos, em casa. Há homens que fogem do lado Oriental para o Ocidental e voltam àquele, repetindo várias vezes a operação, a fim de obter vantagens. E há mesmo empresas criadas para facilitar a movimentação clandestina de um a outro lado, que às vezes provoca a morte do viajante. Os maiores de 60 anos, aposentados, deslocam-se facilmente de zona, porque aos Governos das duas partes não interessa o pagamento de suas pensões.” pp. 155-156.

. 14.12.1968: [Sobre o AI-5, Ato Institucional nº 5, publicado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva] “Minhas mais antigas lembranças políticas, remontando à infância, giram em torno do quatriênio presidencial do Marechal Hermes [da Fonseca], em que o estado de sítio suspendeu as liberdades do cidadão, governadores de Estado foram depostos, jornalistas da Oposição presos, o navio Satélite despejando corpos no mar, a Bahia bombardeada. Quase 60 anos depois, o Governo de outro marechal [Costa e Silva] (e na minha velhice) golpeia a Constituição que ele mesmo mandou fazer e suprime, por um ‘ato institucional’, todos os direitos e garantias individuais e sociais. Recomeçam as prisões, a suspensão de jornais, a censura à imprensa. Assisto com tristeza à repetição do fenômeno político crônico da vida pública brasileira, depois de tantos anos em que a violência oficial, o desprezo às normas éticas e jurídicas se manifestaram de maneira contundente, em crises repetidas e nunca assimiladas como lição. Renuncio à esperança de ver o meu país funcionando sob um regime de legalidade e tolerância. Feliz Natal...” p. 164.


. 25.7.1971: “Aturdido, leio no jornal o artigo em que se analisa um de meus poemas à luz das novas teorias lítero-estruturalistas. Travo conhecimento com expressões deste gênero: ‘dinamismo dos eixos paradigmáticos’, ‘núcleo sêmico’, ‘invariante semântica horizontal’, ‘forma de referência parcializante e indireta’, ‘matriz barthesiana’... O poeminha, que me parecia simples, tornou-se sombriamente complicado, e me achei um monstro de trevas e confusão.” p. 174.

sábado, 14 de outubro de 2017

Reverência ao destino, de Carlos Drummond de Andrade


REVERÊNCIA AO DESTINO
Carlos Drummond de Andrade
 
Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
 
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
 
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.
 
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.
 
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.
 
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
 
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
 
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus". Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
 
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
 
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E aprender a dar valor somente a quem te ama.
 
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
 
Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
 
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.
 
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
 
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.
 
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
 
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.
 
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
 
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
 
(Poesia Completa, Nova Aguilar, 2002)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Casal picha estátua de Drummond


O que fazer com pessoas como essas? Um casal pichou a estátua de Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, à 1h20 de ontem, e teve a ação gravada por uma das câmeras da prefeitura. Até o momento, de acordo com a imprensa, esse casal de marginais ainda não foi identificado. Esses idiotas picham estátuas e outros monumentos e prédios públicos e depois a prefeitura tem que limpar, e quem paga a conta, claro, somos nós, que pagamos o dinheiro do custo da limpeza. Um absurdo. Eu pergunto apenas por que a prefeitura não acionou a polícia no momento em que esse casal de vagabundos estava emporcalhando a estátua de Drummond? Assim, eles teriam sido identificados e presos na hora, e isso serviria de exemplo para que outros imbecis como eles não tornem a fazer o mesmo. Tolerância zero com esse tipo de atitude!   fr

sábado, 1 de junho de 2013

Estátua de Drummond em Copacabana


A estátua em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade, localizada no calçadão de Copacabana, foi inaugurada em outubro de 2002, quando foi comemorado o centenário do seu nascimento. Poeta, cronista e contista, Drummond nasceu na cidade mineira de Itabira, mas viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde trabalhou também como funcionário público e faleceu em 1987. Muita gente passa diariamente pelo local e faz questão de tirar fotos sentada ao lado do grande poeta brasileiro. No banco, está gravado um trecho do poema "Mas Viveremos", de Drummond: "No mar estava escrita uma cidade". Para ler mais sobre o poeta no meu blog, basta clicar ao lado, no marcador com o seu nome.  fr

No meio do caminho tinha uma pedra...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Receita de Ano Novo

RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade
.
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris ou da cor da sua paz,
ano novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir a ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior) novo espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come,
se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? Passa telegrama?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil, mas tente,
experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eu, etiqueta
Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
Que não é o meu de batismo ou de cartório
Um nome estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente.
Meu copo, minha xícara.
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante e sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas.
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandálias de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais.
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
De vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarificados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De não ser eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu novo nome é Coisa
Eu sou a Coisa, coisamente.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Síntese de Felicidade

Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingos sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Por do Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

'Poesia Completa', Nova Aguilar, 2002.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Consumismo (Carlos Drummond de Andrade)

Muitas pessoas dão mais valor ao "ter" do que ao "ser".
Valorizam mais aquilo que se compra e se pode mostar aos outros como símbolo de 'status'.
Roupas de marca. Óculos. Bolsas. Sapatos. Telefones celulares. Carros. E tantas outras coisas.
Mas, por dentro, essas pessoas são vazias. Porque se esquecem de SER.


EU, ETIQUETA

Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
Que não é o meu de batismo ou de cartório
Um nome estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente.
Meu copo, minha xícara.
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante e sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas.
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandálias de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais.
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
De vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarificados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De não ser eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu novo nome é Coisa
Eu sou a Coisa, coisamente.

Caderno B, Jornal do Brasil, 16.01.1982