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sábado, 29 de agosto de 2026

“Só o vento sabe a resposta”, J. M. Simmel

“Só vento sabe a resposta”, J. M. Simmel; tradução de José Abrahão, São Paulo, Círculo do Livro, s/d, 701 páginas.
Com a morte, em Cannes, na França, em 1972, de Herbert Hellmann, dono de um dos mais importantes bancos da antiga Alemanha Ocidental, o advogado Robert Lucas, funcionário da Companhia de Seguros Global, foi encarregado de investigar a explosão do iate do milionário, causadora do chamado “sinistro”. As suspeitas eram de suicídio, o que isentaria o pagamento de uma elevada indenização à irmã da vítima, e de assassinato, que obrigaria a seguradora a pagá-la. Herbert Hellmann havia realizado a compra de uma significativa quantia em libras esterlinas, aproveitando-se de seu valor baixo, porém não as transferiu ao Banco Central alemão antes da desvalorização da moeda pelo governo, o que representou um prejuízo de milhões. Ao pedir ajuda financeira aos sócios para cobrir os prejuízos e salvar sua reputação no mercado financeiro, o banqueiro não obteve ajuda, entrando em desespero. Robert Lucas descobriu que, por trás da especulação, escondiam-se vários negócios e transações entre os sócios que os tornavam cada vez mais ricos. O prejuízo de Herbert Hellmann fazia parte de um plano para tomar dele o seu banco. Robert Lucas vivia em um casamento infeliz e estava doente, mas conheceu, em Cannes, a pintora Angela Delpierre e ambos apaixonaram-se. Mais um livro de Simmel em que os personagens apaixonam-se perdidamente do nada e em pouquíssimo tempo. À medida que as investigações avançam, envolvidos na trama são assassinados e a vida de Robert e Angela passam a ficar ameaçadas e, por isso, ele resolveu colocar tudo o que sabia no papel, em forma deste livro, para proteção de ambos. Mais um livro em que Simmel usa o recurso da história ser narrada pelo personagem principal através de um livro. Robert elaborou um arriscado plano para se aproveitar da situação e virar o jogo em relação aos poderosos milionários envolvidos nos crimes. Caso ele não dê certo, Robert e Angela correm o risco de serem os próximos eliminados. fr

Trecho do livro “Só o vento sabe a resposta”:

“Eu já não era o mesmo homem que havia sido até dois meses atrás. Sempre lidando com patifes, tornei-me eu próprio um grande patife. Mas Angela não fazia a mínima ideia dessa minha transformação. Pouco me importava que eu me tornasse semelhante àqueles outros. Só uma pessoa tinha significação para mim neste mundo sujo: Angela! Jamais amei outra mulher como a ela. Por sua vez, ela nunca na vida amou tanto outro homem como a mim. Este relato deve caracterizar-se como uma garantia de vida para a mulher que eu amo. Por isso também peço a Deus a graça de ser bem sucedido em registrar tudo o que tenho sentido, percebido e notado.”

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Dica de livro: “Jantar Secreto”, Raphael Montes

“Jantar Secreto”, Raphael Montes; sem local, Companhia das Letras, 2016, 360 páginas.
        História pesada, teve um momento em que as descrições foram muito fortes em um matadouro clandestino, e eu precisei decidir se continuava ou não lendo. Apesar de eu não gostar muito do gênero de terror, eu cheguei até o final. Vou comentar sobre a leitura do livro, sem antecipar o que acontece para não estragar o prazer de quem quiser ler. São quatro jovens do interior do Paraná que vêm para o Rio de Janeiro, e que têm dificuldades de sustentar-se e pagar os seis meses atrasados de aluguel do apartamento que dividem em Copacabana. “Dante, o narrador, trabalha como vendedor numa livraria e cursa administração. Leitão, um hacker de humor escrachado, frequenta aulas de ciência da computação, mas prefere mesmo jogar vídeo game e comer pizza. Miguel, o certinho do grupo, estuda medicina. E Hugo é um aspirante a chef e dono de uma vaidade sem limites.”
        Hugo deu a ideia de organizarem jantares no apartamento para um público seleto de dez pessoas, oferecendo o que seria uma “aventura gastronômica”. Leitão criou a página na internet, mas, por diversão, colocou que o cardápio seria à base de carne humana, cobrando seis vezes mais por pessoa. Para surpresa de todos, vários interessados pagaram e se inscreveram para o jantar, que faria com que eles conseguissem o dinheiro suficiente para pagar todas as dívidas dos quatro rapazes. Os clientes eram ricos, ávidos por uma aventura gastronômica exótica, com a carne humana como o ingrediente principal.
        Depois de muito discutirem acabaram concordando em realizar um único jantar para poderem pagar as dívidas, tudo de forma sigilosa. Eles aproveitaram que Miguel era residente em um hospital público e poderia facilitar o roubo do corpo de um mendigo morto, e que Hugo tinha conhecimentos culinários. O que era para ser uma única experiência superou todas as expectativas, o que fez com que eles continuassem a organizar mais jantares. O sucesso atraiu o interesse de um poderoso empresário, que forçou, através de ameaças, entrar como sócio.
        O “negócio” cresceu demais e fugiu do controle dos quatro rapazes, passando a ter uma estrutura empresarial, com o aluguel de uma enorme casa no Jardim Botânico; contratação de uma equipe diversificada, com garçons, ajudantes de cozinha, motoristas para pegarem os convidados, que eram levados à casa com os olhos vendados, seguranças, arrumadores e faxineiros. Nenhum deles sabia de quem era a carne humana que era servida. A procura cresceu, obrigando a passar a dois jantares na semana, depois três, com lista de espera. Os clientes eram pessoas de grande poder aquisitivo: médicos, artistas, advogados, empresários e políticos. A culinária especializou-se.
        Aos poucos, o novo sócio passou a tomar as decisões sozinho, desviando os corpos a serem usados para os jantares de um crematório da sua família. Mais tarde, Dante descobriu que o sócio passou a sequestrar pessoas em blitz policiais, falsas entrevistas de emprego e encontros marcados em aplicativos de relacionamento. As pessoas eram “engordadas” em jaulas de um galpão em um local isolado, um matadouro, e, mais tarde, eram levadas para o abate. Os doentes eram executados e tinham os seus órgãos vendidos no mercado negro. O negócio cresceu tanto que foi expandido para outras cidades: São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Brasília. Foi nesta passagem do livro que eu precisei decidir se parava ou continuava a leitura. Muito sinistro! Mas eu fui até o final.
        Os demais jovens continuaram participando porque não tinham conhecimento de todos os crimes que eram praticados e ficaram animados com todo o dinheiro que recebiam, estavam enriquecendo. Dante tentou sair do esquema, mas o sócio disse-lhe que do negócio só se saia morto e aqueles que podiam ameaçá-lo eram silenciados. O jovem sabia que, se denunciasse toda a operação ilegal colocaria em risco sua vida, mas precisava fazer alguma coisa para acabar com aqueles jantares macabros.
      (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.)
fr

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Dica de livro: "Matéria dos Sonhos", J. M. Simmel

“Matéria dos sonhos”, J. M. Simmel; tradução de Erika Rizzo, São Paulo, Círculo do Livro, s/d, 714 páginas.
Walter Roland é o principal jornalista da revista “Blitz” uma das mais prestigiadas da antiga Alemanha ocidental em 1968, ano em que a então União Soviética invadiu a antiga Tchecoslováquia para acabar com as reivindicações que o povo fazia por democracia, no que ficou conhecido como “Primavera de Praga”. Apesar do prestígio dentro da publicação, há anos ele não tem mais a confiança da direção devido a seu comportamento mulherengo e ao alcoolismo. Apesar disso, Roland escreve a coluna de maior sucesso da revista, uma coluna sobre sexo, mas com um pseudônimo, o que não lhe dá a realização profissional que anseia ter. Acompanhado do fotógrafo Bertie Engenhardt, ele foi enviado a um campo de menores refugiados para o que seria uma despretensiosa reportagem, mas que acabou revelando-se um caso de espionagem internacional, com a descoberta da venda por um militar da Alemanha Oriental dos planos secretos do Pacto de Varsóvia para os Estados Unidos, com assassinatos, traições e história de amor. O Pacto de Varsóvia era a aliança militar comunista liderada pela antiga União Soviética contrária à OTAN, a aliança militar liderada pelos Estados Unidos. Walter Roland acredita ser a oportunidade de voltar a escrever boas reportagens e a usar o seu nome verdadeiro. Mas tem que enfrentar poderosos interesses das grandes potências e dos empresários do jornalismo alemão. A principal fonte de Roland é dona Luise, uma assistente social tcheca de 62 anos que conversa com 11 salgueiros no pântano onde fica o campo de menores, acreditando estar conversando com 11 pessoas de diferentes nacionalidades. Durante a investigação que fez, para seu assombro, Walter Roland conhece onze pessoas com a nacionalidade e características dos amigos imaginários de dona Luise. O livro foi lançado em 1971. A história é contada em primeira pessoa pelo jornalista Walter Roland. É mais um livro em que Simmel aborda uma história envolvendo espiões duplos e conspirações. De acordo com o autor, o que é contado no livro é baseado em fatos relatados por um emigrado do lado comunista e que os passou para um jornalista, e este entregou a história a Simmel (leia a transcrição da explicação feita por ele no livro, abaixo). Eu já li “Matéria dos sonhos” umas quatro vezes, a primeira quando iniciei a faculdade de Jornalismo, o melhor livro dos que eu li desse escritor austríaco Johannes Mario Simmel (1924-2009). Simmel trabalhou como intérprete das tropas dos Estados Unidos que ocuparam a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, como repórter de uma revista sensacionalista alemã. Os seus livros foram traduzidos para cerca de 30 idiomas e venderam 50 milhões de exemplares pelo mundo. (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr

O livro "Matéria dos Sonhos" é baseado em acontecimentos reais passados a J. M. Simmel por um jornalista

        “Não quiseram que este livro aparecesse.
    O primeiro original foi furtado do autor e destruído, pois sua publicação deveria ser evitada a todo custo.
    O autor – um jornalista – emigrou, portanto. De além-mar ele me enviou as fitas nas quais o emigrado havia registrado em detalhes todas as suas aventuras. Recebi autorização para relatar o ocorrido. Foi o que fiz, valendo-me de todo método imaginável que me parecesse indicado para proteger aquele jornalista e outros inocentes.
    Tendo em vista as modificações feitas e ainda por cima a forma de romance sob a qual é apresentado, é inteiramente impossível que este livro venha a causar mal a quem quer que seja.
    É desejo do emigrado (que há anos vive sob outro nome) que a história seja relatada como ele a havia escrito antes, isto é, na primeira pessoa.”
    J. M. SIMMEL, “Matéria dos Sonhos”.

terça-feira, 28 de abril de 2026

"Eu confesso tudo", J. M. Simmel

“Eu confesso tudo”, J. M. Simmel; tradução de Carlos Alberto Pavanelli, São Paulo, Círculo do Livro, s/d, 310 páginas.
       O roteirista James Chandler está insatisfeito com a vida. Não se considerava um bom roteirista, não era reconhecido pelos colegas, não amava a esposa e não queria continuar com a amante; para piorar, ele descobriu ter uma doença terminal e que lhe restava somente um ano de vida. Pensando em aproveitar o pouco tempo que lhe restava, ele planejou um golpe, fraudando cheques bancários e fugindo com muito dinheiro para ficar longe das pessoas conhecidas e aproveitar o tempo de vida, mas algo fez com que ele precisasse mudar seus planos. Este é mais um livro de J. M. Simmel em que o autor coloca o personagem principal escrevendo um livro em que relata a história, eu já comentei alguns anteriormente no meu blog. Neste, James Chandler passa para o papel o que fez de errado tentando passar a limpo sua vida. O diferencial é que a história não aborda a espionagem no período pós Segunda Guerra Mundial.
        J. M. Simmel nasceu na Áustria em 1924, formou-se em Engenharia Química e, durante o término da segunda Guerra, trabalhou como tradutor e intérprete para os militares dos Estados Unidos, e, posteriormente, como jornalista. O seu primeiro livro, “Encontro no nevoeiro”, foi publicado em 1946. Em 1950, passou a ser correspondente da revista alemã “Quick” nos Estados Unidos e na Europa. Escreveu 27 livros, que venderam mais de 73 milhões de exemplares em mais de 30 idiomas. Simmel faleceu em 2009, na Suíça, aos 84 anos. (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr

Trecho do livro “Eu confesso tudo”

    “Teria gostado de viajar de volta para casa nesse último ano. Para a casa de minha adolescência e para meus pais. Tínhamos uma casa bonita, grande, sentia-me muito feliz morando nela. Porém meus pais haviam morrido, e a casa fora vendida. Para casa! Pois, na verdade, onde mesmo é que ainda me sentia em casa? Em quartos de hotel, no estúdio ou em aviões? Com Jolanthe? Ou com Margaret? Ou comigo mesmo? Onde quer que estivesse, ansiava profundamente em partir para outro lugar. E em outro lugar, voltar para outra parte. Mas sempre desejando ansiosamente ir para longe. Há anos é assim.
     Isso talvez fosse o melhor a fazer.
   Ir para outra parte. Ir só. E, quando lá as coisas não estivessem como eu desejava, não demoraria a tentar um novo lugar. Havia muitos lugares, se se tivesse dinheiro suficiente.
    Eu teria dinheiro suficiente?
    Não exatamente muito. Gostaria de mais. Todavia, dificilmente haveria de admitir que ainda fosse ganhar mais. Ao menos, não honestamente. De outra forma, talvez sim. Talvez fosse minha vontade tornar-me um malfeitor, um criminoso.”

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"Nem só de caviar vive o homem", J. M. Simmel

“Nem só de caviar vive o homem”, J. M. Simmel; tradução de Paulo Buarque de Macedo,São Paulo, Círculo do Livro, 1967, 526 páginas.

Em 1939, o jovem alemão Thomas Lieven, de uma família da alta burguesia alemã, era um dos mais bem sucedidos banqueiros na Inglaterra. Ele levava uma vida tranquila, aproveitando-a de maneira descompromissada com mulheres, carros caros e preparando elaboradas receitas culinárias. Lieven teve a sua vida estável e confortável transformada após ser traído por seu sócio, que lhe pediu que fosse à Alemanha nazista, onde foi preso pela Gestapo sob acusação de fraudes do seu banco, na realidade uma armação feita pelo falso amigo para livrar-se dele. Para não ficar preso na Alemanha nazista, Lieven aceitou trabalhar como espião, dando início a uma longa atividade de espionagem e contraespionagem para a Gestapo alemã, o Deuxième Bureau francês e o Serviço Secreto britânico, conseguindo enganar a todos, e também aos soviéticos. “No decorrer de cinco anos de guerra e de doze anos do após-guerra, Thomas Lieven foi obrigado a usar dezesseis passaportes falsos, de nove diferentes países.” E durante todos esses anos, em uma Europa tomada por espiões e contraespiões, mesmo não sendo um espião profissional Lieven não foi um agente qualquer, foi um super agente, aliando inteligência e carisma ao talento culinário, conseguindo enganar os mais experientes espiões europeus, chegando até a ser consultado pelo diretor do FBI, Edgar Hoover. As aventuras de Thomas Lieven são intercaladas por várias receitas que o próprio preparava, e estão no livro. Se o leitor for, também, um amante da culinária pode aproveitar para experimentá-las. J. M. Simmel conta que a história deste seu livro foi lhe passada justamente pelo verdadeiro agente Thomas Lieven, nome, evidentemente, alterado pelo autor. Em 1958, Simmel estava nos Estados Unidos para pesquisar documentos para um livro, que acabou não sendo escrito. Ele conheceu o verdadeiro espião que enganou os principais serviços secretos do mundo, e que passou ao escritor todas as histórias que Simmel descreveu nesta obra. (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes ou acadêmicas.) fr 

Trecho do livro "Nem só de caviar vive o homem"

“Muito em breve Thomas seria libertado do remorso de trabalhar para os franceses contra os alemães. Breve ele trabalharia para os alemães contra os franceses. Depois, novamente para os franceses. Depois contra os ingleses. Depois para os ingleses. Depois para os três. Depois contra os três. A loucura estava apenas principiando. O homem virtuoso que havia em Thomas Lieven, o homem que amava a paz e detestava a violência, simplesmente ignorava o que lhe reservava o futuro.”

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

"Genocídio americano: a guerra do Paraguai", Julio José Chiavenatto

“Genocídio americano: a guerra do Paraguai”; Julio José Chiavenatto, 25ª edição, São Paulo, Editora Brasiliense, 1993, 208 páginas.

Lançado em 1979, ainda na ditadura militar brasileira, o livro contraria a História conhecida e difundida como estudamos na escola. No prefácio, o autor procura esclarecer que os fatos são narrados com imparcialidade, através de uma paciente análise, e adianta que é um livro “favorável ao Paraguai de Francisco Solano López, com as ressalvas históricas necessárias”, mas, ao mesmo tempo, “não é um livro contra o Brasil”. O autor acredita que todos os países envolvidos saíram da guerra destruídos “como vítimas da opressão que as grandes potências exercem sobre os fracos”. Julio José Chiavenatto faz questão de deixar claro que ele não é um historiador, e que o seu livro é para ser lido como uma reportagem, escrita com paixão. A Guerra do Paraguai é considerada o pior conflito armado na América Latina, transcorreu de dezembro de 1864 a março de 1870, e opôs de um lado o Brasil, a Argentina e o Uruguai, a chamada Tríplice Aliança, e de outro o Paraguai. O governo de D. Pedro II interviu no Uruguai em 1864, quando aquele país vivia um conflito interno por disputa de poder, o que fez com que o Paraguai tomasse medidas contra o Brasil, desencadeando os combates e declarasse guerra. A Guerra do Paraguai resultou em mais de 400 mil mortes, sendo 300 mil no lado paraguaio, cem mil brasileiros, 30 mil argentinos e dez mil uruguaios. Na escola, aprendemos que o Brasil lutou contra o Paraguai devido aos ideais expansionistas do ditador paraguaio Francisco Solano López. Julio José Chiavenatto contraria, radicalmente, tudo isso, mostrando no livro que a guerra atendeu principalmente aos interesses do imperialismo inglês, incomodada com o desenvolvimento paraguaio, o que provocou forte oposição de historiadores brasileiros, que apresentaram equívocos da obra. (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr


Trecho do livro:
      “Morrendo em 10 de setembro de 1862, Carlos Antonio López [pai de Francisco Solano López e seu antecessor] deixa um país próspero e o mais progressista da América do Sul. É o único país, a República do Paraguai, que tem uma indústria de base. O único país que não tem dívida externa ou interna. É o único país que não tem analfabetos [sic]. É o país mais bem dotado de melhoramentos modernos como o telégrafo, ferrovias, linhas de navios para a Europa etc.. É um país que tem ao mesmo tempo os depósitos cheios de fumo e erva-mate para exportação como de alimentos para o povo. Indiscutivelmente, é o mais estável regime político das Américas. Possui o mais moderno sistema de moeda, cunhadas em Assunción e também papel-moeda impresso na sua capital. Esta livre da ingerência de bancos estrangeiros na sua economia. Paradoxalmente, todos esse progresso é a sua sentença de morte.
      Mas, para morrer, o Paraguai vai dar ao mundo o mais heroico exemplo americano de resistência nacional. E vai provar, numa das mais trágicas lições da história, que quando um povo autodetermina o seu destino é invencível e incorruptível. É preciso então, como se fez no Paraguai, destruir até a sua última semente. A necessidade do opressor destruir totalmente um povo livre para estabelecer o seu domínio foi cabalmente expressa pelo Duque de Caxias, em carta ao Imperador Pedro II datada de 18 de novembro de 1867, quando afirmou que para vencer o Paraguai, o Império precisaria matar o último paraguaio no ventre da sua mãe...”

sábado, 20 de dezembro de 2025

"Pátria amada", J. M. Simmel

“Pátria amada”, J. M. Simmel; tradução de Milton Persson, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1965, 542 páginas.
Neste livro, J. M. Simmel mostra a Alemanha na década de 1960, no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando o país estava dividido em duas nações pelo Muro de Berlim: a República Federal Alemã, conhecida também como Ocidental, capitalista e alinhada aos Estados Unidos, e a República Democrática Alemã, ou Oriental, comunista e alinhada à antiga União Soviética. Muitos integrantes ou apoiadores do regime nazista conseguiram não só não serem julgados como criminosos de guerra, como obter cargos nos governos pós-guerra. Após a construção do muro, uma organização passou a financiar a passagem de alemães do lado comunista para a Alemanha Ocidental, onde eram recebidos como refugiados políticos. A fuga era realizada através de túneis construídos em prédios próximos ao muro. Em uma dessas ações, o ex-presidiário Bruno Knolle é coagido a infiltrar-se no grupo que iria atravessar o túnel para a Alemanha capitalista, onde deveria cumprir uma missão secreta que colocaria a sua vida em risco e sem saber as verdadeiras motivações: sequestrar e repatriar um alemão que teria fugido da Alemanha Oriental. Sempre sob ameaças e vigiado, Knolle é manipulado pelas agências de espionagem dos dois lados da Alemanha, e tenta conseguir retomar o controle de sua vida. (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais como leitor acerca do que mais desperta o meu interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) 
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Trecho do livro "Pátria amada"

      “A mulher é gorda demais. Não consegue passar pelo buraco do túnel, apesar de todos os seus esforços. Os trinta e um fugitivos precedentes não tiveram nenhuma dificuldade. Agora o ritmo parou. A expedição inteira corre risco por causa da gorda. Bem que o reconhece: começa a chorar. Baixinho. Se os soluços fossem mais fortes, a situação ficaria perigosa não só para ela como para os trinta e nove homens, mulheres e crianças que aguardam nos fundos da casa da Mottlstrasse, 35, apavorados, impacientes e furiosos. Que estafermo! Só faltava mais essa!
    Lágrimas de angústia escorrem pelas carnudas bochechas do ‘estafermo’, róseas de tanto esforço e dor. De dor, sim: os que estão na parte inferior, dentro do túnel, puxam-lhe violentamente as pernas, enquanto os do lado de fora, no pátio, fazem pressão sobre os ombros. Inútil. A mulher continua presa pela cintura. São 23h 17m [sic], quinta-feira, 13 de agosto de 1964. A noite está quente e bonita, o céu claro e estrelado, com uma lua brilhante, cor de mel.
      As crianças, mulheres e homens ao redor ficam olhando a gorda sem dizer nada. Então ela compreende que tem o dever cristão de se arrastar para fora do buraco, permitindo que ao menos os outros possam escapar. Tenta voltar à superfície. Dois homens ajudam. Pela parte interna também empurram. De repente, percebem assustados que essa solução tampouco é viável! O vestido e a bainha se rasgam. De tanto empurrar de cima e puxar por baixo, a bacia volumosa da gorda fica trancada. Ela ofega. A testa cobre-se de grossas gotas de suor. Geme baixinho, com a maior prudência para que ninguém ouça. Trinta e nove pessoas cujos destinos estão em jogo, também gemem. A infeliz não consegue nem sair do buraco.”

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

"Contos modernos: Monteiro Lobato"

“Contos completos: Monteiro Lobato”, 1ª edição, São Paulo, Biblioteca Azul, 2014, 659 páginas.

O escritor Monteiro Lobato é mais lembrado pelas obras infantis do “Sítio do pica-pau amarelo”, mas ele é autor de vários outros livros, além de contos e crônicas. Eu li o livro “Contos Completos”, que reúne quatro de suas obras com 66 contos: “Urupês”, de 1918; “Cidades mortas”, de 1919; “Negrinha”, de 1920; e “O macaco que se fez homem”, de 1923. Dos quatro, gostei mais de “Negrinha”. José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) nasceu em Taubaté, no interior do estado de São Paulo, foi promotor público até receber a Fazenda Buquira em herança do avô, aos 29 anos, para onde foi morar com a família, passando a escrever contos para jornais e revistas. A Fazenda serviu de inspiração para os personagens e histórias do Sítio do pica-pau amarelo; ela ficava localizada na cidade de Buquira, que passou a se chamar Monteiro Lobato em sua homenagem. O escritor foi, também, editor, tradutor, adido comercial nos Estados Unidos, e defendeu campanhas nacionalistas, em especial a de defesa da exploração por brasileiros do petróleo que existiria em território nacional. Em 1941, fez fortes críticas ao governo de Getúlio Vargas e acabou preso, permanecendo na cadeia de março a junho daquele ano. Monteiro Lobato concorreu à Academia Brasileira de Letras duas vezes. Em 1922, lançou sua candidatura, mas recusou-se a “implorar votos”, como viria a dizer depois, aos integrantes da casa e recebeu somente quatro votos. No ano seguinte, chegou a citar um dos fundadores da ABL, Alberto de Oliveira, em um dos seus contos, “O ‘resto de onça’ “, em que debocha dele, dizendo que o seu texto é chato, e que “não fede, nem cheira”. Em 1926, mudou de tática e enviou cartas a todos os “imortais”, mas perdeu novamente justamente por não ter solicitado o apoio pessoalmente, tendo recebido apenas nove votos.

Sobre o livro: eu gostei mais de alguns contos, outros menos, e vou comentar sobre os que gostei, claro. “Urupês” “Pollice verso” é sobre a ganância dos médicos, conto de 1916; o doutor Inácio Gama procurava prolongar a doença do major Mendanha para conseguir mais e mais dinheiro pelo tratamento, nada muito diferente do que acontece no Brasil mais de cem anos depois. No conto “Bocatorta”, de 1915, Monteiro Lobato aborda um tema pesado, com violação de sepultura e necrofilia. “Cidades mortas” No conto “Café! Café!”, de 1900, o major Mimbuia recusou-se a diversificar o plantio de outras espécies, como feijão e milho, diante da baixa dos preços do café: “Não! Só café! Só café! Há de subir, há de subir muito. Sempre foi assim. Só café! Só café!” Mas os preços caíram ainda mais e o major foi à falência, persistindo em aguardar a subida dos preços do café. Em “Toque outra”, conto sem data, convidados insistem para que Sinhazinha fique ao piano durante um evento social, enquanto estão conversando em grupos, sem prestar nenhuma atenção às músicas. “Negrinha” Pedrinho, de apenas nove anos, saiu à rua para engraxar sapatos a fim de ajudar sua família pobre, mas foi levado por um fiscal da prefeitura até a sua casa para cobrar dos seus pais uma pesada multa pelo exercício da profissão sem licença, em “O fisco (conto de Natal)”, de 1918; uma realidade muito diferente de hoje em dia em que se vê milhares de crianças vivendo nas ruas das grandes cidades sem que as autoridades intervenham. “Os negros”, de 1922, conta a história de um amor proibido entre um imigrante português pobre pela filha do fazendeiro, que terminou nas mortes dele e da escrava que tentou ajudá-lo. Em “Barba azul”, de 1922, um homem enriquece ganhando seguros de vida de suas esposas, que morrem no parto. Gostei muito do curioso e interessante conto “Os pequeninos”, de 1939, são duas histórias: uma ema que era comida viva por um pequenino gavião embaixo de sua axila, onde a ema não podia chegar com o bico, e um funcionário de armazém que foi demitido pelo sumiço de um saco de arroz, que caíra da pilha devido ao ataque de formigas; o saco ficou mais leve de um lado e caiu no outro, onde ficou escondido em meio a caixotes e somente foi descoberto muito tempo depois. Em “A policitemia de dona Lindoca”, sem data, a esposa é diagnosticada por um médico charlatão com um mal de nome chique e passa a ser tratada com mais atenção pelo marido, até que, meses depois, outro médico diga que tudo não passou de uma estafa e a mulher volta à vida de dona casa negligenciada pelo marido. “Quero ajudar o Brasil...”, de 1938, é sobre um homem humilde que gastou todas suas economias para comprar ações da Companhia Petróleos do Brasil, de Monteiro Lobato, sem nenhuma garantia de retorno, com a justificativa de querer ajudar o país. Em “Dona Expedita”, de 1939, devido a um erro do jornal, uma mulher responde anúncio de outra, oferecendo-se como empregada, emprego que ela própria também buscava. O conto “Herdeiro de si mesmo”, de 1939, é sobre um coronel milionário que procurou a ajuda de um diretor de centro espírita para saber se conseguiria descobrir em quem reencarnaria para deixar a sua fortuna, antecipadamente, para ele próprio! “O macaco que se fez homem” “Duas cavalgaduras”, de 1923, é sobre o prejulgamento do autor em relação a um judeu proprietário de sebo no bairro do Catete, baseando-se na história de um livro que a sua editora publicara no ano anterior, em que o personagem também judeu e dono de uma livraria aproveitou-se de um estudante que precisou vender os seus livros para conseguir dinheiro para ajudar sua irmã. Em “Um homem honesto”, de 1923, João Pereira é um funcionário público honesto que encontrou um pacote com uma quantia muito alta de dinheiro e o entregou ao chefe da estação, passando a sofrer com o deboche das outras pessoas, inclusive da própria esposa, que o criticaram por não ter ficado com o dinheiro. “O bom marido”, de 1922, mostra Teofrasto (que nome, hein!?), que explora a esposa dizendo estar sempre à procura do emprego que esteja à sua altura. “O rapto”, de 1923, é sobre um cego explorado pelos filhos, que não queriam trabalhar e apenas viver às suas custas, já que o pai era o único cego da sua pequena cidade e recebia ajuda financeira da população; quando um oftalmologista prometeu operá-lo e acabar com a cegueira, os filhos o levaram embora para outra cidade, para continuar aproveitando-se dele. O famoso personagem Jeca Tatu teve sua primeira aparição através de uma citação no conto “Velha Praga”, de 1914, no livro “Urupês”, sobre as queimadas que eram feitas à época. Depois, no conto “Urupês”, do mesmo ano, Jeca Tatu simboliza a indolência do homem do campo. (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais, como leitor, acerca do que mais me desperta o interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr

domingo, 21 de setembro de 2025

“O amor é só uma palavra”, J. M. Simmel

“O amor é só uma palavra”, J. M. Simmel; tradução de Ari Blaustein, São Paulo, Círculo do Livro, s/d, 591 páginas.
     Livro de 1963. Quando era criança, Oliver Mansfeld foi abandonado na Alemanha Ocidental pelo pai, que fugiu para Luxemburgo levando a mãe e a tia do menino, para não ser preso devido à evasão de divisas, em um dos maiores escândalos daquele país após a Segunda Guerra Mundial. Para afrontar o pai, Oliver era constantemente expulso de escolas particulares. Aos 21 anos, ele começou a estudar no internato particular para terminar os estudos, última instituição a aceitá-lo como aluno, após repetir três anos.
     Oliver conheceu Verena Lord, de 33 anos, esposa de um poderoso banqueiro de Frankfurt e amigo do seu pai. Os dois começaram a manter um relacionamento extraconjugal, correndo o risco de serem descobertos e sofrerem as represálias por parte do marido traído. Verena havia casado por dinheiro, em busca de segurança financeira para ela e a filha, Evelyn, de cinco anos. Assim como em “Nina”, livro do qual já comentei no meu blog, este conta a história de um relacionamento improvável entre um rapaz mais novo, sem emprego e ainda estudando, com uma mulher casada e vivendo uma vida de conforto e muitas perspectivas para a filha pequena.
        Grande parte do livro é contada através do livro que o personagem principal, Oliver, estava escrevendo sobre a história de seus pais; os conflitos vividos com os colegas problemáticos no internato; e seu relacionamento com Verena, sua filha e seu marido desonesto. Ou seja, a história é contada através do livro que Oliver estava escrevendo e que, depois de concluído, ele enviou para uma editora. Simmel já usara esse recurso para contar a história do livro “Deus protege os que amam”, do qual também já comentei aqui, no meu blog.
        J. M. Simmel nasceu em Viena, Áustria, e quando estourou a Segunda Guerra Mundial, em 1939, tinha 15 anos. Como as histórias dos seus primeiros livros que eu já publiquei aqui, no meu blog, transcorrem no pós-guerra, ele costuma criar personagens com um passado atuante no conflito, como espiões, nazistas, sobreviventes de campos de concentração, colaboracionistas ou combatentes, mesmo que as histórias dos livros não sejam sobre a guerra propriamente.
        Duas curiosidades: neste livro, uma das adolescentes do internato onde Oliver Mansfeld estudava era uma brasileira, de nome nada ligado ao nosso país: “Chichita”, que organizou uma “macumba” com os colegas de internato para proteger um casal de jovens expulso da escola. No livro “Deus protege os que amam”, Simmel já tinha se referido à “macumba” no Brasil. O nome do livro “Amor é só uma palavra” foi tirado de uma música da época do seu lançamento, de mesmo nome; ela fez parte da trilha sonora do filme “Aimez-vous Brahms?”, de 1961, que teve o título em português “Mais uma vez, adeus”, dirigido por Anatole Litvak, com Ingrid Bergman, Yves Montand e Anthony Perkins (que estrelara no ano anterior o clássico “Psicose”, do diretor Alfred Hitchcock). Era a música favorita de Verena Lord.
     (Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais, como leitor, acerca do que mais me desperta o interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

“Presença dos Estados Unidos no Brasil (dois séculos de história)”, Moniz Bandeira

“Presença dos Estados Unidos no Brasil (dois séculos de história)”, Moniz Bandeira; 2ª edição, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1978, 500 páginas.

O autor realizou extensa pesquisa sobre a influência, e interferência, dos Estados Unidos no Brasil em um período histórico que abrange desde parte do período colonial, passando pelo Império até o golpe que depôs o governo de João Goulart, com forte apoio estadunidense. A bibliografia utilizada inclui documentação de arquivos públicos e particulares, no Brasil e no exterior, como os arquivos do ex-presidente Getúlio Vargas e do diplomata Oswaldo Aranha, além de ter realizado várias entrevistas, como a que fez com o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Moniz Bandeira realizou todo o trabalho de pesquisa, sem contar com uma equipe de apoio, apenas a colaboração de amigos estudiosos, políticos e historiadores.

Conjuração Mineira:
Em 1786, três anos antes da Conjuração Mineira, o estudante brasileiro José Joaquim da Mata encontrou-se com o então ministro dos Estados Unidos na França, Thomas Jefferson, para pedir o apoio daquela nação, que recentemente conquistara a sua independência da Inglaterra. Mata disse-lhe que os brasileiros dispunham de 26 milhões de dólares, mas precisavam “da ajuda dos Estados Unidos, em artilharia, munições, navios, marinheiros, soldados e oficiais”. O futuro presidente dos Estados Unidos respondeu que o seu país via com agrado a revolução e que poderia fornecer “navios e gente”, mas somente depois da revolução ter sido vitoriosa, e com a condição de que o Brasil “lhes comprasse trigo e bacalhau”. Explicou, porém, que não queria romper com Portugal com quem tinham um “tratado vantajoso”.

Amazônia:
A cobiça dos Estados Unidos pela Amazônia é antiga. Em 1829, os EUA reivindicaram a abertura do Amazonas sob o pretexto de “exploração científica”, já que a navegação de navios estrangeiros era proibida pelo Império brasileiro, e nos anos seguintes insistiram nisso. Após a “guerra contra o México, a conquista do Texas, do Arizona e da Califórnia”, na década de 1840, “o nacionalismo e o expansionismo beiravam, nos Estados Unidos, as raias do delírio”. [Em 1845], Coube ao Tenente Mathew Fontaine Maury, “agitar na imprensa e nas convenções dos Estados Unidos o interesse pela Amazônia. Maury queria que os americanos colonizassem o Norte do Brasil, transplantando para o Vale do Amazonas parte da população negra dos Estados Unidos. (...) Inexauríveis riquezas, que Maury apontava no Amazonas, despertavam a cobiça dos americanos.” Sua proposta recebeu apoio dos expansionistas e da imprensa estadunidense, e “o Departamento de Estado desfechou ofensiva a fim de forçar o Império à abertura do Amazonas”. “Comparava-se o Amazonas ao Oceano e daí se deduzia que os barcos americanos podiam navegá-lo no exercício de um direito natural. Essa arguição indicava, francamente, o ânimo de recorrer às armas, para assegurá-lo, se necessário, numa segunda etapa. O pedido de abertura do Amazonas constituía o prólogo do projeto. Se o Império cedesse, temendo as ameaças, grupos de americanos emigrariam para as suas margens e fomentariam o separatismo, tal como ocorreu no Texas e na Califórnia. O Governo dos Estados Unidos, para defendê-los, invocaria o direito de primi occupantis [o primeiro ocupante]. Caso o Império, porém, insistisse no fechamento, restar-lhe-ia a alternativa de reclamar pelas armas o que apresentava como jus naturalis [um direito superior e anterior às leis criadas pelos governos].”

O Brasil não se curvou às pressões dos Estados Unidos, mas depois de anos acabou permitindo a entrada de estrangeiros no Amazonas. “O professor Louis Agassiz conseguiu, em 1866, autorização para entrar no Amazonas, em caráter científico, e, em 7 de dezembro de 1866, D. Pedro II assinou o decreto que o franqueava à navegação. Os americanos nunca tiraram os olhos da Amazônia.”

Golpe de 1964:
Na República, a influência e interferência dos Estados Unidos aumentaram consideravelmente, com aquele país ameaçando com tarifas aos produtos brasileiros, pressões para o governo brasileiro seguir a política externa estadunidense; e interferência na política interna brasileira. No início da década de 1960, o governo e multinacionais dos Estados Unidos financiaram opositores ao governo João Goulart, democraticamente empossado como presidente após a renúncia de Jânio Quadros.

“No princípio de 1963, o jornalista José Frejat denunciou, através de O Semanário que mais de cinco mil norte-americanos, fantasiados de civis, desenvolviam, no Nordeste, intenso trabalho de espionagem e de desagregação do Brasil, para dividir o território nacional. Se estourasse a luta interna, segundo ele, a Esquadra do Caribe estaria pronta e instruída para apoiar a atividade dos civis norte-americanos, fornecendo-lhes armas e tropas.”

De acordo com o jornalista, o consulado dos EUA em Recife contrabandeava armas e munição para o Brasil, e o cônsul, Douglas McLean, era um “agente da CIA”, um dos responsáveis por coordenar as operações no Nordeste. “Eram os boinas verdes (green herets), forças especiais, que já atuavam em cerca de 50 países, com a tarefa de enfrentar, como um braço da CIA, os movimentos de esquerda,promovendo, subterrraneamente, a contrarrevolução.” O resultado todo mundo sabe: o governo de João Goulart, bom ou ruim, não importa, mas democrático, foi deposto por um golpe militar em 1964, com a participação de opositores civis (que, depois, foram presos e cassados) e o apoio dos EUA, dando início a uma ditadura que durou 21 anos. Por incrível que pareça, hoje, em pleno século 21, o Brasil continua sofrendo esse tipo de intimidação, com ameaças de imposição de tarifas econômicas e discursos imperialistas sobre o território brasileiro! Vergonhosamente, com o apoio de alguns brasileiros e brasileiras. fr

terça-feira, 26 de agosto de 2025

"Nina", J. M. Simmel

“Nina”, J. M. Simmel; tradução de Paulo Buarque de Macedo, 7ª edição, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1980, 443 páginas.

    Lançado em 1958, poucos anos após a Segunda Guerra Mundial. Robert Holden arruma emprego de motorista de Julius Brummer, que chantageava ocupantes de importantes cargos na Alemanha, ameaçando divulgar documentos comprometedores que tinha em seu poder.
    “Os delitos do passado, pelos quais os quatro senhores tinham medo de um castigo no presente, eram muito variados. O Sr. Joackim Von Butzkows na sua qualidade de presidente de um tribunal, durante o Terceiro Reich, havia torcido a justiça por diversas vezes causando, com isso, a morte injusta de quatorze cidadãos alemães. O Sr. Otto Gegner conseguira o seu patrimônio entre os anos 1945 e 1947, através de um florescente comércio de cigarros americanos. Os cigarros provinham de portos gregos, bastante afastados para evitar a possível interferência das autoridades americanas e, aos milhões, passavam por diversos satélites da União Soviética até chegar a Viena e à Alemanha. Os transportes eram protegidos por soldados do Exército Vermelho. A essa prova de amizade o Sr. Otto Gegner correspondia fazendo cair nas mãos da polícia soviética, em Viena e no Leste de Berlim, cidadãos alemães que eram procurados pela referida polícia. Esses raptos em plena rua eram levados a cabo por uns desconhecidos que agrediam as pessoas designadas por um cochico e as metiam, rapidamente, em um carro de cor preta que os seguia. Falou-se muito no assunto mas todos os esforços das autoridades alemães e austríacas para reunir provas para acusar os delatores das duas nacionalidades sempre fracassaram. O Sr. Ludwig Marwede era homossexual. Alguns dos seus inúmeros jovens amigos tinham colecionado cartas e fotografias dele. O Sr. Leopold Rothschu, cujo verdadeiro nome era Heinrich Gotthart, figurava numa lista elaborada pelo Governo polonês, de pessoas procuradas para responder por crimes praticados entre 1941 e 1944.”
    Holden apaixona-se pela esposa do patrão, Nina, muita parecida com a sua própria esposa, e a quem ele matou por ciúmes, tendo cumprido pena de nove anos pelo crime. Cada vez mais atraído por Nina, que tentara o suicídio por não conseguir afastar-se do domínio do marido, o motorista acaba envolvido no mundo criminoso de Brummer. Holden e Nina tornam-se amantes, mas sabem que nunca conseguirão ser felizes enquanto o poderoso chantagista puder prejudicá-los e às pessoas próximas. Ele percebe que a única saída para ficar com a mulher amada e proteger as pessoas que conhece de sua perigosa influência é livrar-se de Julius Brummer, e elabora um plano para matá-lo sem levar a culpa. O final podia ter sido melhor.
(Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais, como leitor, acerca do que mais me desperta o interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

"Deus protege os que amam", J.M. Simmel

“Deus protege os que amam”, J. M. Simmel; tradução de Lúcia Magalhães e Carlos Middeldorf, São Paulo, Círculo do Livro, s/d, 240 páginas.
        Em Berlim, Alemanha Oriental, 1955, o jornalista Paul Holland planejava casar-se com Sibylle Loredo e mudar-se para Frankfurt, na vizinha Alemanha Ocidental. Após retornar de uma viagem ao Rio de Janeiro, a trabalho, ele tomou conhecimento de que Sibylle havia desaparecido. De acordo com a polícia, ela teria sido sequestrada. Paul passa a investigar, por conta própria, e conhece Petra Wend, uma alemã que lhe diz conhecer Sibylle e que, na realidade, o seu nome verdadeiro era Viktoria Brunswick e que ela foi uma espiã dupla durante a Segunda Guerra Mundial.
        A sua amada tinha uma vida secreta, completamente diferente daquilo que mostrava ser: esteve envolvida em espionagem internacional durante a guerra, e era suspeita de ter denunciado um antigo namorado para ser executado. Paul tinha que descobrir o que verdadeiramente tinha acontecido à sua noiva, mas, para isso, teria que colocar sua vida em risco, arriscando confiar na misteriosa mulher que conhecera. O livro é escrito em primeira pessoa, é o personagem principal escrevendo um livro relatando os acontecimentos que vivera meses antes.
        Curiosidade: O personagem principal do livro, o jornalista Paul Holland, esteve no Rio de Janeiro, a trabalho. O autor deve ter feito alguma pesquisa e acabou reforçando o estereótipo de que os brasileiros seriam seguidores de religiões afro-brasileiras, que ele chamou, de forma simplista, de “macumba”. Mas, em 1957, ano do lançamento do livro, assim como ainda hoje, a maioria da população brasileira era católica. Não sei se Simmel esteve no Brasil, no livro não há informação a respeito, e também não consegui esta informação na internet. Um trecho do livro:
        “No último dia de minha estada aluguei um carro e fui com meus três companheiros ao Corcovado, a montanha onde está a célebre estátua do Cristo Redentor. No meio da subida havia um restaurante que eu já conhecia e convidei-os para almoçar. Foi um almoço tranquilo. Bebemos cerveja e cachaça e vimos papagaios no meio dos arbustos. Depois demos um passeio pela floresta. Visitamos uma quantidade de pequenas grutas, e mostrei a meus amigos uma infinidade de macumbas. Essas macumbas eram a expressão da superstição que dominava todos os negros e brancos do Rio. Conheci também muitos europeus que faziam suas macumbas, sobretudo mulheres.”
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quarta-feira, 23 de julho de 2025

"Amanhã é outro dia", J. M. Simmel

“Amanhã é outro dia”, J. M. Simmel; tradução de Erika F. Engert Rizzo, São Paulo, Círculo do Livro, s/d, 306 páginas.
        Livro de 1949. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Áustria foi atacada pelos aviões dos Estados Unidos. Durante os bombardeios, a população era orientada a deslocar-se para os abrigos, assim que ouvissem as sirenes. Em 21 de março de 1945, um edifício do Mercado Novo, próximo da Plankengasse, em Viena, foi atingido por bombas, praticamente sendo destruído. No porão da construção, ficaram presas sete pessoas, que foram obrigadas a conviver enquanto a terra era escavada, em busca de uma saída que as libertassem.
        Eram três mulheres, três homens e uma criança, uma menina de seis anos. Therese Reimann, uma senhora de 63 anos, moradora de um pequeno apartamento do edifício, não tinha parentes e era muito religiosa. O padre Reinhold Gontard havia perdido a fé devido aos longos anos de guerra, e começou a beber. Anna Wagner estava com sua filha, Evi, e no último mês de gravidez do segundo filho; o marido estava lutando na guerra. Walter Schroeder era um químico, e fazia parte de uma equipe que trabalhava em um projeto para a construção de uma poderosa arma que seria usada contra os aliados e faria a Alemanha de Hitler vencer a guerra. Em sua mala, estavam importantes documentos que ele precisava fazer chegar a seus superiores.
        A jovem atriz Susanne Riemenschmied iria ler um poema para um público de adolescentes, a convite de uma associação cultural, justamente no dia em que aconteceu o bombardeio. O soldado do Exército alemão Robert Faber, de 25 anos, chegara à cidade, vindo do campo de batalha, de onde desertou por não concordar com a matança sem sentido da guerra. Enquanto tentavam cavar para chegar ao outro lado do abrigo e conseguir libertar-se, os homens no abrigo expuseram a maneira como viam o mundo e a guerra, e as suas diferenças eram fortes demais, tão fortes que colocavam em risco a segurança de todos no abrigo.
        Eu preciso contextualizar: a Áustria foi anexada pela Alemanha em 1938, contrariando os termos do Tratado de Versalhes, assinado após o fim da Primeira Guerra Mundial. O governo austríaco não resistiu à pressão e ameaças de Hitler, que passou a interferir no país até anexá-lo, transformando-o em uma província do Terceiro Reich alemão. A maioria dos austríacos aceitou a anexação passivamente, sem nenhuma reação, até pela sua ligação histórica com a Alemanha. A Áustria somente recuperou a sua independência após o fim da Segunda Guerra Mundial, passando a ser ocupada pelos aliados.
        Walter Schroeder defendia a vitória alemã:
        “Nosso movimento tinha que surgir – exclamou Schroeder, apaixonado. – E surgiu por causa dos crimes e erros de outros. Por causa da Primeira Guerra Mundial, do Tratado de Versailles, que foi uma idiotice, do comportamento irresponsável dos países vencedores. Também a Primeira Guerra não estourou por ter sido Guilherme II um aleijão cheio de complexos de inferioridade. Também ela teve causas muito mais profundas. A história do nosso mundo é a história de um desenvolvimento incessante. Seria ridículo, sr. Gontard, passar um traço debaixo da data de 1933 e dizer: ‘Vocês são culpados por tudo o que aconteceu a partir daí’. Se nós perdermos esta guerra, o senhor poderá ver como tenho razão. A situação não há de se modificar. As mesmas crueldades de que agora nos acusam serão cometidas por outros. E mais uma vez hão de encontrar alguém em quem por a culpa. Tenho certeza disso. Esquecerão que fomos nós os culpados das culpas deles, como já esqueceram o que houve antes de nós.”
(Eu registro em meu blog um resumo das minhas leituras, seguindo a minha interpretação e preferências pessoais, como leitor, acerca do que mais me desperta o interesse, sem preocupação em me aprofundar em análises mais abrangentes e acadêmicas.) fr

terça-feira, 1 de julho de 2025

"O melhor do mau humor: uma antologia de citações venenosas", Ruy Castro

“O melhor do mau humor: uma antologia de citações venenosas”; seleção, tradução e organização de Ruy Castro, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, 154 páginas.
O livro reúne 1.427 frases de quase 500 personalidades, dentre elas Woody Allen, Nietzsche, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues e Oscar Wilde. Ruy Castro ressalta que, ao contrário dos dicionários tradicionais de citações, a obra não tem aqueles pensamentos “sublimes, edificantes e destinados a nos fazer acreditar que o ser humano é melhor do que parece”, mas dar ao leitor uma quantidade razoável de frases com forte carga de ironia e crítica “sob a embalagem elegante e educada”. fr 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

"Encontro no nevoeiro", J. M. Simmel

“Encontro no nevoeiro”, J. M. Simmel; tradução de José Abrahão, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1977, 151 páginas.

Primeiro livro do autor, publicado originariamente em 1947, reunindo sete contos. Johannes Mario Simmel foi jornalista, tradutor e escritor; nasceu em Viena, capital da Áustria, em 7 de abril de 1924, e faleceu em 1º de janeiro de 2009, aos 84 anos. fr