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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quem joga livros no lixo demonstra o quanto é estúpido (a)!

Este é um flagrante feito em Lisboa, Portugal. Três lixeiras abarrotadas de livros. Eu já comentei sobre esse tipo de atitude, considero isso uma demonstração de ignorância de quem não compreende a importância da leitura e é tão estúpido que, ainda por cima, não é capaz de doar os livros para uma escola, biblioteca ou para pessoas que queiram recebê-los. Bastava a pessoa fazer uma postagem em suas redes sociais dizendo que está doando os livros e, com certeza, apareceriam vários interessados. Como eu sempre digo, idiotas existem no mundo todo, seja no Brasil, em Portugal ou nos outros países. fr

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Polícia apreende 200 mil figurinhas falsificadas do álbum da Copa do Mundo

Estão falsificando as figurinhas da Copa do Mundo! A Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM) apreendeu, ontem, 200 mil figurinhas falsificadas e milhares de camisas e bonés da seleção brasileira no compartilhamento de carga de um ônibus em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, vindo de São Paulo. A carga falsificada estava destinada para ser vendida no Rio de Janeiro. De acordo com a imprensa, a diligência foi resultado de “informações de inteligência” e todo o material apreendido será periciado e, depois, inutilizado (será?). Ninguém foi preso. Além, claro, da notícia em si, que diz respeito a algo que existe no mundo todo, ou seja, a falsificação de produtos que têm grande procura, eu destaco, também, duas questões que eu quero comentar. A primeira, é que essa notícia me faz lembrar do livro “O gênio do crime”, de João Carlos Marinho, lançado em 1969, às vésperas do Mundial do México, e sobre o qual eu já comentei aqui no meu blog. No livro, um grupo de meninos investiga, por conta própria, uma quadrilha que estava falsificando o álbum da Copa; o livro é ótimo e este ano vai ser lançado um novo filme baseado nele, mais para a frente eu comento! A segunda, é que vários jogadores ficaram de fora do álbum, e não apenas do Brasil. No caso da seleção brasileira, metade dos convocados pelo treinador Carlo Ancelotti ficaram de fora, até mesmo o Neymar! A razão é porque a editora Panini enviou o material para a gráfica com muita antecedência, foram meses antes da convocação. Eu não me interesso por colecionar álbuns de figurinhas há muito tempo, apesar de ser uma coisa muito legal, mas colecionei e completei o álbum da Copa do Mundo de 1982, que eu guardo até hoje. fr  

sábado, 30 de agosto de 2025

Homenagem: Morre escritor, cartunista, dramaturgo Luis Fernando Verissimo (1936-2025)

HÁBITO NACIONAL

Luis Fernando Verissimo

Por uma destas coincidências fatais, várias personalidades brasileiras, entre civis e militares, estão no avião que começa a cair. Não há possibilidade de se salvarem. O avião se espatifará – e, levando-se em consideração o caráter dos seus passageiros, “espatifar” é o termo apropriado – no chão. Nos poucos instantes que lhes restam de vida, todos rezam, confessam seus pecados, em versões resumidas, e entregam sua alma à providência divina. O avião se espatifa no chão.

São Pedro os recebe de cara amarrada. O porta-voz do grupo se adianta e, já esperando o pior, começa a explicar quem são e de onde vêm. São Pedro interrompe com um gesto irritado.

- Eu sei, eu sei.

Aponta para uns formulários em cima de sua mesa e diz:

- Recebemos suas confissões e seus pedidos de clemência e entrada no céu.

O porta-voz engole em seco e pergunta:

- E... então?

São Pedro não responde. Olha em torno, examinando a cara dos suplicantes. Aponta para cada um e pede que se identifiquem pelo crime.

- Torturador.

- Minha financeira estourou. Enganei milhares.

- Corrupto. Menti para o povo.

- Sabe a bomba, aquela? Fui o responsável.

- Roubei.

- Me locupletei.

- Matei.

Etcétera. São Pedro sacode a cabeça. Diz:

- Seus requerimentos passaram pela Comissão de Perdão e foram rejeitados por unanimidade. Passaram pelo Painel de Admissões, uma mera formalidade, e foram rejeitados por unanimidade. Mas como nós, mais que ninguém, temos que ser justos, para dar o exemplo, examinamos os requerimentos também na Câmara Alta, da qual eu faço parte. Uma maioria esmagadora votou contra. Houve só um voto a favor. Infelizmente, era o mais importante.

- Você quer dizer...

- É. Ele. Neste caso, anulam-se todos os pareceres em contrário e prevalece a vontade soberana d’Ele. Isto aqui ainda é o Reino dos Céus.

- E nós podemos entrar?

São Pedro suspira.

- Podem. Se dependesse de mim, iam direto para o Inferno. Mas...

Todos entram pelo Portão do Paraíso, dando risadas e se congratulando. Um querubim que assistia à cena vem pedir explicações a São Pedro.

- Mas como é que o Todo-Poderoso não castiga essa gente?

E São Pedro, desanimado:

- Sabe como é, Brasileiro...

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Editora de Curitiba é obrigada a cancelar concurso literário devido a inscrições de textos criados pela Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial (IA) vai transformar o mundo, para o bem e para o mal. Uma editora em Curitiba precisou cancelar, no início do mês, o “Prêmio Kotter 2025” devido à identificação de várias obras apresentadas terem sido criadas através da IA. O prêmio está em sua segunda edição e visa a distinguir “livros autorais inéditos que se destaquem nas áreas de literatura, filosofia e política”. De acordo com o proprietário da editora, Salvio Kotter, este ano foram inscritas cerca de 900 obras, das quais, pelo menos 40 apresentaram “sinais óbvios do uso de Inteligência Artificial, como comentários feitos pela própria ferramenta”. Em nota, a editora justificou a decisão pela “impossibilidade de identificar com a certeza necessária esse uso”, mas informa estar “estudando como realizar o concurso, ano que vem, em tempos de IA”. Essa é a questão fundamental: como identificar, com precisão, o que é feito e o que é dito pela Inteligência Artificial? fr

domingo, 23 de março de 2025

Você sabia que já houve um tempo em que os "contos de fadas" eram histórias pesadas para adultos?

        Lobo mau, três porquinhos, cinderela, príncipes, princesas, bruxas e dragões fazem parte da infância de praticamente todo mundo. Mas, você sabe como surgiram os chamados “contos de fadas? Essas histórias fantásticas têm sua origem em contos que eram transmitidos oralmente, de geração a geração, principalmente na Europa ao longo da História. Curiosamente, no início, os “contos de fada”, como ficaram genericamente conhecidos, não eram destinados às crianças, mas aos adultos.
        Essas histórias tinham como tema principal questões sérias como a fome, a miséria, o adultério, feitiçaria, a morte da mulher nos partos feitos em casa (que dariam origem às madrastas más e às órfãs desprotegidas), a violência e até o canibalismo. Segundo Sheldon Cashdan, escritor e professor de Psicologia, os temas eram bem pesados:
     “Muitos dos primeiros contos de fada incluíam exibicionismo, estupro e voyeurismo. Em uma das versões de ‘Chapeuzinho Vermelho’, a vovozinha faz um striptease para o lobo, antes de pular na cama com ele. Numa das primeiras interpretações de ‘A Bela Adormecida’, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida. E no conto ‘A Princesa que não conseguia rir’, a heroína é condenada a uma vida de solidão porque, inadvertidamente, viu determinadas partes do corpo de uma bruxa.”
        Ao longo dos séculos, esses contos foram reproduzidos para o papel, e, em 1695, o escritor e poeta francês Charles Perrault publicou “Contos da Minha Mãe Gansa”, com uma coletânea de histórias populares. O propósito inicial do trabalho não era ser destinado a crianças, mas em uma republicação que o autor fez no ano seguinte as histórias passaram a ser adaptadas para um público infantil, principalmente meninas, amenizando as sinistras temáticas.

        Entre as histórias, destacaram-se “A Bela Adormecida no Bosque”, “O Gato de Botas”, “O Pequeno Polegar”, “Chapeuzinho Vermelho”, “O Barba Azul” e “A Gata Borralheira”. Perrault é considerado o primeiro a transpor para o papel, de forma literária, as histórias que eram contadas oralmente até então, sendo considerado o “pai da Literatura Infantil”.
        Mais de um século depois, os irmãos alemães Grimm (Jacob e Wilhelm), estudiosos do folclore, pesquisaram e selecionaram antigas histórias populares, contando, inclusive, com a ajuda de pessoas conhecidas e de suas memórias familiares. Entre 1812 e 1822, os irmãos publicaram uma seleção de 100 histórias, com o título “Contos de fadas para crianças e adultos”, que continham diversas semelhanças com as histórias de Charles Perrault. “João e Maria”, por exemplo é a história de uma família que abandona o casal de filhos na floresta por causa da falta de comida em casa, uma realidade da Idade Média. E os dois irmãos quase foram comidos por uma bruxa canibal.
        O poeta e romancista dinamarquês Hans Christian Andersen publicou entre 1835 e 1872 o livro “Contos”, com cerca de 200 contos infantis, com textos de sua autoria e adaptações do conhecimento popular. Andersen passou a ser considerado o primeiro grande divulgador da Literatura Infantil. Ainda no século 19, outras histórias entraram para o acervo dos contos de fadas. “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, do inglês Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson, foi publicado em 1865. A história do boneco de madeira “Pinóquio”, que desejava ser humano, foi lançada pelo italiano Carlo Collodi, em 1883. Modernamente, várias outras histórias vêm sendo lançadas. Os contos de fadas vêm entretendo crianças e adultos ao longo da História e sendo difundidas pelo mundo inteiro através de livros e adaptações para o cinema e televisão, principalmente pelos Estúdios da Walt Disney. fr 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Livro brasileiro faz sucesso na China e é adotado nas escolas

O livro “O meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, é um dos meus preferidos, e eu já o indiquei aqui, no meu blog, pode-se dar uma lida pesquisando no índice, em “Livros”, aqui ao lado. O livro é baseado na infância pobre do autor, no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, e foi lançado em 1968. E já deu origem a três telenovelas, a filmes, e foi traduzido em vários idiomas. Na China, o livro foi adotado como leitura para os estudantes dos ensinos fundamental e médio nas escolas, e já vendeu mais de 400 mil exemplares, desde a primeira edição, em 2010. A História é sobre o Zezé, um menino de cinco anos. Ele mora com a família, é muito levado, e, por isso, apanha dos irmãos mais velhos e do pai, que desconta nele as frustrações de estar desempregado e não poder pagar as despesas de casa. A única irmã que tem mais paciência e carinho com ele é Glória. Triste e sentindo-se sozinho, Zezé brincava apenas com o irmãozinho mais novo, e passou a conversar com uma árvore de laranja lima, no quintal de casa, a quem chamava de “Minguinho”, o seu amigo imaginário e por quem tinha grande afeição. Em uma de suas travessuras, Zezé gostava de agarrar-se no carro do Portuga, um senhor por quem acabou desenvolvendo uma forte amizade. Não vou adiantar o que acontece para não estragar o prazer da leitura, mas indico, mais uma vez, a leitura desse livro maravilhoso! fr            

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

“Mais Comédias para ler na escola”, Luis Fernando Verissimo

“Mais Comédias para ler na escola”, Luis Fernando Verissimo, 1º edição, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2010, 148 páginas.
Nova coletânea de textos de Luis Fernando Verissimo. A apresentação e seleção dos textos são da escritora Marisa Lajolo. E ela destaque a importância da leitura deste livro: “Se livro fosse remédio — que tem bula e rótulo —, aqui se leria que estas ‘Mais Comédias para Ler na Escola’ não têm contraindicação. Na escola ou em casa, lendo por iniciativa própria ou porque a escola o adotou, este livro só tem indicações a favor. Todo mundo sai ganhando: lendo porque-o-professor-mandou-e-vai-cair-na-prova ou porque se sabe que ler qualquer livro de Luis Fernando Verissimo é uma grande experiência de leitura, estas Mais Comédias para Ler na Escola são garantia de boas risadas e de boa leitura. Que não fica menos divertida ao se acompanhar de alguma reflexão, como a que aqui também se inspira. O que não é pouco, não é mesmo?” Eu destaco os meus textos preferidos, que pretendo publicar um dia aqui no meu blog, a começar por hoje: “A metamorfose” e “Clarice”. 
fr

A metamorfose (Luis Fernando Verissimo)

A METAMORFOSE
Luis Fernando Verissimo

        Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e descobriu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Acionou suas antenas e não tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que vergonha, estou nua! O seu segundo pensamento humano foi: que horror! Preciso me livrar dessas baratas!
        Pensar, para a ex-barata, era uma novidade! Antigamente ela seguia o seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto da cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto à parede, porque os hábitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armário, roupas de baixo, um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas são iguais, mas uma mulher precisa realçar a sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia? Tinha educação? Referências? Conseguiu, a muito custo, um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas, era uma boa faxineira.
        Difícil era ser gente. As baratas comem o que encontram pela frente. Vandirene precisava comprar sua comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Se conhecem, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. A primeira noite. Vandirene e seu torneiro mecânico. Difícil. Você não sabe nada, bem? Como dizer que a virgindade é desconhecida entre as baratas? As preliminares, o nervosismo. Foi bom? Eu sei que não foi. Você não me ama. Se eu fosse alguém você me amaria. Vocês falam demais, disse Vandirene. Queria dizer, vocês, os humanos, mas o marido não entendeu; pensou que era vocês, os homens. Vandirene apanhou. O marido a ameaçou de morte. Vandirene não entendeu. O conceito de morte não existe entre as baratas. Vandirene não acreditou. Como é que alguém podia viver sabendo que ia morrer?
        Vandirene teve filhos. Lutou muito. Filas no INPS. Creches. Pouco leite. O marido desempregado. Finalmente, acertou na esportiva. Quase 4 milhões. Entre as baratas, ter ou não ter 4 milhões não faria diferença. A barata continuaria a ter o mesmo aspecto e a andar com o mesmo grupo. Mas Vandirene mudou. Aplicou o dinheiro. Trocou de bairro. Comprou casa. Passou a se vestir bem, a comer e dar de comer de tudo, a cuidar onde colocava o pronome. Subiu de classe. (Entre as baratas, não existe o conceito de classe.) Contratou babás e entrou na PUC. Começou a ler tudo o que podia. Sua maior preocupação era a morte. Ela ia morrer. Os filhos iam morrer. O marido ia morrer – não que ele fizesse falta. O mundo inteiro, um dia, ia desaparecer. O Sol. O universo. Tudo. Se espaço é o que existe entre a matéria, o que é que fica quando não há mais matéria? Como se chama a ausência do vazio? E o que será de mim quando não houver mais nem o nada? A angústia existencial é desconhecida entre as baratas.
        Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penúltimo pensamento humano foi, meu Deus, a casa foi dedetizada há dois dias! Seu último pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. Kafka não significa nada para as baratas.

domingo, 21 de abril de 2024

A leitura é fundamental na vida de uma pessoa

              

"O livro é gênero de primeira necessidade e devia estar na cesta básica."  ZIRALDO

terça-feira, 26 de março de 2024

Eu trouxe alguns livros de autores brasileiros para deixar em Portugal

Eu trouxe para Portugal alguns dos meus livros que eu já tinha separado para doação, todos de autores brasileiros. Três eu dei a motoristas de Uber, que me atenderam por aqui e com quem eu conversei e foram simpáticos comigo. A uma motorista portuguesa, em Lisboa, eu dei o livro “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, um clássico brasileiro; ela gostou muito. Outros dois motoristas eram brasileiros, em Faro, e por coincidência os dois são de Goiás.  Um disse que estava querendo encontrar um livro para que o filho copiasse e melhorasse a caligrafia, ficou muito satisfeito. Dei a ele “Brida”, de Paulo Coelho, um dos autores mais lidos no mundo.  O outro motorista disse que trabalhava no Brasil como professor de Língua Portuguesa e Literatura, além de ser escritor. Dei a ele “José de Alencar: Sua Contribuição para a Expressão Literária Brasileira” , tudo a ver com um professor de Literatura. A esposa de um primo, dei “Kairós”, do padre Marcelo Rossi, e ela adorou! Dei “Senhora”, de José de Alencar, para que a minha prima entregasse à filha do irmão dela, já falecido, que se formou em Comunicação, como eu. Alguns livros eu deixei em comboios de Lisboa, com  um bilhete (ver minhas fotos) para que fossem encontrados por pessoas que gostam de ler, como fazem no mundo inteiro. "Ágape", do padre Marcelo Rossi, eu dei ao hotel em que fiquei em Lisboa, lá eles têm vários livros a disposição dos hóspedes. Os outros livros eu deixei na Cabine de Leitura, no Jardim Manuel Bivar, em Faro. Primeiro, “O Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, como eu já tinha publicado aqui no meu blog.  Como eu vi que o livro foi pego por alguém, já que não estava mais lá, deixei outros, que também sumiram rápido: “A Primeira Reportagem”, de Sylvio Pereira; “Antologia de Contos Escolares Brasileiros” e “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, outro clássico brasileiro. fr

domingo, 24 de março de 2024

Doei um livro meu para a Cabine de Leitura no Jardim Manuel Bivar, em Faro

Passeando pelo Jardim Manuel Bivar, em Faro, vi uma Cabine de Leitura, que tem o objetivo de estimular o hábito de leitura nas pessoas. Eu doei um livro brasileiro: “O Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, um dos autores mais traduzidos no mundo. Foi uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Faro, utilizando as antigas cabines telefônicas. A cabine do Jardim Manuel Bivar foi inaugurada em 27 de junho de 2019. Os interessados escolhem um dos livros e pode deixar outro em seu lugar, ou ler o livro no Jardim e devolvê-lo à cabine. Pelo que eu vi, todos os livros que estavam na cabine do Jardim eram em inglês. fr

domingo, 8 de outubro de 2023

O meu conto foi selecionado e está no livro lançado pela Per Se em homenagem ao centenário de nascimento de Millôr Fernandes 📘

Este ano comemora-se o centenário de nascimento de Millôr Fernandes. Jornalista, desenhista, escritor, tradutor, poeta e dramaturgo ele nasceu em 16 de agosto de 1923, no bairro do Méier, no Rio de Janeiro, tendo falecido em 2012. A Per Se organizou uma coletânea em homenagem ao Millôr Fernandes utilizando algumas de suas famosas frases como sugestão de tema. Foi com grande alegria que eu recebi a notícia de que o meu conto “Chapolin Colorado” foi um dos textos selecionados e foi publicado no livro, que já está à venda na página da Per Se. A frase que eu escolhi e na qual eu baseei a história do meu conto foi “Chato... é o indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele.”. fr

terça-feira, 25 de abril de 2023

Chico Buarque recebe Prêmio Camões após 4 anos de intolerância e ódio


Enfim, o escritor e cantor Chico Buarque de Holanda recebeu o Prêmio Camões, após quatro anos de espera. A cerimônia ocorreu ontem no Palácio de Queluz, local onde nasceu e morreu D. Pedro I, e onde eu estive com minha mãe em 2018; e já contei aqui no meu blog sobre a minha viagem a Portugal, com fotos que eu fiz. O Prêmio é de 2019, mas, infelizmente, o então presidente Jair Bolsonaro recusou-se a entregá-lo a Chico Buarque por questões meramente políticas. O presidente Lula está em visita oficial a Portugal e fez questão de entregar o prêmio, com a presença do presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa.

Em seu discurso, Chico Buarque lembrou o pai:

“Ao receber esse Prêmio eu penso no meu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa. Relembro quantas vezes interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos juvenis, que ele julgava sem complacência e sem excessiva severidade, para em seguida me indicar leituras que poderiam me valer numa eventual carreira literária. 

Mais tarde, quando me bandeei para a música popular, não se aborreceu, longe disso, pois gostava de samba, tocava um pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius de Moraes, para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje aqui, se bem que, caso fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria na assistência e ele cá, no meu posto, a receber o prêmio Camões com muito mais propriedade.”

E finalizou, destacando a importância da derrota do governo de Bolsonaro, a quem fez questão de fazer um agradecimento público:

“Quatro anos com uma pandemia no meio davam às vezes a impressão que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele governo foi derrotado nas urnas mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça facista persiste, no Brasil e por toda parte. Hoje, porém nessa tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para assinatura do nosso presidente Lula.

Recebo esse prêmio menos como uma honraria pessoal e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo. Muito obrigado.” Na foto acima, Chico Buarque recebe o diploma. Ao lado, os presidentes de Portugal e do Brasil.  fr 

quarta-feira, 8 de março de 2023

Ruy Castro é o novo membro da Academia Brasileira de Letras

O jornalista e escritor Ruy Castro tomou posse como membro da ABL (Academia Brasileira de Letras) no sábado, dia 4. Ele assumiu a cadeira nº 13, no lugar do diplomata Sergio Paulo Rouanet, falecido em julho do ano passado. Ruy Castro trabalhou em veículos de comunicação importantes, como o ‘Correio da Manhã’, ‘Jornal do Brasil’ e a ‘Folha de São Paulo’. Recebeu, entre outros, os prêmios Esso de Literatura, Nestlé de Literatura Brasileira, quatro edições do Prêmio Jabuti e o Prêmio Machado de Assis da ABL. Entre os seus livros, pode-se citar as biografias “O Anjo Pornográfico” (Nelson Rodrigues), “Carmen: Uma Biografia” (Carmen Miranda) e “Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha”. Estes dois últimos eu já li e comentei aqui no meu blog. fr

sábado, 26 de novembro de 2022

Feliz por ter sido um dos selecionados no Concurso de Contos do Museu da República

Ontem, foi um dia muito especial. Eu recebi o Certificado de Premiação Literária por ter sido um dos 10 selecionados no Concurso de Contos do Museu da República. A entrega foi no Auditório do Museu e contou com a presença de dois dos membros da Comissão Julgadora, além de dois representantes do Museu. O Museu pretende publicar os contos em seu site oficial no ano que vem. Muito feliz! fr

https://museudarepublica.museus.gov.br/concurso-de-contos-um-museu-de-historias/

sexta-feira, 20 de maio de 2022

"A polêmica" (Artur Azevedo)

A POLÊMICA
Artur Azevedo

     O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrara de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.
     Felizmente era solteiro, e o dono da “pensão” onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.
     Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.
     Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontrava na rua.
     O negociante ouviu-o, e disse-lhe:
     ─ Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que te vou pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...
     ─ Estou às tuas ordens.
     ─ Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no “Jornal do Comércio”, um artigo contra o Saraiva.
     ─ Que Saraiva?
     ─ O da rua Direita.
     ─ O João Fernandes Saraiva?
     ─ Esse mesmo.
     ─ E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?
     ─ Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.
     A essa palavra “cobres”, o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:
     ─ Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...
     ─ Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito que seja mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero trata-lo com luva de pelica. Sou o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade. Escreves o artigo?
     ─ Mas...
     ─ Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.
     ─ Tenho escrúpulos...
     ─ Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.
     E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar um contra o outro, dois amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil. O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.
     O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura da lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.
     ─ Muito bem! ─ exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.
     ─ Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!
     E, depois de um passeio à burra, meteu um envelope na mão do Romualdo, dizendo-lhe:
     ─ Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. A época é difícil, mas há de se arranjar.
     O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil réis! Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!
     Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da “pensão” que lhe emprestasse o “Jornal do Comércio”, e viu a sua prosa “Eu e o sr. João Fernandes Saraiva”, assinada pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espírito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.
     À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra “urgente”.
     Ele abriu-a e leu:
     “Romualdo. ─ Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do ─ João Fernandes Saraiva”.
     Este bilhete inquietou o ex-jornalista.
     Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe... Mas para que me chamará ele?
     O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!
     ─ Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.
     O menino foi-se.
     O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.
     Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:
     ─ Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!
     E levou-o para um compartimento reservado.
     ­─ Leste o “Jornal do Comércio” de hoje?
     ─ Não ─ mentiu prontamente o Romualdo. ─ Raramente leio o “Jornal do Comércio”.
     ─ Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!
     O Romualdo fingiu que leu.
     ─ Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! ─ bradou o Saraiva. ─ Aquilo é uma besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!
     ─ O artigo não está mau... Tem até estilo...
     ─ Preciso responder!
     ─ Eu, no teu caso, não respondia...
     ─ Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio “Jornal do Comércio” e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.
     ─ Eu?...
     ─ Tu, sim! Eu podia escrever mas... que queres?... Estou fora de mim!...
     ─ Bem sabes ─ gaguejou Romualdo ─ que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...
     ─ Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!
     No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.
     Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:
     ─ Por amor de Deus não te recusas a este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado, precisas ganhar algumas coisa...
     O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.
     Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: ─ Bravo! Não poderia sair melhor! ─ e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil réis e entregou-o ao prosador.
     ─ Oh! Isto é muito, Saraiva!
     ─ Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pagues bem!
     ─ Obrigado: mas olha... recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no “Jornal” pode haver alguém que conheça a minha letra.
     ─ Copiá-lo-ei eu mesmo.
     ─ Adeus.
     ─ Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!
     ─ Está dito.
     No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o “Jornal do Comércio” na mão.
     ─ O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!
     E batendo com as costas da mão no jornal:
     ─ Isto não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas, ainda assim, quem escreveu por ele está longe de ter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...
     E o Romualdo escreveu...
     Durante um mês, teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um, ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.
     Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: ─ Escreve! Escreve! Eu quero ser o último!
     Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.
     E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu harmonizá-los.
     O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.

"Contos escolhidos", Artur Azevedo, São Paulo, editora Click, 1997, 159 páginas (Coleção Livros O Globo, vol. 15).