
Dom Casmurro, Machado de Assis, São Paulo, editora Klick,
1997, 269 páginas (Coleção Livros O Globo, vol. 1).
Aviso: O texto a seguir
contém revelações sobre o enredo do livro.
Prosseguindo no firme proposito de ler todos
os romances de Machado de Assis (1839-1908) e postar aqui no meu
blog sobre cada um deles, reli “Dom Casmurro”. Publicado pela
Livraria Garnier em 1900, mas informando em sua folha de rosto ter sido em
1899, é o terceiro livro que o autor escreveu influenciado pelo chamado
Realismo, após “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”, dos quais
já escrevi aqui.
“Dom Casmurro” foi escrito pelo autor para
ser publicado em livro, ao contrário de outros, que saíram inicialmente na
imprensa, em publicações semanais. Considerado por muitos críticos a principal
obra de Machado de Assis, e uma das mais importantes da literatura brasileira,
foi traduzida para vários idiomas e adaptada para o cinema, teatro, televisão e
quadrinhos. Tem como grande destaque o debate se Capitu traiu ou não o marido, Bento
Santiago, o Bentinho.
O livro
é construído em capítulos, a maioria pequenos, e narrado pelo próprio Bento
Santiago, de forma retrospectiva. A estória é entrecortada por alguns capítulos
com passagens que nada têm a ver com ela propriamente, apenas reminiscências do
narrador, divagações ou comentários soltos. O narrador não tem pressa, vai
narrando de forma arrastada a estória, não há muita ação: “Suspendamos a pena e
vamos à janela espairecer a memória”. Em determinado momento, o narrador
reconhece:
“Aqui devia ser o meio do livro, mas a
inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase ao fim do papel, com o
melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas,
capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta
página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegaremos ao fim.”
Bento Santiago mora apenas com um criado em
uma casa no Engenho Novo, no Rio de Janeiro. A sua residência foi construída
para reproduzir a casa em que foi criado na Rua de Matacavalos, atual Rua
Riachuelo, no Centro da cidade. É mais um livro que Machado de Assis recorre a
um narrador para contar a estória. E é ele quem explica a origem do apelido que
deu origem ao título do livro:
“Uma noite destas, vindo da cidade para o
Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu
conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da
lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os
versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu
estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele
interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
— Continue, disse eu acordando.
— Já acabei, murmurou ele.
— São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez
do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a
dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que
não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que
afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e
eles, por graça, chamam-me assim (...)”
As lembranças têm início em novembro de 1857,
em sua infância, quando Bentinho, como era carinhosamente chamado, era muito
próximo da vizinha Capitolina, a Capitu, ambos com 14 anos, mas esta era mais
madura e segura de si. A amiga era filha de um modesto funcionário público. Conviviam
desde os quatro anos e se apaixonaram, mas a mãe de Bentinho havia feito uma
promessa no seu nascimento que ameaçava o amor dos dois. O primeiro filho de D.
Glória nascera morto, e ela fez a promessa que se o próximo sobrevivesse, sendo
menino, ela o levaria para a Igreja.
Sem poder contar com a ajuda do pai, que já morrera,
recorreu à ajuda de José Dias, um agregado que vivia com sua família há anos, e
o incentivava a ir estudar na Europa, a fim de acompanhá-lo como uma espécie de
responsável. O pai de Bentinho fora um fazendeiro e político. Mas nada fez com
que D. Glória voltasse atrás em sua promessa, nem mesmo o fato do filho dizer
não ter vocação e pedir para que ela desistisse da ideia. Nos dois anos em que
estudou no seminário, voltando para casa aos sábados, conheceu Ezequiel Escobar,
que passou a ser seu grande amigo.
E é justamente Escobar que encontrou a
solução para Bentinho conseguir se livrar de se tornar padre, sem que a mãe
quebrasse sua promessa. D. Glória financiaria os estudos religiosos de algum
menino órfão, em substituição ao filho. Convencida de que o filho não tinha a
vocação necessária para seguir a vida religiosa, D. Glória permitiu que
Bentinho deixasse o seminário para estudar Direito em São Paulo. O amigo
Escobar fez o mesmo, tornando-se comerciante, e casando com Sancha, melhor amiga
de Capitu.
Após formar-se em Direito e retornar para o
Rio de Janeiro, Bentinho e Capitu casaram-se em 1865. As duas famílias
constantemente se encontravam, visitando-se regularmente. Ezequiel e Sancha tiveram
uma filha e a batizaram com o nome da amiga, Capitu. Anos depois, Bentinho e a
esposa também tiveram um filho, a quem deram o nome de Ezequiel. O nascimento
da criança demorou, reforçando para alguns estudiosos da obra de Machado de
Assis o possível adultério de Capitu por conta de uma suposta dificuldade de
Bentinho em ser pai.
Corroído pela convicção
de ter sido traído, Bentinho passou a sentir aversão ao filho. Em momento de
desespero, chegou a pensar em cometer o suicídio colocando veneno em seu café,
mas no momento em que iria se matar o filho entrou em seu escritório. Ele
decidiu, então, matar a criança com o mesmo veneno, porém desistiu. Falou para
Ezequiel que não era o seu pai, sendo ouvido por Capitu, que negou a traição.
Bentinho decidiu que os dois deviam se separar, e passou a viver recluso, mantendo
romances esporádicos e sem importância com algumas mulheres, tornando-se,
assim, o ‘Dom Casmurro’ do início do relato.
O grande diferencial
deste livro é justamente a dúvida suscitada quanto a verdadeira paternidade do
filho de Capitu, devido a sua semelhança física com Ezequiel. É, com certeza, a grande questão da
literatura nacional: Capitu traiu ou não Bentinho? fr
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