
Em seu discurso, Chico
Buarque lembrou o pai:
“Ao receber esse Prêmio eu penso no
meu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, de quem herdei
alguns livros e o amor pela língua portuguesa. Relembro quantas vezes
interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos juvenis, que ele julgava
sem complacência e sem excessiva severidade, para em seguida me indicar
leituras que poderiam me valer numa eventual carreira literária.
Mais tarde, quando me bandeei para a
música popular, não se aborreceu, longe disso, pois gostava de samba, tocava um
pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius de Moraes, para quem a palavra
cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa
língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje aqui, se bem que, caso
fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria na assistência e ele
cá, no meu posto, a receber o prêmio Camões com muito mais propriedade.”
E finalizou, destacando a
importância da derrota do governo de Bolsonaro, a quem fez questão de fazer um
agradecimento público:
“Quatro anos com uma pandemia no meio
davam às vezes a impressão que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No
que se refere ao meu país, quatro anos de governo funesto duraram uma
eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele
governo foi derrotado nas urnas mas nem por isso podemos nos distrair, pois a
ameaça facista persiste, no Brasil e por toda parte. Hoje, porém nessa tarde de
celebração, reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não
sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para
assinatura do nosso presidente Lula.
Recebo esse prêmio menos como uma honraria pessoal e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo. Muito obrigado.” Na foto acima, Chico Buarque recebe o diploma. Ao lado, os presidentes de Portugal e do Brasil. fr
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