“Memórias do Cárcere”, Graciliano Ramos; Rio de Janeiro, editora Record, s/ano, v. 1, 378 páginas, e v. 2, 319 páginas (Coleção Mestres da Leitura Contemporânea, volumes 40 e 41).
Livro em que Graciliano Ramos (1892-1953) recorda o período em que esteve preso de março de 1936 a janeiro de 1937, após a chamada Intentona Comunista, uma tentativa fracassada realizada em novembro de 1935 em Natal, no Recife e no Rio de Janeiro, de derrubar o governo de Getúlio Vargas. O movimento foi organizado pela ANL (Aliança Nacional Libertadora), liderada por Luis Carlos Prestes, com o apoio da Internacional Comunista, estrutura de disseminação do comunismo pelo mundo, com sede em Moscou. A intenção era implantar o comunismo no Brasil, e acabou por dar origem a um período de denúncias e perseguições. Apesar de não ter havido acusação formal ou processo, o escritor foi preso, considerado simpático ao movimento comunista.
O livro foi escrito a partir de 1946, já no governo de Eurico Gaspar Dutra, mas Graciliano não chegou a concluí-lo, devido a um forte desânimo que sentia e ao enfraquecimento de sua saúde. Foi publicado em setembro de 1953, meses após o seu falecimento, ocorrido em 20 de março, aos 60 anos, devido a um câncer de pulmão. São dois volumes com cerca de 700 páginas. O escritor tinha consciência que não veria o livro publicado: “Estou a descer para a cova, este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão – e provavelmente isto será publicação póstuma, como convém a um livro de memórias.”
Na obra, Graciliano Ramos conta ter sido preso em 1936, em sua casa, em Maceió, onde morava com a esposa e oito filhos, após ter sido demitido da Instrução Pública de Alagoas devido a pressões sobre o governador daquele estado. Graciliano foi alertado por um ex-colega do trabalho e por uma parenta sobre a iminência de sua prisão, mas preferiu aguardar os acontecimentos, não os questionando, nem procurando quem o pudesse ajudar a entender o que acontecia.
“Ótimo. Num instante decidi-me. Não me arredaria, esperaria tranquilo que me viessem buscar. Se quisesse andar alguns metros, chegaria à praia, esconder-me-ia por detrás de uma duna, lá ficaria em segurança. Se me resolvesse a tomar o bonde, iria até o fim da linha, saltaria em Bebedouro, passaria o resto do dia a percorrer aqueles lugares que examinei para escrever o antepenúltimo capítulo do romance. Não valia a pena. Expliquei em voz alta que não valia a pena. Entrei na sala de jantar, abri uma garrafa de aguardente, sentei-me à mesa, bebi alguns cálices, a monologar, a dar vazão à raiva que me assaltara. Propriamente não era monólogo: minha mulher replicava com estridência. Escapava-me a significação da réplica, mas a voz aguda me endoidecia, furava-me os ouvidos. Não conheço pior tortura que ouvir gritos. Devia existir uma razão econômica para esse desconchavo: as minhas finanças equilibravam-se com dificuldade, evitávamos reuniões, festas, passeios. De fato as privações não me inquietavam. Minha mulher, porém, sentia-se lesada, o que me fazia perder os estribos. De repente um ciúme insensato. A incongruência me arrancava a palavra dura:
- Que estupidez!
Naquele momento a ideia da prisão dava-me quase prazer: via ali um princípio de liberdade. Eximira-me do parecer, do ofício, da estampilha, dos horríveis cumprimentos ao deputado e ao senador; iria escapar a outras maçadas, gotas espessas, amargas, corrosivas. Na verdade suponho que me revelei covarde e egoísta: várias crianças exigiam sustento, a minha obrigação era permanecer junto a elas, arranjar-lhes por qualquer meio o indispensável. Desculpava-me afirmando que isto se havia tornado impossível. Que diabo ia fazer, perseguido, a rolar de um canto para outro, em sustos, mudando o nome, a barba longa, a reduzir-me, a endividar-me?”
Graciliano Ramos aceitou a prisão também porque desejava saber qual acusação existia contra ele, e por acreditar que o período de reclusão daria a ele a oportunidade de ter a tranquilidade que precisava para revisar o seu livro recém-terminado. Deixou o livro “Angústia” pronto quando foi preso, que ele, exigente com a correção do texto, pretendia ainda revisá-lo, mas que acabou sendo publicado pela Editora José Olympio quando Graciliano estava na cadeia. Com certeza, ele não gostaria de ver em seu livro a utilização da palavra “porque” em perguntas, o que eu vi várias vezes: “Porque não?” ao invés do correto “Por que não?”.
Em um misto de orgulho e muita desinformação sobre o que acontecia no país, Graciliano Ramos tinha a ilusão de não se demorar preso: “Julgava é que não me deteriam nem uma semana. Dois ou três dias depois me mandariam embora, dando-me explicações. Um engano.” O escritor relembrou o dia em que foi preso, por um tenente que, um mês antes, havia lhe pedido que a reprovação de sua sobrinha fosse revista, o que ele negou.
“Afinal, cerca de sete horas, um automóvel deslizou na areia, deteve-se à porta – e um oficial do exército, espigado, escuro, cafuz ou mulato, entrou na sala.
- Que demora, tenente! Desde o meio-dia estou à sua espera.
- Não é possível, objetou o rapaz empertigando-se.
- Como não? Está aqui a valise pronta, não falta nada.
(...)
- Vai apenas essa maleta? Aqui entre nós posso dizer: acho bom levar mais roupa. É um conselho.”
De Maceió, Graciliano Ramos foi transferido para Recife e, mais tarde, para o Rio de Janeiro e Ilha Grande, tendo convivido com presos políticos; militares que participaram da Intentona Comunista; magistrados; e presos comuns, como ladrões e assassinos. Havia um permanente medo do que se falava e com quem se falava devido à suspeita de delatores e espiões. Permanente desconfiança. E medo de furtos. As roupas eram vestidas pelo avesso e os objetos vigiados permanentemente.
No livro, o autor relata as péssimas condições das cadeias onde ficou; a pouca e péssima comida; as doenças; as negociações realizadas entre os presos, com venda de camas, por exemplo; as brigas; a corrupção e os abusos militares. Graciliano pouco conseguia comer, tendo emagrecido bastante; fumava muito e envelheceu durante os dias de prisão:
“- Que idade tem o senhor? Perguntou-me alguém.
Veio-me o desejo de conhecer o meu aspecto:
- Calcule.
- Sessenta e cinco anos, disse o interlocutor sem vacilar.
- Por aí, pouco mais ou menos, concordei num abatimento profundo.
Sessenta e cinco anos. Andava em quarenta e três, quarenta e três e meses. Atribuíam-me sessenta e cinco.”
No último capítulo, o filho de Graciliano Ramos, Ricardo Ramos, explica que o pai não conseguiu escrever o capítulo final, em que descreveria as suas impressões após a sua saída da prisão. O livro foi adaptado para o cinema em 1984, com direção de Nelson Pereira dos Santos e com o ator Carlos Vereza interpretando o escritor alagoano. Ano passado, a morte de Graciliano Ramos completou 70 anos, período em que, no Brasil, a obra de um autor passa a domínio público e as editoras passam a poder publicar os seus livros sem precisar pagar direitos autorais à família. A editora Record tinha os direitos de publicação até 2023. fr
Nenhum comentário:
Postar um comentário