“Vidas Secas”, Graciliano Ramos, 92ª edição, Rio de Janeiro, Editora Record, 2023, 176 páginas.
Livro lançado em 1938, após o período em que o autor esteve preso, de março de 1936 a janeiro de 1937, durante o governo de Getúlio Vargas, sem acusação formal ou processo, apenas por ser considerado “comunista”. Graciliano Ramos (1892-1953) contou a experiência em outro livro, “Memórias do Cárcere”, que eu já li e comentei anteriormente aqui, no meu blog.
Em “Vidas Secas”, o narrador, em terceira pessoa, assume a ótica de cada um dos personagens, inclusive de uma cachorra. É sobre a vida sofrida de quem vive no sertão nordestino, a partir da família de Fabiano, um homem rude e sem instrução, resignado com a dureza e as amarguras do dia a dia. Os outros são Sinhá Vitória, a esposa; os dois filhos, o “menino mais novo” e o “menino mais velho”; a cadela Baleia.
Sem perspectivas diante da seca, a família parte, a pé, em busca de algum lugar onde Fabiano possa encontrar trabalho, e acabam encontrando uma fazenda abandonada. Quando o proprietário aparece, Fabiano pede-lhe que o aceite para cuidar do lugar e que não fosse expulso. Em troca de um lugar para ele e sua família, passou a trabalhar e a viver na fazenda, sendo explorado e destratado por todos da região.
“Se pudesse mudar-se, gritaria bem alto que o roubavam. Aparentemente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da prefeitura. Tudo na verdade era contra ele. Estava acostumado, tinha a casca muito grossa, mas às vezes se arreliava. Não havia paciência que suportasse tanta coisa. — Um dia um homem faz besteira e se desgraça.”
O livro “Vidas Secas” é resultado da reunião de vários contos publicados anteriormente e de forma separada em vários veículos na imprensa, inclusive na Argentina. Foi uma forma que Graciliano Ramos encontrou para conseguir dinheiro para pagar as despesas, aumentadas com a vinda de sua família de Alagoas para o Rio. Publicou o mesmo conto em diferentes periódicos, apenas alterando o nome. Dos 13 capítulos, oito foram publicados na imprensa. No livro, os contos viraram capítulos e foram interligados em uma história maior. O seu biógrafo Dênis de Moraes comentou a respeito:
“'Baleia', o nono capítulo, foi o primeiro a ser escrito, em 4 de maio. Um mês e meio depois, escreveu “Sinha Vitória”, o quarto capítulo. E “Mudança”, o primeiro na ordem de apresentação, só ficou pronto em 16 de julho. As etapas do livro, portanto, não obedeceram a um esquema preestabelecido. Os episódios foram se amontoando, até que Graciliano os ordenasse para publicação, a pedido de José Olympio [fundador da editora que leva o seu nome e que lançou “Vidas Secas”]."
Graciliano Ramos era perfeccionista, acompanhou de perto os trabalhos de preparação do livro, inclusive indo pessoalmente à gráfica a fim de evitar erros na impressão. “Vidas Secas” é o quarto e último romance de Graciliano Ramos, publicado após “Caetés, “São Bernardo” e “Angústia”. Foi traduzido para vários países e adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos em 1963, mantendo o título da obra. fr
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