Os bombardeios dos Estados Unidos em território venezuelano e a captura de seu presidente em 3 de janeiro são mais um capítulo lamentável na contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Ano após ano, as grandes potências têm intensificado os ataques à
autoridade das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Quando o uso da
força para resolver disputas deixa de ser a exceção e se torna a regra, a paz,
a segurança e a estabilidade globais são colocadas em risco. Se as normas forem
seguidas apenas seletivamente, a anomia se instala e enfraquece não apenas os
Estados individuais, mas o sistema internacional como um todo. Sem regras
acordadas coletivamente, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e
democráticas.
Os chefes de Estado ou de governo – de qualquer país – podem ser
responsabilizados por ações que prejudiquem a democracia e os direitos
fundamentais. Nenhum líder tem o monopólio do sofrimento de seus povos. Mas não
é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça. As ações
unilaterais ameaçam a estabilidade em todo o mundo, interrompem o comércio e os
investimentos, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem ainda mais a
capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios
transnacionais.
É particularmente preocupante que tais práticas estejam ocorrendo na
América Latina e no Caribe. Elas trazem violência e instabilidade a uma parte
do mundo que luta pela paz por meio da igualdade soberana das nações, da
rejeição do uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos. Em mais de
200 anos de história independente, essa é a primeira vez que a América do Sul
sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, embora as forças americanas
tenham intervindo anteriormente na região.
A América Latina e o Caribe
abrigam mais de 660 milhões de pessoas. Temos nossos próprios interesses e
sonhos a defender. Em um mundo multipolar, nenhum país deve ter suas relações
exteriores questionadas por buscar a universalidade. Não seremos subservientes
aos esforços hegemônicos. A construção de uma região próspera, pacífica e
pluralistas é a única doutrina que nos convém.
Nossos países devem lutar por uma agenda regional positiva que seja
capaz de superar as diferenças ideológicas em favor de resultados pragmáticos.
Queremos atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover
empregos de qualidade, gerar renda e expandir o comércio dentro da região e com
nações fora dela. A cooperação é fundamental para mobilizar os recursos de que
tanto precisamos para combater a fome, a pobreza, o tráfico de drogas e as
mudanças climáticas.
A história tem demonstrado que o uso da força nunca nos aproximará
desses objetivos. A divisão do mundo em zonas de influência e as incursões
neocoloniais por recursos estão desatualizadas e são prejudiciais.
É fundamental que os líderes das principais potências entendam que um
mundo de hostilidade permanente não é viável. Por mais fortes que sejam essas
potências, elas não podem se basear apenas no medo e na coerção.
O futuro da Venezuela, e de qualquer outro país, deve permanecer nas
mãos de seu povo. Somente um processo político inclusivo, liderado pelos venezuelanos,
levará a um futuro democrático e sustentável. Essa é uma condição essencial
para que os milhões de cidadãos venezuelanos, muitos dos quais estão
temporariamente abrigados no Brasil, possam retornar com segurança para casa. O
Brasil continuará trabalhando com o governo e o povo venezuelano para proteger
os mais de 1.300 quilômetros de fronteira que compartilhamos e para aprofundar
nossa cooperação.
É nesse espírito que meu governo tem se engajado em um diálogo
construtivo com os Estados Unidos. Somos as duas democracias mais populosas dos
continentes americanos. Nós, no Brasil, estamos convencidos de que a união de
nossos esforços em torno de planos concretos de investimento, comércio e
combate ao crime organizado é o caminho a seguir. Somente juntos poderemos
superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

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