
“Carmen: Uma Biografia”, Ruy Castro, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, 597 p.
Eu li o livro por curiosidade sobre a
artista que sempre fez questão de se dizer brasileira, e que chegou a ser a
mais famosa e bem remunerada nos Estados Unidos nos anos 1940 e 1950. Escrevo
nestas postagens um pouco do que li, e se os leitores do meu blog se
interessarem, fica a minha dica para a leitura do livro. Maria do Carmo
Miranda da Cunha nasceu em 9 de fevereiro de 1909, portanto, este ano
completou-se 110 anos de seu nascimento.
Ela nasceu em Várzea de Ovelha, aldeia
de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canavezes, distrito do Porto,
província da Beira Alta, no Norte de Portugal. A família morava de favor em um
sobrado de pedra bem pobre, que tinha o térreo e mais um andar, com chão de
terra batida e sem água e sem luz.
Por muito pouco, Carmen não nasceu no Brasil.
Olinda, a primeira filha de seus pais, nasceu em 8 de dezembro de 1907, cerca
de dois meses antes do assassinato do rei de Portugal, Dom Carlos I. O casal resolveu
sair do país para fugir da instabilidade política, e decidiu vir para o Brasil
no segundo semestre do ano seguinte. A mãe, Maria Emilia, no entanto,
engravidou de Carmen, o que adiou a viagem para algum tempo depois de seu
nascimento.
O apelido “Carmen”, que viria a
se tornar anos mais tarde o seu nome artístico, surgiu através do tio materno,
Amaro. Ele dizia que a sobrinha era “morena como uma espanhola” e fez uma
associação com a personagem de ópera “Carmen”, de Bizet. A partir de então,
todos só a chamaram assim. O pai de Carmen, José Maria Pinto da Cunha, à
época com 22 anos, e o tio Amaro foram para o Porto, e de lá vieram para o Rio
de Janeiro em setembro de 1909, em um navio de carga. Com eles, quase cem
outros portugueses vieram de forma legal, além de outros tantos clandestinos
abarrotando a terceira classe.
À época, centenas de pessoas saíram de
Portugal em busca de uma vida melhor no Brasil. No Rio, havia aproximadamente
200 mil portugueses, o que representava algo em torno de 20% da população da
cidade. José Maria contou com a ajuda de um conterrâneo, que o ajudou a se
instalar e o apresentou a outro português, também de Marco de Canavezes.
Ele passou a trabalhar em sua
barbearia, na esquina da atual Av. Rio Branco com a Rua Mayrink Veiga. Entrou
como sócio minoritário, participando com o trabalho. A sociedade durou dois
anos, quando, a partir de então, José Maria abriu um salão com o cunhado na Rua
da Misericórdia nº 70. A mãe, Maria Emilia de Barros Miranda, ficou em
Portugal com Carmen e a filha mais velha, Olinda, de
dois anos e nove meses.
O plano de José Maria e Amaro era vir
para o Rio de Janeiro trabalhar como barbeiros. Pretendiam trazer a família
quando tivessem condições financeiras, o que ocorreu dois meses depois. Carmen
chegou ao Rio em 17 de dezembro de 1909, com apenas dez meses e oito dias,
com a mãe e a irmã. Elas também vieram em um navio de carga. A mãe passou a
trabalhar como lavadeira, para ajudar o marido.
O pai de
Carmen era austero em casa, mas mulherengo fora dela. E a mãe tinha
conhecimento de suas amantes, inclusive a madrinha de uma de suas filhas,
Cecilia, foi uma das primeiras. José Maria chegou a se separar para viver com
uma delas, retornando depois para casa. Maria Emilia, por sua vez, acreditava
que era necessário se conformar, aceitando como algo com que as mulheres deveriam
lidar no casamento.
O casal teve seis filhos:
Olinda; Carmen; Mario (“Amaro” “Mocotó”), o primeiro a nascer no Brasil;
Cecilia; Aurora e Oscar (“Tatá”). Após o registro de seu xará, o tio Amaro
decidiu retornar à Europa, indo para a Inglaterra, e “nunca mais deu notícias”.
Dos irmãos, Cecilia, Oscar e Aurora seguiram os passos de Carmen na carreira
artística, mas foi Aurora quem conseguiu seguir mais adiante. Ela participou,
inclusive, do filme de Walt Disney, “Você já foi à Bahia?” (“The Three Caballeros”),
contracenando com os personagens Pato Donald e Zé Carioca.
Mario foi atleta do remo do Vasco da
Gama, chegando a representar o Brasil nas Olimpíadas de 1932, em Los Angeles. A
delegação brasileira teve enormes dificuldades financeiras para viajar, chegou
atrasada. Mario não conseguiu conquistar nenhuma medalha; assim como nenhum outro
atleta brasileiro. Esta acabou sendo a pior participação do país em Olimpíadas.
Carmen
demonstrou desinibição desde cedo, e falava muitos palavrões, por influência do
pai. Ela gostava de cantar nos corais da Igreja e, depois, enquanto trabalhava.
Carmen começou a trabalhar ainda menor de idade, no mesmo atelier que a irmã
Olinda. Trabalhou também em outras lojas, como uma chapelaria, onde era
vendedora de chapéus e gravatas. Aos 14 anos, Carmen abandonou a escola, após
completar o ginásio, sendo de todos os filhos a que recebeu uma instrução
razoável.
Quando moraram em uma casa na Travessa
do Comércio nº 13, no Arco do Telles, Centro do Rio, a mãe abriu uma pensão em
que servia almoços para os trabalhadores. Carmen cantava enquanto ajudava
atendendo as mesas. Eu cheguei a almoçar algumas vezes nesse local há alguns
anos, evidentemente administrado por outras pessoas. Há algum tempo o imóvel
encontra-se fechado, e nem o quadro que fazia referência à cantora está mais lá
(pode-se vê-lo em uma das minhas fotos, abaixo). Carmen e sua família moraram
neste endereço de 1925 até metade de 1931.
E foi justamente um dos frequentadores
da pensão da mãe, o baiano Anibal Duarte de Oliveira, “vagamente jornalista”,
que se encantou com ela. Ele a indicou para um show beneficente em janeiro de
1929, no Instituto Nacional de Música. O violonista e compositor Josué de
Barros a ensaiou para a apresentação, e passou a considerá-la sua descoberta,
sendo o seu primeiro orientador profissional. Este show foi sua primeira
apresentação para uma plateia. A partir daí, Josué de Barros passou a apresentá-la
a amigos e a levá-la para se apresentar em programas de rádio, sempre com o
consentimento dos pais.
No mesmo ano, Josué a levou para a
gravadora Brunswick, onde Carmen gravou o seu primeiro disco, mas este demorou
a ser lançado. Os dois procuraram, então, a gravadora Victor. Em janeiro de
1930, os discos das duas gravadoras foram lançados praticamente juntos no Rio
de Janeiro. O da Brunswick não teve grande repercussão, por conta do despreparo
da gravadora, mas o da Victor alcançou grande sucesso.
À época, os discos eram simples, de 78
rpm, com uma única música em cada lado. Era o início de uma carreira de muito
sucesso e dinheiro, e de uma rotina de muito trabalho, era o início da artista Carmen
Miranda. À medida que recebia seus pagamentos, Carmen foi melhorando a vida
de sua família. Ela contratou uma cozinheira para que a mãe não tivesse mais que
trabalhar na cozinha de sua pensão. E montou um grande salão na Rua Primeiro de
Março nº 95 para o pai, além de comprar um telefone e uma mobília nova para o
quarto dos pais.
Carmen Miranda passou a se apresentar
nos teatros de revistas. Em poucos meses, já era uma estrela, com vários discos
gravados, e constantes apresentações semanais nas rádios e teatros, passando,
também, a ser contratada para fazer propagandas. Carmen já não gravava mais
músicas de Josué de Barros, passara a gravar de compositores como Ary Barroso,
André Filho, Lamartine Babo, Ismael Silva e Noel Rosa.
Em 1932,
enfim, conseguiu entrar no mundo do cinema, uma paixão desde criança, quando
chegou a se inscrever em um concurso de calouros cinematográficos. A primeira
aparição de Carmen Miranda no cinema foi cantando “Bamboleô” no documentário
sonoro “O Carnaval cantado de 1932”. Assim como outros, este filme
acabou desaparecendo, com a destruição de suas cópias ao longo do tempo.
O jovem
locutor Cesar Ladeira criou na Rádio Mayrink Veiga o slogan “A pequena notável” para Carmen. O “pequena” era
sinônimo de garota na época, não era referência aos seus 1.52 de altura. No ano
seguinte, ela passou a se apresentar constantemente, e com muito sucesso, em
Buenos Aires, onde era chamada de “Carmencita”, inclusive com a irmã, Aurora,
também cantora. No final da década de 1930, Carmen apresentava-se nos três
Cassinos que existiam no Rio de Janeiro: Copacabana Palace, Cassino da Urca e o
Cassino Atlântico.
E se apresentou com os maiores nomes
da música brasileira à época: Francisco Alves, Sylvio Caldas, Carlos Galhardo,
Almirante, Dircinha Batista, Orlando Silva, Aracy de Almeida, e sua irmã,
claro, Aurora Miranda. O pai de Carmen Miranda morreu em 1938, aos 52 anos, de
nefrite aguda e insuficiência cardíaca. Carmen e Aurora não puderam ir ao
enterro porque estavam cantando na Argentina.
Carmen
Miranda iniciou sua carreira internacional em 1939, quando assinou
contrato com uma gravadora estadunidense para gravar três discos, ou seja, seis
músicas. Foi o início de sua vida nos Estados Unidos, de muito sucesso e de uma
rotina estafante. Ela foi contratada para ser uma das atrações de “Streets of
Paris”, um espetáculo musical que se apresentou em Boston e Nova Iorque durante
meses. Entre os outros artistas contratados, havia uma nova dupla de cômicos,
que faria enorme sucesso anos depois: Abbott & Costello.
Ela levou para acompanhá-la o grupo “Bando
da Lua”. Carmen se apresentava também em outras casas e ainda fez o filme
“Serenata Tropical” no início de 1940. O esforço fez com que emagrecesse, e
desmaiasse em um dia de filmagens. Foi nesta época que passou a tomar medicamentos:
estimulantes para ter energia para aguentar os compromissos, e também soníferos
para conseguir dormir.
Carmen Miranda chegou a ser a artista
estrangeira e a mulher que mais ganhava dinheiro em todos os Estados Unidos.
Muito do que ganhava ia para empresários, outra parte para o Imposto de Renda.
Assim como muitos outros artistas nos Estados Unidos, ela não declarava tudo o
que recebia como pagamento, bens materiais como carros e joias, por exemplo. E
também não guardava recibos de suas despesas.
Ela chegou a ser multada pelo Leão
naquele país, em 1940. Não sabia lidar com os seus lucros, não guardava o
dinheiro em bancos, e sim em casa, nem o investia em aplicações. E gastava
muito em presentes para os familiares e amigos. Fazia muitos shows,
participações em rádio e televisão, gravações de filmes.
Carmen retornou ao Brasil e ao Rio de Janeiro em julho de 1940, com a intenção de tirar férias e descansar. Mas não conseguiu recusar participar de uma apresentação beneficente no Cassino da Urca, a pedido da esposa do presidente Getúlio Vargas, dona Darcy Vargas. A plateia era composta em grande parte por funcionários do governo, um público diferente do seu, que era bem mais popular. A recepção foi fria e indiferente. Reclamavam que ela teria voltado distanciada das coisas do Brasil. Em função disso, meses depois Carmen gravou ainda no Brasil a música “Disseram que Voltei Americanizada", em resposta. Em outubro, voltou para Nova Iorque, levando a mãe para morar com ela. fr (Continua na postagem abaixo.)



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